“Se queres, podes purificar-me” (Mt 8,2b)

“SE QUERES, PODES PURIFICAR-ME” (Mt 8,2b)*

Por Hermes de Abreu Fernandes

Hoje, sexta feira da 12ª Semana do Tempo Comum, o texto do Evangelho que nos inspira é Mt 8,1-4. Estamos nos acontecimentos posteriores ao que chamamos o Sermão da Montanha, situado do capítulo 5 até o 7 de Mateus. Nele, podemos encontrar a essência do magistério de Jesus. Em seguida, como que para legitimar os ensinamentos do mestre, o Evangelista Mateus passa ao relato de uma cura. O texto inicia-se assim: “Quando desceu da montanha, seguiram-no grandes multidões” (Mt 8,1a). De onde podemos perceber um desejo de expressar continuidade nos acontecimentos. Como que se o sinal realizado pelo Messias, tivesse íntima relação com a mensagem anunciada anteriormente. De fato, assim o é. Bem diz a sabedoria popular: “as palavras convencem, os exemplos arrastam”. Um ato de misericórdia de Jesus vai solidificar sua mensagem. Misericórdia para com uma das classes de pessoas mais excluídas no contexto judaico: os leprosos.

Ao curar um leproso, Jesus triunfa sobre uma impureza contagiosa considerada castigo divino por excelência (cf. Dt 28,27.35), sinal do pecado que exclui da sociedade humana e comunidade religiosa (cf. Lv 13-14). Abolindo a fronteira entre o puro e impuro, Jesus sinaliza o significado de sua missão. O que podemos ver confirmado em Mt 11,5:

“os cegos recobram a vista e os coxos andam direito, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres…”

Ao curar um leproso, Jesus faz mais que restaurar a saúde. Ele ressignifica a condição da pessoa humana, restituindo-lhe a dignidade, trazendo-a ao seio dos seus; rompendo com todo um processo de exclusão. Após o discurso inaugural de seu ministério, onde Jesus apresenta sua mensagem, Mateus não poderia arrematar melhor sua narrativa. Apresentando o messias que anuncia a Boa Nova e restaura a condição humana, passiva de exclusão e miséria.

O que vem a acontecer depois da cura deste leproso, provoca o imaginário dos leitores deste Evangelho. Jesus adverte ao leproso que não contasse a ninguém (cf. Mt 8,4a), em seguida, exorta que ele se apresente ao sacerdote do Templo e faça a oferta prescrita por Moisés (cf. Mt 8,4b). Ora, se o próprio Evangelista inicia sua narrativa no capítulo 8 dizendo que Jesus era seguido por uma multidão (cf. Mt 8,1a), pouco provável seria que eles, o leproso e Jesus, estivessem em uma situação de privacidade. Claro está que a cura aconteceu sob o olhar da supracitada multidão. Como se justifica a advertência de não contar nada a ninguém, se o fato fora testemunhado por um grupo de pessoas? A explicação se dá pelas palavras seguintes, onde Jesus exorta que ele se apresente ao sacerdote e, na oportunidade, faça a oferta prescrita por Moisés. Vejamos:

  • A lepra em um contexto Bíblico:

O texto grego do Evangelho fala de lepra, de limpar e da oferta estabelecida pela lei. Esta sequência de palavras, reveste-se de seus significados de forma rítmica, quase que como em uma música. Estamos, pois, no âmbito de Lv 13-14: uma elaborada sintomatologia de doenças de pele, de gravidade variada, que contagiam por contato e podem excluir do convívio social e religioso. É muito duvidoso que se trate da hanseníase, descrita como lepra nos dias de hoje. A versão grega da Bíblia traduziu por lepra um termo hebraico genérico que engloba muitas lesões de pele.

  • O Sacerdote como avaliador da doença e da cura:

Os sacerdotes examinavam, diagnosticavam e, algumas vezes, confirmavam a necessidade de isolar o doente da convivência na sociedade e da comunidade religiosa, dado o risco de contágio. Exemplo interessante desta exclusão pode ser visto nos relatos de 2Rs 7. Outros casos a se lembrar seriam o de Miriam (Nm 12) e o rei Ozias (2Cr 26,16-21).

  • A oferta:

Os dois tópicos acima justificam a relação da pessoa do sacerdote do Templo e a cura. O mesmo examinava, atestava a doença e, quando em caso de cura ou ausência dela, era ele quem o testificava. A oferta? Ora, em se tratando de ser abençoado com cura ou ausência da doença, Moisés prescreveu ser oportuna uma oferta em Ação de Graças. Algo que depois foi revestido do rigorismo da religião judaica, nasceu da voluntária alegria de ser abençoado por Yahweh.

Como vimos acima, o conselho de não contar nada a ninguém, de apresentar-se ao sacerdote e de fazer a oferta prescrita; se encaixa no desejo de Jesus de restaurar não só a saúde do homem, mas restituir-lhe a dignidade. Uma vez atestada no templo sua cura, a pessoa estaria totalmente reintegrada à sociedade e à comunidade religiosa.

A ação de Jesus é, ao mesmo tempo, expressão de sua misericórdia para com quem sofre e de oposição às pessoas e às estruturas que produzem a marginalização sofrida pelos leprosos, por razões de ausência de sua saúde e indiferença dos religiosos de seu tempo (cf. Lv 13). A religião favorecia a exclusão social e religiosa, sob a argumentação teológica de que a lepra era resultado do pecado. Por isso, não era suficiente dizer que o leproso estava curado. Era preciso desafiar o sistema político e religioso, que mantinha pessoas sofridas em estado de abandono e desprezo. E assim fez Jesus: curou, restaurou, resgatou.

Em nossos dias, muitos são os grupos humanos que, assim como no tempo de Jesus, estão deixados à margem da dignidade. Marginalizados, assim como os leprosos no contexto do Evangelho. São nossos irmãos e irmãs em situação de rua, as muitas mulheres prostituídas, os que estão, ou deixaram os sistemas prisionais, os pobres todos. Assim como os poderes políticos e religiosos judaicos nos tempos de Jesus; nossa sociedade deseja criar uma casta digna, preterindo a todos que não estão afinados com suas greis. Negam aos humanos a dignidade humana. Expurgam seus indesejáveis com a marginalização, a exclusão, o abandono. Temos nossos fariseus. Nossos grupos excludentes em nome de uma casta pura, bela e santa.

A Igreja de Jesus deve trazer para si o exemplo deixado na narrativa de Mateus hoje. O Olhar misericordioso e inclusivo de Jesus, voltado ao leproso; deve ser nosso olhar aos leprosos de nossos tempos. Solidariedade, acolhida e compaixão com os deixados à margem da dignidade humana, se faz imperativo. Não pode haver uma Igreja – verdadeiramente cristã – se esta não se colocar ao lado dos fracos, dos marginalizados, dos esquecidos. Acolhamos a todos e todas, a partir da pedagogia de Jesus: o amor. Muito faz, quem muito ama.

***

* As citações bíblicas transcritas neste texto são da TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), Nova Edição Revista e Ampliada, São Paulo: Edições Loyola, 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s