Gênesis 2,4-24: o jardim, o primeiro homem, a primeira mulher

Por Hermes de Abreu Fernandes

No texto anterior, trabalhamos a origem do céu e da terra, narrado em Gênesis. Sendo ele: GÊNESIS 1-2,4a: RELATOS DA CRIAÇÃO. Este relato se encontra no Livro do Gênesis cap. 1 ao 2,4a. No presente texto, nos ocuparemos dos Capítulo 2, do versículo 4b ao versículo 24 (Gn 2,4b-24). Continuemos nossa aventura pelo Livro do Gênesis.

Desejamos nestes escritos apresentar as leituras destes textos a partir da teologia patrística e das novas descobertas bíblicas. Neste sentido, é bom atentar que nossos textos sempre estão divididos em duas partes. A primeira, a partir do conhecimento bíblico dos Santos Padres, sua relação com o Magistério da Igreja.  A segunda, chaves de leitura mais hodiernas. Assim, o leitor pode ter contato com duas abordagens de suma importância para o conhecimento bíblico.

O Jardim, o Éden

Gênesis nos informa que, quando o homem foi criado, Yahweh plantou um jardim no Éden. Lá ele colocou o homem que havia formado (Gn 2,8). O jardim (Gan) é descrito como terra fértil, rico em água e vegetação. Magnífico. O paraíso! Esse jardim é feito no Éden (gan-ʿḖḏen), termo proveniente do vocabulário edinu que significa estepe. Neste oásis em plena terra desértica havia duas árvores: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do Bem e do Mal, da qual o homem não poderia comer. Sobre a árvore e seus interditos, trataremos quando a refletir sobre a desobediência, a queda, o pecado original. Voltemos à criação do jardim, do primeiro homem e da primeira mulher.

A criação do jardim está intimamente ligada ao primeiro homem e à primeira mulher. Sua fertilidade e beleza está concatenadamente ligada ao sonho de Deus para a humanidade. Antes de mais nada, Yahweh amou a humanidade. Era reflexo de sua existência. Sua imagem (Gn 1,26). O bloco literário de Gn 2,4b-3,24 interessa-se especificamente pela existência humana. O primeiro homem, a primeira mulher e o problema do mal. A narrativa da criação do homem se desdobra em um conjunto de símbolos: respiração, a árvore, comer, gravidez, as dores do parto, a mulher na condição de mãe, o jardim.

O homem, Adão

O verbo usado na criação do homem é (yāsār) formar, que designa a atividade do oleiro que trabalha o barro. Yahweh forma (molda) o homem (hā,ādām) do pó da terra (’āpār mi-há’ādāmā). A relação gramatical entre ’ādām e ’ādāmā, sendo este último termo o feminino do primeiro, retrata o estreito vínculo entre o homem e a terra (cf KIBUUKA: 2020, p. 43). Em seu aspecto físico-corpóreo o homem é terreno. O fato de ter sido formado a partir do (’āpār) sugere que o homem é parte da terra. Consequentemente, aprofunda sua ligação com todos os seres viventes, sendo este o mais evoluído dos seres criados. Feito à Imagem do Criador. Sua relação especial com o Criador é manifesta quando o autor do Gênesis narra a forma com que o “barro moldado” recebe o “sopro de vida”. Do sopro, a inatividade se faz vida. O caos disforme do “boneco de barro” se converte no homem. O homem é a coroa de um Universo Excelente.

O gênero literário do relato da criação do homem exprime muito da identidade do povo de Israel. Valoriza as riquezas próprias da formulação deste povo. No Pentateuco – e em muitos outros livros do Primeiro Testamento, podemos perceber o tríplice pilar da realização humana, segundo a antropologia judaica: Terra, Trabalho, Família. Yahweh Deus, em hebraico Yahweh Elohim, age como oleiro, modelando os seres vivos a partir do solo (cf Is 29,16; 45,9; 64,7; Jr 18,1-9; Rm 9,20-21). A constante referência à terra, ao que ela produz, ao trabalho nela; é sinal dessa referenciação antropológica (cf STORNIOLO & BALANCIN: 1997, p. 45). Adão, o primeiro homem, personifica a terra fértil e a humanidade que dela vive e a ela completa. O homem é terra, veio dela, a ela voltará e dela sobrevive. A história do povo de Israel, suas lutas, sua relação com a terra, o trabalho e a família, personificada no primeiro homem. Adão somos todos nós, humanos.

