Gn 12-50: História dos Patriarcas e Matriarcas

Gn 12-50: História dos Patriarcas e Matriarcas

Por Hermes A. Fernandes

Em textos anteriores, discorremos sobre a origem de tudo o que conhecemos. Gênesis trata, nos seus 12 primeiros capítulos, estes temas que desafiam os pensadores: De onde viemos? Como tudo foi criado? Por que estamos aqui? Qual a origem do Mal? Links dos textos anteriores, serão disponibilizados abaixo, ao fim deste artigo.

Em sequência aos nossos modestos estudos sobre o Gênesis, daremos continuidade com os relados da História dos Patriarcas e Matriarcas. Tais relatos se iniciam com a história de Abrão, que será renomeado por Yahweh posteriormente como Abraão. Seguiremos sobre seus descendentes até a descida de Jacó para o Egito. Continuemos nossa aventura pelo Livro do Gênesis!

1.1: Gn 12-50: Os Patriarcas e Matriarcas de Israel

Essa segunda parte de Gênesis trata de dois temas. O primeiro é a respeito da vida e das andanças de grupos pequenos de pastores seminômades (12-36). Sua caminhada é sustentada pela dupla promessa de descendência numerosa e da definitiva posse da terra. Deus chega a fazer aliança com Abraão, garantindo o cumprimento da esperança desses sem terra. O segundo tema desse bloco é a ida de Jacó com toda sua família para o Egito, a casa da servidão (37-50). Mesmo no Egito, permanece a esperança de sair para uma terra onde corre leite e mel (GASS, 2005c, p. 148-149).

São vários os gêneros literários presentes nos textos de Gênesis. Há narrativas diversas, novelas (a história de José do Egito tem características de novela), sagas e mitos. O mito não é uma historinha falsa, mas a expressão de muitos conteúdos do passado como uma forma de linguagem por meio da qual o ser humano expressa o reconhecimento do que está ao seu redor. Lembre-se que a palavra “mito” origina-se do grego mythos e é uma narrativa de uma experiência fundante, daquilo que realmente conta, que é fundamental para o ser humano se perceber como ser humano.

  1. 2: Gênesis 12-26: Mães e Pais do Povo

“[…] Eu sou El Shaddai, anda na minha presença e sê perfeito.
Eu instituo minha aliança entre mim e ti, e te multiplicarei extremamente”
(Gn 17, 1b-2).

No bloco de Gn 12-26 temos narrativas sobre as mães e os pais do povo. O objetivo dos textos não é relatar de forma exata e fotográfica os acontecimentos, mas dizer ao povo quem ele era, de onde vinha e para onde tinha de ir. Cada tribo tinha suas histórias e seus antepassados, porém, com Gênesis procurou-se chegar a uma história única. A redação final deste bloco também ocorreu provavelmente na época do cativeiro babilônico ou até mesmo depois.

É interessante perceber nas narrativas que Yaweh abençoou Abraão, prometeu TERRA e POVO (posteridade). A história de Ismael, filho de Abraão com Agar, embora escrita por aqueles que se consideram a “nação da Aliança”, mostra que os povos vizinhos não são esquecidos (Gn 25,1-6). As narrativas não deixam de ser, entretanto, versão a partir daqueles que se autocompreendem escolhidos de Yahweh, como povo eleito com o qual Deus fez a Aliança. Há uma concepção teológica de que existe um Deus do céu e da terra, Yahweh, Deus de Abraão, que concede bênçãos (Deus que abençoa) e promessas (Terra e Povo).

É bom lembrarmos também que entre os principais grupos que formaram Israel, o dos pastores e pastoras seminômades de Canaã era um deles. Pais (Abraão, Isaac e Jacó) e mães (Sara, Agar, Rebeca, Raquel e Lia) são personagens históricos, velhos antepassados, que deram origem aos nomes de seus grupos e de seus/suas descendentes. As estiagens prolongadas e a falta de alimento levavam esses grupos a se deslocarem. Confira em Gn 12,10-20 (ida de Abraão e Sara ao Egito); Gn 26,1-14 (ida de Isaac e Rebeca a Gerara); e Gn 41,53-57 (ida de Jacó e todo o clã ao Egito). Essas transmigrações nem sempre eram tranquilas. Abraão e Isaac entregaram suas mulheres aos haréns dos reis, para receberem em troca proteção e comida. Nos relatos de Gn 12 e Gn 26 (observe também a variante em Gn 20,1-18), Sara e Rebeca expressam a opressão e uso sexual das mulheres na cidade, vítimas de violência e abuso de poder.

