Gênesis 3: a serpente, a desobediência, a queda, o pecado original

Por Hermes de Abreu Fernandes

Em textos anteriores, transcorremos sobre o relato da criação (Gn 1-2,4a e Gn 2,4b-24). Estas reflexões estão em nossa página, disponíveis para consulta, a quem o desejar, sendo elas:

1. GÊNESIS 1-2,4a: RELATOS DA CRIAÇÃO

2. GÊNESIS 2,4b-24: O JARDIM, O PRIMEIRO HOMEM, A PRIMEIRA MULHER

Em continuidade, iremos tratar do Capítulo 3 de Gênesis, onde mulher e homem cedem à sedução da serpente, desobedecendo ao Criador. Vamos continuar nossa aventura pelo Livro do Gênesis?

Desejamos nestes escritos apresentar as leituras destes textos a partir da teologia patrística e das novas descobertas bíblicas. Neste sentido, é bom atentar que nossos textos sempre estão divididos em duas partes. A primeira, a partir do conhecimento bíblico dos Santos Padres, sua relação com o Magistério da Igreja.  A segunda, chaves de leitura mais hodiernas. Assim, o leitor pode ter contato com duas abordagens de suma importância para o conhecimento bíblico.

A Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal

O interdito, proibição, à árvore do conhecimento do bem e do mal é uma limitação diante da abundância e liberdade, algo que lembra ao homem sua condição de criatura (Gn 2,16). Ao homem era destinado todos os bens disponíveis no jardim, exceto um: a árvore do conhecimento do bem e do mal. A sanção consistia na irrupção da morte. Deus oferecia ao homem seus dons, mas a transgressão o sujeitaria à retirada destes bens, deixando-o passivo de morte. A infinitude de Deus, lhe seria negada. Antes lhe fora dado o mister de cuidar e trabalhar no jardim. Foi-lhe oferecido a coparticipação no jardim e, por assim dizer, na criação. A ambiguidade da liberdade apresentada no texto, representa uma forma que se encontrou na antiguidade de se explicar a própria ambiguidade humana. Esta é uma das narrativas criadas para se explicar a origem do mal, do sofrimento e da morte. No contexto da solidariedade do jardim, plantado ao redor da árvore da vida, as relações cotidianas, o parto – apesar de suas dores – o trabalho; são fontes de alegria e vida. Ao desobedecer, comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal, a humanidade deixa de perceber a bonança criativa, experimentando dores no processo vivente de sua humanidade. Esta desobediência é fruto da não confiança em Yahweh. Buscando fora da árvore da vida o sentido de sua existência. Com isso, a humanidade se desvia tragicamente. É um rompimento da comunhão. O fruto, a árvore, a serpente, são meros símbolos. Importa entender que, com a desobediência, o homem deixa de buscar no Criador suas repostas, seus sonhos, sua esperança. A árvore da vida simboliza o próprio Criador que abriga em si todo Bem. Nele, a vida. A árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,17) significa, simbolicamente, o limite intransponível que o homem, como criatura, deve livremente reconhecer e respeitar com confiança. O homem depende do Criador, está submetido às leis da criação e às normas éticas que regem o uso da liberdade.

A Serpente

A serpente representa a força hostil a Deus e ao seu plano. A Bíblia de Jerusalém, em sua nota para Gn 3,1, afirma que “a serpente é uma máscara para um ser hostil a Deus e inimigo do homem”. Personificação do mal ativo, sedutor ou agressor. Ben Sirac não a menciona, todavia, faz alusão (Eclo 15,11-20): origem do pecado. Sb 2,24 fala da “inveja do diabo”. Ap 12,8-9 acumula nomes identificando e interpretando: “dragão, serpente primordial, satã, diabo, acusador”. O termo acusador traduz-se  no grego diabolos (aquele que divide). Em hebraico se tem satan. Ainda sobre etimologia, o termo hebraico para serpente coincide com vaticínio. Neste sentido, o falso oráculo da serpente dirigido a Eva, abriga em si a raiz dos sentidos do termo. A serpente deslegitima a proibição de Deus, dando-lhe intenções escusas. Promete o mal como se fosse bem, dizendo que o Criador desejava o conhecimento só para si, sugerindo que, ao comer da árvore interdita, “seriam como deuses” (Gn 3,5).  Em favor desta identificação, nota-se o fato de que a serpente toma a contrapartida da proibição divina, como se Deus quisesse esconder do homem e da mulher o que aconteceria se eles comecem do fruto proibido. Sobre tal oráculo, Sl 14 e Hab 2,18 nos diz: “mestre de mentiras”.

Com a posterior condenação à serpente de caminhar sobre seu ventre e comer o pó (Gn 3,14), o autor apresenta a possibilidade de que talvez a intervenção de um animal astuto como tentador é apenas um modo de sugerir que o homem e a mulher só possam, eles próprios, censurar sua transgressão. Afinal, segundo nossas reflexões anteriores. A serpente – sendo um animal – estava abaixo da condição humana em uma ordem de valores. O autor sugere com o diálogo entre a mulher e a serpente, algo próprio para a humanidade (a comunicação), a total responsabilidade humana na transgressão. Gn 3,6 descreve esse processo humano. 