A mulher, Eva

A narrativa da criação da mulher mostra sua dignidade e igualdade. A mulher é ’ēzer keneḡdô. O segundo termo indica que ela é igual ao homem e posta ao seu lado. O primeiro, que ela auxilia o homem. Na Bíblia de Jerusalém traduzida para a língua portuguesa, está como “uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18) e “a auxiliar que lhe correspondesse” (Gn 2,20). A pergunta primordial é se, para o autor bíblico, havia clara distinção entre homem e mulher, no sentido de sujeição dela por ele? Em verdade, o texto informa que o homem (Adão) tem uma dimensão social inscrita em seu ser. Entre todos os animais, não foi encontrada uma companhia adequada para ele (Gn 2,20). A superioridade sobre os outros animais já havia sido sugerida na tarefa de lhes dar nomes (Gn 2,19). A ausência de alguém que lhe correspondesse e o fato de estar assim escrito, sugere a dignidade igualitária da mulher. Indo por terra qualquer postulado de superioridade do homem sobre a mulher. Ao criar a mulher, Yahweh viabilizou a comunhão do homem com um ser igual a ele. Yahweh liga o homem a mulher (Gn 2,23) e os une como casal. Matrimônio (Gn 2,24).

A noção de igualdade se dá também na informação de que a mulher foi feita do lado (ṡēlāʾ) do homem. Em essência, a história bíblica afirma que Deus formou a mulher de uma maneira semelhante ao homem, desfrutando de sua própria natureza, dignidade e igualdade. A semelhança também é destacada pelo termo ’îsha, com o qual o homem designa a mulher assim que a vê (Gn 2. 23). O hebraico usa do jogo de palavras ’îsha, mulher e ’îsh, homem. As raízes etimológicas nas palavras exprimem sua complementaridade. A palavra ’îsha não designa exatamente a forma feminina regular do termo ’îsh (homem), mas está claramente relacionada. Assim, de uma forma facilmente inteligível, a natureza igual de mulheres e homens é declarada, mesmo que sejam gêneros diversos (cf MCKENZIE: 1984, p. 362).

A dignidade do homem e da mulher é formulada com uma expressão tipicamente sonora, semítica, pronunciada por Adão ao ver a mulher: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne de minha carne” (Gn 2, 23b).  Por fim, a explicação de que o homem deixará pai e mãe e se tornará uma só carne com sua esposa (Gn 2,24), explica o matrimônio e seu caráter monogâmico e indivisível.

Considerações finais

Ainda desejamos acrescentar a dimensão metafórica na qual esses personagens se inserem no Livro do Gênesis. Vimos acima que os nomes do primeiro homem e a forma pela qual se refere à primeira mulher, vem significar realidades análogas. O entendimento da narrativa a partir de uma literalidade não pode ser concebido. Adão, Eva, o jardim; são analogias da condição e história humanas, sua relação com o Criador e com o mundo (cf STORNIOLO & STORNIOLO: 1997, p. 62). Adão é cada homem e Eva é cada mulher; filhos e filhas de Deus. Importa inferir desta narrativa o amor criativo de Yahweh, seu sonho por nosso bem-viver, a igualdade entre gêneros. A criação da humanidade é fruto de um Deus amoroso, que a reservou o melhor. A beleza e a fertilidade do jardim é o simbólico de que muito oferece, quem muito ama. Deus muito amou, muito ofereceu. Este amor, expresso ao primeiro homem e à primeira mulher, hoje se dirige a todos nós. Somos também nós parte do sonho de Yahweh. “Como são numerosas, Senhor, tuas obras! Tudo fizeste com sabedoria, a terra está cheia das tuas criaturas” (Sl 104,24).

No texto anterior, tratamos da criação do céu e da terra. Culminando com o ato religioso de se observar e santificar o sábado (Ex 20,23). A primeira parte do relato da criação (Gn 1-2,4).  Neste nosso segundo trabalho, concluímos com a consumação do ato social do matrimônio e da família (Gn 2,4-24). Em nosso próximo texto, trataremos da desobediência, da árvore do conhecimento do bem e do mal, da queda e do pecado original.

Bibliografia Consultada

BARTHÉLEMY & MILIK (org). Le Pentateuque. Paris: Editions du Cerf, 1998.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2013.

BÍBLIA DO PEREGRINO. 3ª Ed. São Paulo: Paulus. 2017.

BLANK, Renold. Deus e sua criação: Doutrina de Deus, doutrina da criação. São Paulo: Paulus, 2013.

CARR, D. M. “Torah on the Heart: Literary Jewish Textuality Within Its Ancient Near Eastern Context”. Religious Studious Reviw 23, 1997, p. 22-31.

HAHN, Scott & MITCH, Curtis. O livro do Gênesis: Caderno de estudo Bíblico. Campinas: Ecclesiae, 2015.

KIBUUKA, B. A Torá Comentada. São Paulo: Fonte Editorial, 2020.

MCKENZIE, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

STORNIOLO, Ivo & BALANCIN, Euclides Martins. Como ler o Livro do Gênesis: Origem da Vida e História. 1ª Ed. São Paulo: Paulus, 1997.

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