Tradições populares muito bonitas serviram para animar a fé e fortalecer a identidade do povo. Mas também foram manipuladas para justificar atitudes de concentração de poder da monarquia davídica. Considerando as releituras que essas antigas tradições sofreram, não é difícil perceber que a promessa de posteridade que Deus faz a Abraão (Gn 12,1-3) já era uma realidade concretizada em Davi e Salomão. Evidentemente, esses relatos justificaram os interesses da corte. Tais interesses podem ser observados também em Gn 19,30-38, mais uma etiologia: o texto quer explicar o parentesco com os moabitas e amonitas e a sujeição desses a Salomão. Da mesma forma, a etiologia presente em Gn 25,19-34 (e 27,1-45) quer explicar a supremacia de Israel sobre os edomitas (descendentes de Esaú/Edom). O roubo da bênção de Esaú por Jacó serviu aos interesses de Salomão, justificando a forma como ele usurpou o trono real de seu irmão mais velho Adonias, o herdeiro legítimo (GASS, 2005b).

As promessas de bênção e de uma grande nação são um dos fios condutores da obra de Gênesis, cf. Gn 12,1-3; 13,14-16; 18,18; 22,17-18; 26,3-4; 27,28-29; 28,14 (GASS, 2005b). Mas a promessa de bênção para Abraão também foi entendida pela teologia política da corte como concretizada. A riqueza prometida a Abraão e aos outros patriarcas (Gn12,16; 13,2; 26,12-14; 30,43) foi vista como uma antevisão da riqueza da corte salomônica (1Rs 10,23). E a redação final dos textos faz uma espécie de “costura”, de forma a mostrar Abraão como pai de todos os povos. Com Sara, Abraão tornou-se bisavô dos israelitas (doze filhos de Jacó) e dos edomitas (filhos de Esaú), cf. Gn 35,23-26 e 36,1-43; com Agar, avô dos ismaelitas (doze filhos de Ismael), cf. Gn 25,13-16; com Cetura, pai dos madianitas (ou midianitas) e outros povos, cf. Gn 25,1-4; do lado de seu irmão Harã, Abraão torna-se tio do amonitas e moabitas, cf. Gn 19,30-38; e do lado do outro irmão, Nacor, tio dos arameus, cf. Gn 22,20-24. A bênção de um povo numeroso chegou ao Egito, por meio de José e de Moisés. Essa teologia é utilizada até nos dias hoje pelo estado de Israel para justificar sua dominação sobre povos mais fracos, especialmente os palestinos.

Outro assunto com certo peso nesse bloco de textos é o tema da circuncisão, que surge nas narrativas como um sinal de pertença a Yahweh e a um povo. Trata-se de um rito de iniciação ao casamento e à vida em família que já existia antes do exílio (confira textos como Gn 34,14-15; Ex 4,24-26; Lv 12,3). Porém, em Gn 17, uma narrativa que se originou entre os deportados na Babilônia, a circuncisão aparece como sinal de distinção dos outros povos e de pertença a um grupo e a Deus. O texto de Gn 17 é uma releitura de Gn 15, narrativa na qual Deus faz aliança com Abraão. Evidentemente, em tempos de ameaça de perda da identidade, tal como o preceito de guardar o sábado, a circuncisão passa a ser um elemento de unificação.

Como marca da aliança, o rito poderia ter função semelhante à do arco-íris que sinalizava a aliança entre Deus e a humanidade, representada pela pessoa de Noé, em Gn 9,12-17. Mas os círculos sacerdotais, ao insistirem tão fortemente nesse tema, acabam por reforçar a exclusão de dois grupos: os estrangeiros e as mulheres. Enquanto o arco-íris cobre a todos os seres vivos (Gn 9,10), a circuncisão destina-se somente ao homem, tornando-o diretamente ligado a Yahweh. A mulher se ligava a Yahweh indiretamente por meio do homem. Por isso, é relevante quando os textos de Dt 10,16; 30,6 e Jr 4,4; 6,10 insistem na circuncisão do coração e do ouvido.

O texto de Gn 21,8-21 expressa a resistência a essa visão excludente. Na história de Agar com Ismael, Yahweh ouviu o clamor da criança e veio em auxílio dela. Visto na perspectiva do templo de Jerusalém, Deus pertence a Judá, a tribo mais forte do Sul. E o culto das tribos do Norte é considerado idolatria. Por isso, essa narrativa questiona a postura dos teólogos do templo de Jerusalém, Yahweh não é apenas Deus de Judá, de Israel, mas de todos os povos, representados em Ismael (ismaelitas).