A queda, o Pecado Original

E Eva comeu do fruto proibido. Seguindo a ela, também o fez Adão. Infelizmente, tentado pela serpente, a primeira mulher e o primeiro homem deixou morrer em seu coração a confiança em seu Criador e, abusando de sua liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Quis ser como Deus, por soberba, colocou Deus em segundo lugar, e assim destruiu o plano inicial de Deus. O Magistério da Igreja nos diz pelo Catecismo:

“Foi nisto que consistiu o primeiro pecado do homem. Todo pecado, daí em diante, será uma desobediência a Deus e uma falta de confiança em sua bondade. Neste pecado, o homem preferiu a si mesmo a Deus, e com isso menosprezou a Deus: optou por si mesmo contra Deus, contrariando as exigências de seu estado de criatura e consequentemente de seu próprio bem. Constituído em um estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente “divinizado” por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis “ser como Deus”, mas sem Deus, e antepondo-se a Deus, e não segundo Deus” (CIC: §397-8).

Assim o pecado é apresentado, segundo o texto bíblico, como uma recusa pessoal a Deus. Um não à Palavra dele. Começa pela recusa da confiança em Deus; progride não apenas como desobediência, mas – ainda mais – como “tentativa de se apoderar, por própria força, daquilo que é reservado a Deus e ser igual a ele. A humanidade rompe suas relações pessoais com seu maior benfeitor. Não surpreende se Deus se torna imediatamente estranho e terrível a eles” (FEINER & LOEHRER:  Mysterium Salutis II/3, pg. 314-315).

Assim explica o conceituado Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística: “Era uma tentação de orgulho, de revolta contra Deus. O homem sucumbe e comete formalmente um ato de desobediência, como mostra S. Paulo (Rm 5), mas inspirado pelo orgulho, e imediatamente seguido de outras faltas. Era uma culpa grave, pois era recusar submeter-se à autoridade de Deus; era uma espécie de negação de seu domínio supremo e da sua sabedoria, já que este preceito era um meio de provar a fidelidade do primeiro homem; culpa tanto mais grave, quanto melhor conheciam os nossos primeiros pais a infinita liberalidade de Deus para com eles, os seus direitos imprescritíveis, a gravidade do preceito manifestado pela gravidade da sanção que lhe fora anexa; e, como não eram arrastados pelo ímpeto das paixões, tinham tempo de refletir sobre as consequências formidáveis dos seus atos” (TANQUEREY: 2017, pg. 34).

Santo Agostinho nos ensina que a punição divina se deu pela arrogância. A liberdade do homem e o seu amor a Deus foram colocados à prova, pois Deus quer ser amado livremente pelas criaturas que ele criou e colocou sob seu amor. Sem liberdade o amor não é autêntico, não tem valor. O pecado original revela que o homem não passou nesta prova do amor. Esvaziou-se da confiança em Deus, desejando ser-lhe igual. Se em Gn 1,26-27 consta que Deus criou a humanidade voluntariamente à sua imagem, em Gn 3,5 a serpente sugere que teriam os olhos abertos e seriam como Deus. Uma empreitada humana em ambicionar a condição divina. O primeiro pecado foi um atentado à soberania de dele, um pecado de orgulho. Esta revolta imprimiu-se concretamente pela transgressão de um preceito estabelecido e representado sob a imagem do fruto proibido.

revisando Gênesis de 1 a 3

No bloco de Gn 1-11 temos textos que tratam das origens da terra e da humanidade. O princípio último da terra e da humanidade seria Deus, Yahweh, essa é uma das mensagens principais. O bloco compõe-se de narrativas sobre a criação, Caim e Abel, o Dilúvio, a cidade e a Torre de Babel. O restante do conteúdo são as genealogias que funcionam como amarração.

Questões de crime e castigo conduzem essas narrativas. Com Adão e Eva o crime é o da autossuficiência humana; na história de Caim e Abel, o assassinato de Abel. O castigo de Caim é se tornar errante sobre a terra, porém ele não estará sozinho. É quebrada a lei da vingança, que postulava que quem matasse um parente também deveria ser morto (Gn 4,15). Na última narrativa (Gn 11,1-9), o crime é querer controlar a terra pelo nome e pela imposição de uma só língua, o que se concretiza na construção da cidade e da torre.

Recordemos que a primeira redação de tradições do povo remonta à época de Salomão, e que tradições das tribos do Norte foram reunidas durante o século 9 a.C. Porém, durante o exílio babilônico, no século 6 a.C., as tradições antigas foram reinterpretadas pelos círculos sacerdotais a fim de entender a situação difícil pela qual passavam (GASS: 2005). Uma das características dessa releitura foi a forte dose de nacionalismo. Já vimos o exemplo de Gn 9,18-27, redigido quando os povos cananeus estavam sob a dominação de Davi. A narrativa legitima a opressão de Davi e Salomão sobre os povos de Canaã. Esse texto é considerado uma etiologia.

