Gênesis 11,1-9: A Torre de Babel

Por Hermes de Abreu Fernandes

Em textos anteriores, tratamos da Criação, do primeiro homem e da primeira mulher, da queda, do pecado original e o dilúvio. Desejamos nestes escritos, apresentar as leituras destes textos a partir da teologia patrística e das novas descobertas bíblicas. Neste sentido, é bom atentar que nossos textos sempre estão divididos em duas partes. A primeira, a partir do conhecimento bíblico dos Santos Padres, sua relação com o Magistério da Igreja. A segunda, chaves de leitura mais hodiernas. Assim, o leitor pode ter contato com duas abordagens de suma importância para o conhecimento bíblico.

Até o presente momento, apresentamos quatro textos. É certo que os mesmos seguem a sequência da narrativa de Gênesis. Sendo eles:

  1. GÊNESIS 1-2,4a: RELATOS DA CRIAÇÃO
  2. GÊNESIS 2,4b-24: O JARDIM, O PRIMEIRO HOMEM, A PRIMEIRA MULHER
  3. GÊNESIS 3: A SERPENTE, A DESOBEDIÊNCIA, A QUEDA, O PECADO ORIGINAL
  4. Gênesis 6-9: o dilúvio – Chaves de leitura para bem compreendê-lo

O presente trabalho vem ocupar-se de Gênesis 11,1-9, encerrando assim, nosso intento de abordar os textos do primeiro livro da Bíblia anteriores à História dos Patriarcas, isto é: o Capítulo 12. Onde se inicia a história de Abrãao. Desta feita, temos o relato sobre a Torre de Babel. Continuemos nossa aventura pelo Livro do Gênesis.

Entendendo o Contexto

Gênesis 11 afirma que a humanidade nascida dos filhos de Noé, originalmente, formou um povo único, com apenas uma língua (Gn 11,6). A harmonia existente já havia sido sugerida pelo ritmo calmo e rítmico com que a genealogia dos povos havia sido apresentada no Gn 10. O propósito, portanto, de Gn 11 é apresentar como as línguas se multiplicaram e as nações se separaram. É uma narrativa das origens da diversidade linguística e geográfica dos povos da terra.

A narrativa explica que os homens se estabeleceram na planície de Sinar e começaram a construir uma cidade e, nela, uma torre. O objetivo desses homens era se tornar famosos (Gn 11,4). Yahweh fez o projeto falhar, confundindo os idiomas.

A tentativa dos homens de construir uma torre (Gn 11,1-4) e a intervenção divina (Gn 11.5-9) aconteceu em Sinar, aparentemente o território da Suméria e Acade, onde posteriormente surgiu a cidade da Babilônia (Gn 10,10; Is 11,11; Dn 1,2). O nome Babel encontra uma etimologia popular no termo bālal (confundir), sinal do julgamento divino sobre os construtores da cidade e da torre. Além disso, o texto bíblico traz à mente o lugar de culto da Baixa Mesopotâmia (especialmente a Babilônia ), Assíria, Mari e Susa, chamado Zigurate.

Outra possível justificativa para o castigo divino é que os construtores da torre tenham pecado por ter desobedecido à ordem divina de se dispersar e encher (povoar) toda a terra (Gn 1,28; 9,1). Eles queriam, com efeito, construir uma grande cidade, com sua torre, não apenas para ser famosa, mas – sobretudo – para fomentar o inverso da grandiosidade da Terra, criação de Deus. Yahweh puniu o orgulho e a ambição que tal projeto abrigava. Usou da criatividade em atingi-lo em suas raízes, dividindo a humanidade, confundindo idiomas, de modo que os povos foram forçados a se separar e dispersar.

Chave de Leitura para a Compreensão de Gn 11,1-9

Certamente, vale a pena ler Gn 11,1-9, narrativa sobre a cidade e a torre de Babel. Na narrativa condena-se a imposição de uma única cultura, de uma só língua, de uma só forma de viver a religião. Na perspectiva de quem tem um projeto de dominação, a diversidade é um empecilho. Para o olhar dos/as excluídos/as, o respeito às diferenças é uma bênção que preserva os costumes, as práticas religiosas e as tradições populares (cf GASS, 2005). O texto pode ser resistência aos modelos imperialistas, e inclusive, ao ímpeto de Salomão em construir cidades fortificadas, normalmente cercadas com muralhas e com uma alta torre de vigia.

Um aspecto a se considerar é que alguns textos justificam as desigualdades sociais e outros não. Propomos ao leitor o exercício de se ler Dt 17,14-17 e irá verificar a ordem para que os reis não acumulem bens, não tenham várias mulheres, etc. Agora, leia 1Rs 10-11 e veja como Salomão faz tudo ao contrário. Outro aspecto que precisamos ter presente é que muitos textos surgiram nos círculos sacerdotais, são de literatura sacerdotal. O livro de Levítico é um exemplo.

Em Babel, duas coisas chamam a atenção: o fato de todos falarem a mesma língua; e a vontade de construírem uma cidade e uma torre para a edificação do próprio nome. Ora, cidade e torre são expressões de força militar: as cidades eram fortalezas, sempre vigiadas por uma torre muito alta, servindo de morada aos generais e aos reis. Estes, sempre que conseguiam, obrigando todos os povos dominados a falar a sua língua e cultuar os seus deuses. Pedagogia comum dos dominadores do Primeiro Testamento. Era o total desrespeito para com a cultura de cada povo.

Nossa história nacional serve de comparação. O tipo de colonização praticado pelos portugueses no Brasil: quando aqui chegaram, nossos povos falavam mais de 150 línguas indígenas diferentes. Em pouco tempo, o português tornou-se a língua oficial, pois era a língua do dominador. Será essa a vontade de Deus? Com certeza não, afirma a narrativa de Babel. Por isso Deus desceu para confundir esse projeto opressor, permitindo que os povos se espalhem sobre a terra (Gn 11,7-8). Não há razões honestas para se impor apenas uma língua, um único jeito de ser, uma única maneira de se viver a fé!

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BARTHÉLEMY & MILIK (org). Le Pentateuque. Paris: Editions du Cerf, 1998.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2013.

BÍBLIA DO PEREGRINO. 3ª Ed. São Paulo: Paulus. 2017.

BLANK, Renold. Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação. São Paulo: Paulus, 2013.

CARR, D. M. “Torah on the Heart: Literary Jewish Textuality Within Its Ancient Near Eastern Context”. Religious Studious Reviw 23, 1997, p. 22-31.

CIC. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Ed. Loyola. 1999.

FEINER, Johannes & LOEHRER, Magnus. Mysterium Salutis – Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica II/3. Petrópolis: Vozes, 1974.

GASS, Ildo Bohn (Org.). Formação do Povo de Israel. 7 ed. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2005. [Coleção Uma Introdução à Bíblia, Volume 2]

HAHN, Scott & MITCH, Curtis. O livro do Gênesis: Caderno de estudo Bíblico. Campinas: Ecclesiae, 2015.

KIBUUKA, B. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

STORNIOLO, Ivo & BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Gênesis: Origem da Vida e História. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.

TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de teologia ascética e mística. São Paulo: Editora Cultor de Livros, 2017.

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