O ciclo de Jacó vai de Gn 25,10 a 36,43. A maior parte das tradições descritas neste bloco originou-se nas tribos do Norte e remonta à época de Salomão ou ao período posterior à sua morte (ocorrida em 931 a.C.). As narrativas estão numa perspectiva de resistência contra Judá e suas tentativas de retomar o poder sobre Israel. Os conflitos entre Esaú e Jacó podem ser uma metáfora ao relacionamento entre israelitas e edomitas, bem como os conflitos entre Labão e Esaú uma metáfora dos conflitos entre israelitas e arameus. Os conflitos entre Esaú e Jacó, desde o útero de Rebeca, referem-se também aos conflitos entre Judá e Israel, à opressão do Sul sobre o Norte. Leia Gn 27, 5-13. 27-29, veja como Rebeca alterou os costumes da casa patriarcal e “interferiu nos rumos da história”, ao converter a bênção de Yahweh para Israel contra Judá/Esaú.

Quanto aos aspectos teológicos, é interessante perceber que junto com a divindade Yahweh havia a presença de inúmeras outras divindades típicas da região. Por muito tempo, o culto oficial a Yahweh esteve ao lado do culto a outras divindades. Confira Gn 31,19.30.32-35 (divindades domésticas); Gn 30,14-16 (divindades da fertilidade); Gn 33,20 (El, Deus cananeu); Gn 35,4.8 (a árvore sagrada) (GASS, 2005b).

Em suma, sobre a diversidade religiosa no início da formação de Israel, podemos dizer que:

[…] é o Deus da bênção (Gn 12,1-3), da promessa de água e pasto para os rebanhos, bem como de herdeiro (Gn 15;17) […] os pastores não têm templo. Seu lugar de culto e junto a árvores frondosas (Gn 18,1), a colunas (Gn 28,18.22; 31,13; 35,14), ou em qualquer lugar. O altar é de terra ou de pedras não lavradas (Ex 20,22-26). Não há sacerdotes especializados. As funções sacerdotais são realizadas pelos membros das famílias, isto é, pelo pai (Gn 17,23) e por mulheres (Gn 31,19s; Ex 4,24ss) (cf. GASS, 2005, p. 42).

Havia também os ‘terafins’, deuses dos lares (Gn 31,19-42) e as deusas da fecundidade, ou seja, pequenas imagens usadas nos cultos domésticos ou nos santuários pequenos. Os espaços religiosos dos/as seminômades são as árvores sagradas (Gn 12,6ss; 21,33; 35,4; cf. Jz 4,5; 9,6), pedras sagradas (Gn 28,10-22), passagens de rios (Gn 32,22-32) e montanhas (Gn 22). Os primeiros santuários de Yaweh surgiram em Silo e sob a administração de sacerdotes masculinos (SCHÖKEL, 2008).

Outros títulos, associados às famílias ou clãs, são dados à divindade: El Elion (Gn 14, 18-20); El Roí (Gn 15,13-14); El Olam (Gn 21,33); entre outros. Observamos que “se os hebreus designavam seu Deus com o termo El, isso significa que eles, em sua origem, também participam da cultura e da religião cananeia” (GASS, 2005, p. 37).

Assim, podemos falar de uma diversidade e pluralidade religiosa no início de Israel. Só posteriormente é que veremos uma teologia monoteísta elaborada.

  1.  3: Gênesis 37-50: A novela de José do Egito

“[…] O mal que tínheis intenção de fazer-me, o desígnio de Yahweh o mudou em bem, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida de um povo numeroso” (Gn 50,20).

A novela de José do Egito conta a história de um jovem pastor (Gn 37,2) que, tal como acontecido com Davi, sobrevive a artimanhas e dificuldades até se tornar homem de muito poder. Aliás, o homem mais poderoso em todo o Egito, depois do faraó (41,40-44; 45,8). Trata-se de um enxerto no livro de Gênesis. Os textos são inseridos na história de Jacó, que é retomada no final (capítulos 48-50). Observa-se uma mudança: as narrativas deixam o ambiente das famílias para adentrar nas disputas de poder dos palácios. “Novela educativa” das cortes, usa da lenda para legitimar o sistema monárquico e tributário implantado em Israel. E reflete o desejo de governar sobre os outros e outras. Em última instância, a novela apresenta uma versão da história contesta pelo movimento profético: a monarquia foi necessária para “salvar o povo”.