Em Gn 2,4b-3,24 temos o segundo relato da criação, que remonta a época de Salomão. O primeiro relato, em Gn 1,1-2,4a, é do período do exílio babilônico, no século 6 a.C. No primeiro relato da criação, em Gn 1,1-2,4a, o homem e mulher foram criados juntos no mesmo dia e a terra estava deserta. Já em Gn 2,4b, o homem foi criado primeiro e depois que muitas outras coisas haviam sido criadas, Yahweh criou a mulher e há o jardim (= pardesh, do persa), a abundância de água. Compare 1,1-2 com 2,4b-5. Ao estudarmos esses relatos precisamos nos atentar para as figuras, símbolos e mitos. Acompanhe nossa reflexão nos dois textos aqui publicados anteriormente.

Uma questão interessante é a proximidade entre o mito babilônico da criação e os textos bíblicos. Em 1949, foi descoberto nas ruínas da biblioteca de Assurbanipal, o texto conhecido como Enuma Elish. Datado 7º século a.C., trata-se do relato babilônico da criação, com grande semelhança com o texto de Gênesis 1,1-2,4a. Isso mostra que a redação da Bíblia foi permeada de trocas culturais. O texto bíblico, entretanto, pretende ser uma contraproposta ao mito do dominador.

Já Gn 3,17-19 é uma etiologia que pretende explicar o sofrimento vivido pelos camponeses do norte e a cobrança de altos tributos por Salomão. A dura realidade é que “com fadigas obterás dela (da terra) o sustento durante os dias de tua vida” e “com o suor do teu rosto comerás o teu pão” (Gn 3,17b.19a). É a teologia da corte de Jerusalém, construindo uma teologia que justificava o sofrimento dos trabalhadores do campo ou dos trabalhadores das obras públicas de Salomão. Por isso, Gn 2-3 pode ser considerado um texto de resistência do campesinato. Nele, Yahweh “criou a humanidade com muita dignidade (sopro de vida), para cuidar de um jardim delicioso (Éden: quer dizer delícias), extremamente belo (pedras e metais preciosos), com muitas frutas, água abundante, enfim, com muita vida (árvore da vida)” (GASS: 2005, p. 81).

Os textos de Gn 2-3 têm continuidade em Gn 4,1-16, com a narrativa sobre Caim e Abel, memória do conflito entre camponeses (Caim) e pastores (Abel), um problema na realidade das cidades-estado. Observemos, porém, que à semelhança de Caim, Salomão também derramou o sangue de seu irmão Adonias (1Rs 2,12-25). O texto, além de ser uma crítica à política de Salomão, pode ser denúncia da opressão da tribo de Judá (Caim) sobre as tribos de Israel (Abel = “frágil”). Quando Caim ocupa o lugar de seu irmão, tornando também “errante”, nômade como o pastor Abel, Deus passa a protegê-lo (Gn 4,12b.15). Yahweh coloca-se ao lado dos mais frágeis (GASS: 2005).

Quer bebamos das fontes da patrística, quer ousemos uma exegese e hermenêutica mais afinada com a história da humanidade, podemos perceber que o Livro do Gênesis ocupa-se de muito mais do que contar as origens. Deseja refletir e recontar a história do Povo de Deus, Israel escolhida e amada por Yahweh. Desde à Criação, passando pela queda (Adão, Eva, Cain Abel), chegando à Aliança. Em suma, o Gênesis é a história de Deus e um Povo. Uma história de resistência. Sua fragilidade, seus sofrimentos e o amor zeloso de Yahweh sempre restaurando e reconstruindo a história.

bibliografia consultada

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BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2013.

BÍBLIA DO PEREGRINO. 3ª Ed. São Paulo: Paulus. 2017.

BLANK, Renold. Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação. São Paulo: Paulus, 2013.

CARR, D. M. “Torah on the Heart: Literary Jewish Textuality Within Its Ancient Near Eastern Context”. Religious Studious Reviw 23, 1997, p. 22-31.

CIC. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Ed. Loyola. 1999.

FEINER, Johannes & LOEHRER, Magnus. Mysterium Salutis – Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica II/3. Petrópolis: Vozes, 1974.

GASS, Ildo Bohn (Org.). Formação do Povo de Israel. 7 ed. São Leopoldo: CEBI; São Paulo: Paulus, 2005. [Coleção Uma Introdução à Bíblia, Volume 2]

HAHN, Scott & MITCH, Curtis. O livro do Gênesis: Caderno de estudo Bíblico. Campinas: Ecclesiae, 2015.

KIBUUKA, B. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

STORNIOLO, Ivo & BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Gênesis: Origem da Vida e História. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.

TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de teologia ascética e mística. São Paulo: Editora Cultor de Livros, 2017.

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