Êxodo: Uma Introdução

Por Hermes A. Fernandes


Este texto é fruto de um estudo comum. Resume uma série de verbetes e comentários bíblicos sobre o tema. Abriga em si notas introdutórias da Bíblia de Jerusalém, da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), Nova Bíblia Edição Pastoral e a Bíblia do Peregrino. Esperamos que possa ajudar na compreensão do Livro do Êxodo. Há que se sublinhar, em tempo, que este é a continuidade de nossos estudos sobre o Pentateuco, seguindo nossos textos recentes sobre o Gênesis. Vamos embarcar nessa aventura pelo Livro do Êxodo?

Sabemos que na Bíblia Hebraica, é costume nomear cada livro com a primeira palavra dele. O livro do Êxodo chama-se Shemôt (שְׁמוֹת), que vem significar Nomes. O título Êxodo é de tradição grega (ἔξοδος). Traduzindo em si a saída do Povo de Deus da condição de escravos no Egito por volta de 1250 a.C. A este Êxodo se associa uma grandiosa imagem de como Deus feriu poderosamente o faraó com uma série de pragas, libertando da opressão as doze tribos de Israel. Presente neste livro também está a narrativa de um elenco de fenômenos, pelos quais, Javé manifesta sua força e Aliança junto ao seu povo. Neste contexto se insere a abertura do Mar Vermelho. Não podemos nos esquecer da celebração da Aliança no Monte Sinai, onde Javé faz das Doze Tribos de Israel seu Povo Eleito e as guia pelo deserto, em direção à terra que havia prometido ao patriarca Abraão.

Quem desconhece a mensagem do Êxodo jamais entenderá o sentido de toda a Bíblia, pois está fundamentada nesse livro a ideia de que se tem de Deus, tanto no Primeiro como no Segundo Testamento. De fato, a mensagem central do Êxodo é a revelação do nome do Deus verdadeiro: JAVÉ (YHWH). Embora de origem discutida, esse nome no Êxodo está intimamente ligado à libertação do povo hebreu. Javé é o único Deus que ouve o clamor do povo oprimido e o liberta, para estabelecer com ele uma aliança e lhe dá leis que transformem as relações entre as pessoas. Daí surge uma comunidade em que são asseguradas vida, liberdade e dignidade. Essa aliança é afirmada em duas formas: princípios de vida (Decálogo) que orientam o povo para um ideal de sociedade, e leis (Código da Aliança) que têm por finalidade conduzir o povo a uma prática desse ideal nos vários contextos históricos. Desse modo, o homem só é capaz de nomear o verdadeiro Deus quando o considera de fato como o libertador de qualquer forma de escravidão, e quando o mesmo homem se põe a serviço da libertação em todos os níveis da própria vida. Somente Javé é digno de adoração. Qualquer outro deus é ídolo, e deve ser rejeitado. Percebemos aí um convite a escolher entre o Deus verdadeiro e os ídolos. Tal escolha é decisiva: ou viver na liberdade, ou cultuar e servir à opressão e exploração.

Uma série de variações revela que o Livro, em sua forma atual, com a impressionante imagem aí narrada, provavelmente reflete, mais que fatos históricos, um longo processo de releituras e reinterpretações teológicas da história, que se consolidou por volta de 400 a.C. em Jerusalém. Exemplo de variações: ora Deus é Elohin (2, 23-25/3, 4-6), ora é Javé. O nome do sogro de Moisés também tem duas versões. Ora é Raguel (2, 18), ora é Jetro (3, 1). Sobre a montanha de Deus também há divergência. Ora é Horeb, ora é Sinai. Sobre o monarca do Egito, ora se refere a ele como o faraó (3, 10-11), ora como rei do Egito (3, 18-19). Até a reforma centralizadora de Josias, por volta de 620 a.C., a fé se expressava em Israel na divindade de deuses, deusas e traduções religiosas. O livro do Êxodo foi formado ao longo dos séculos, nos quais Israel sofreu violência e opressão; tanto dos próprios reis (1Rs 12, 4/Is 10,1/Am 6, 1-6/Os 7, 1-3/Mq 3, 1-3.9-12), quanto de reis estrangeiros (2Rs 17, 2-6/24, 10-17/25, 1-21). Eram situações que forneciam muitas memórias de opressão e libertação, que praticamente encobriram a narrativa original do Êxodo.

Neste longo processo, diversos grupos experimentaram diferentes divindades como presença libertadora aliada. Por isso, o Deus do Êxodo ora aparece como Elohin, o Deus familiar, (3,6 e 1Rs 12,28); ou como Elohin dos hebreus (5,3/3,18/7,16), onde cada Elohin é uma divindade diferente (cf. Gn 13,53); ora como El, o deus supremo do panteão cananeu (cf. Gn 46,3-4/Nm 23,22/24,8), presente no nome IsraEl, (“é El quem luta”, cf. Gn 32,29). Porém, o processo que começa com o estabelecimento de Javé como Deus oficial passa pela reforma de Josias, em que Javé se torna o Deus nacional de Israel e é finalizado no pós-exílio, quando Javé será compreendido como o único Deus que existe e todas estas divindades, antes citadas, serão identificadas como Javé. Daí a afirmação central do primeiro testamento: “Eu sou Javé, o seu Deus, que tirou você da terra do Egito, da casa da escravidão” (20,2).

Na base da compreensão da narrativa do livro do Êxodo deve estar a experiência de opressão de um pequeno grupo que fugiu (14, 5) e conseguiu a liberdade, aproveitando algum fenômeno natural: a noite escura, onde passa o Anjo da Morte, ferindo os primogênitos. Poderia ser um eclipse? Chuva de pedras? Tempestade de areia? Esse grupo traz a experiência da divindade que se mostra sensível à violência e à injustiça, fazendo-se presença libertadora junto aos oprimidos (2, 23-24/3, 7-9/At 7, 34), algo que está no coração do livro e da fé viva de Israel.

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Podemos compreender que o livro do Êxodo, assim como o todo Pentateuco em si, é como uma catequese pós-exílica. O retorno de Israel a sua terra, a reconstrução do Templo, as dificuldades que enfrentavam; abalou o moral do povo de Israel. Foi preciso que se resgatasse toda a epopeia de um povo escolhido, amado, liberto por Javé. Mais do que acreditar que a manipulação de fatos, a miscigenação de acontecimentos seja mentira; devemos compreender que o povo de Israel precisava resgatar em si a essência da mensagem de Javé: seu Amor Libertador.

bibliografia:

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição, revista e atualizada. São Paulo: Paulus, 2019.

KIBUUKA, Brian. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2019.

NOVA BÍBLIA PASTORAL. São Paulo: Paulus, 2018.

SCHÖKEL, Luís Afonso (org). Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 1997.

TEB: Tradução Ecumênica Bíblica. Nova Edição Revista e Atualizada. São Paulo: Edições Loyola, 2020.

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