José é alguém que opta pelo novo sistema. No nível literário, promove-se a ideia de que os descendentes de Abraão acabam no Egito. Leia Gn 50,20 e perceba como a ideologia monárquica se propõe a salvar o povo. E hoje, não teríamos vários sistemas de dominação na sociedade por detrás de uma proposta velada de paz, de salvar o povo?

A novela de José do Egito (Gn 37-50) fecha o relato da história das matriarcas e patriarcas e serve de interligação com o relato da libertação do Egito (Ex 1-15).

Podemos dividir esse bloco da seguinte forma:

Gn 37: os sonhos de José presunçoso: a motivação de todos os tempos

Gn 38: a história de Tamar e Judá, narrativa autônoma (37,36 é a continuação imediata em 39,1)

Gn 39: ascendência social (vítima de uma conspiração para duas pessoas)

Gn 40: destaque de José por uma boa visão e habilidade

Gn 41: reputação de capacidade organizativa

Gn 42-44: a organização do sistema de armazenamento de alimentos

Gn 45,1-15: mudança ideológica

Gn 46,1-5a: possível acréscimo

Gn 46: Jacó-Israel ao Egito: nova situação

Gn 46,8-27: lista de nomes, incluindo os mais recentes, já pressupõe Gn 38

Gn 47: a reconciliação entre Jacó e FaraóGn 48: O jantar bênção une os dois personagens principais, Jacó e José, e também se refere aos fundamentos do Gênesis 27. Tematicamente, é aqui etiologia destacar a posição das tribos de José, em Israel

Gn 49: Uma coleção de provérbios, bênçãos e promessas das tribos estão em competição com Gn 48. Sua origem é claramente judaica e visa salvaguardar a posição dominante de Judá (cf. a degradação dos três primeiros filhos (49,3-7) domínio e da promessa de Judá (49,8-12)

Gn 50: fim da história: a monarquia é necessária para salvar o povo.

Como já apontamos, o livro de Gênesis possui textos que legitimam a cobrança de tributos que Salomão instituiu. Um desses textos é Gn 47,13-26, no qual José é apresentado como instituidor da tributação no Egito. Sendo assim, Salomão só fez aquilo que o sábio José havia feito. Leia com atenção esse texto.

O que chama a atenção é que a descrição nada sutil de como o sistema tributário se implanta: não havendo mais pão em Canaã e em toda a terra do Egito, José reuniu o dinheiro do povo e o entregou ao Faraó (Gn 47,13-14). Quando acabou o dinheiro, sem nenhum escrúpulo, o mesmo José exigiu que o povo entregasse seus rebanhos em troca de comida (Gn 47,15- 17). No ano seguinte, tendo continuado a seca, volta o povo a José e implora mais uma vez por pão. Mas agora José já é chamado de senhor: “… Nada mais resta à disposição do meu senhor do que nossos corpos e nossas terras! Compra-nos, pois, a nós e a nossos terrenos em troca de pão!” (Gn 47,18- 18). Não havia mais nada a ser entregue ao senhor e dominador. Ou ainda havia? Dinheiro, rebanhos, terras e corpos já tinham sido entregues. Restava, entretanto, uma coisa: a consciência. O texto afirma que, depois de tanta exploração, a gratidão a José foi imensa: “Tu salvaste a nossa vida!” (Gn 47,25). Ninguém mais se lembrava de que o pão que José distribuía às migalhas já havia sido retirado do próprio povo e estava acumulado nos armazéns da corte?

Outro texto é Gn 39,1-23, leia e observe quantas vezes aparece a expressão “Yahweh estava com ele (José)” (v. 2.3.5.21.23), o que legitima religiosamente as ações de José na organização da burocracia e tributação no Egito. Como o campesinato poderia ir contra o pagamento de impostos se Yahweh estava com Davi e Salomão, assim como estivera com José? (GASS, 2005a).

Em suma, na estrutura do Pentateuco, o ciclo de José (Gn 37-50) tem como função introduzir o Êxodo, mostrando como o povo foi parar nas terras do Egito. Porém, serviu também para justificar os interesses da corte de Jerusalém, legitimar o poder do rei e sua corte, a burocracia e a cobrança de tributos.

Quando lemos Gn 37,36 e 39,1, percebemos que um é continuação do outro, o que provavelmente indica que Gn 38 não fazia parte da novela de José. No próximo tópico veremos, assim, a história de Tamar e Judá, que é narrada em Gn 38.

  1. 4: Mulheres como protagonistas: a história de Tamar

“Ela é mais justa do que eu”
(Gn 38, 26a).

Antes de tudo, leia Gn 38 e observe como é a relação de Judá com a família, em especial com Tamar. Observe também como Tamar se relaciona com a família.

Judá não cumpriu com a lei do levirato,(1) a qual garantiria os direitos de Tamar, enquanto esposa do primogênito (Dt 25,5-6). Ela havia sido escolhida pelo sogro para seu primeiro filho, que morre (v. 6). Depois disso, Tamar é oferecida ao cunhado, o segundo filho de Judá, que não cumpre com sua obrigação e a usa como objeto de prazer. De Tamar é retirado o direito de ter um filho (v. 8-9). O segundo filho também morre e com medo de que o terceiro morresse, Judá manda sua nora para a casa dos pais, prometendo que assim que Sela ficasse maior, seria dado a ela. No entanto, Judá não cumpre a promessa, engana Tamar e a priva de seu direito.

Ao devolver Tamar para a casa dos pais, Judá não honra a promessa que fez. E quando sabe que Tamar estava grávida, quer que seja aplicada a ela a lei do adultério (Gn 38,24; Lv 20,10). Mas desiste da ideia assim que percebe que o pai era ele: a lei também o condenaria à morte (Gn 38,25-26; Lv 20,12) (GASS, 2005a).

Suspeitando que seu sogro não estava sendo fiel à sua palavra, Tamar assume a tarefa de assegurar seus direitos (herança e posteridade) e induz o próprio Judá a realizar o dever do levirato. Tem relações sexuais com o sogro e exige dele uma garantia de pagamento. Judá até tenta rever o anel, o cajado e o cordão, que haviam ficado como penhor, mas não encontra mais a “mulher sagrada”(2) com quem teve relações. Depois, quando a gravidez se manifesta, o penhor serve para desmascarar Judá (vv. 16-18.25). O sogro então reconhece: “mais justa foi ela do que eu” (v.6).

Tamar denuncia com o próprio corpo a violência que as mulheres sofrem dentro das famílias, dos clãs. O texto pode ser considerado um relato de resistência de mulheres e de crítica à corte de Salomão, que colaborava na dominação sobre as mulheres (GASS, 2005a).

NOTAS:

1.       Do latim levir = cunhado. Lei segundo a qual quando alguém morria sem descendência, seu irmão devia casar-se com a viúva para dar-lhe descendência (o primeiro filho que nascesse seria filho do falecido). No sistema patriarcal o primogênito herda o poder e os bens da família. De acordo com a lei (Dt 25,5-10; Rt 3,7-4,12), o filho gerado pelo cunhado com a viúva receberá a herança que caberia ao morto.

2.       Conforme o texto hebraico, Judá pede que saiam à procura da quedesháh (Gn 38,21-22). O termo é o feminino de kadesh, que significa “santo”. Tamar finge-se de sacerdotisa dos cultos da fertilidade, rituais a partir dos quais se buscava aumentar a colheita, o rebanho e até mesmo a família. A Reforma de Josias proibiu esse tipo de culto.

Artigos Anteriores sobre o Gênesis

  1. GÊNESIS 1-2,4a: RELATOS DA CRIAÇÃO
  2. GÊNESIS 2,4b-24: O JARDIM, O PRIMEIRO HOMEM, A PRIMEIRA MULHER
  3. GÊNESIS 3: A SERPENTE, A DESOBEDIÊNCIA, A QUEDA, O PECADO ORIGINAL
  4. Gênesis 6-9: o dilúvio – Chaves de leitura para bem compreendê-lo

Bibliografia:

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CARR, D. M. “Torah on the Heart: Literary Jewish Textuality Within Its Ancient Near Eastern Context”. Religious Studious Reviw 23, 1997, p. 22-31.

CIC. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Ed. Loyola. 1999.

FEINER, Johannes & LOEHRER, Magnus. Mysterium Salutis – Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica II/3. Petrópolis: Vozes, 1974.

GASS, Ildo Bohn (Org.). Formação do Povo de Israel. 7 ed. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2005. [Coleção Uma Introdução à Bíblia, Volume 2]

HAHN, Scott & MITCH, Curtis. O livro do Gênesis: Caderno de estudo Bíblico. Campinas: Ecclesiae, 2015.

KIBUUKA, B. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

STORNIOLO, Ivo & BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Gênesis: Origem da Vida e História. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.

SCHÖKEL, Luís Afonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 2008.

TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de teologia ascética e mística. São Paulo: Editora Cultor de Livros, 2017.

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