“Sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48)

Por Hermes de Abreu Fernandes

Vivemos no tempo da palavra. Palavras de amor e desamor. Em um contexto de vida digital, uma mensagem chega instantaneamente a todos lugares pela internet. São as bençãos da tecnologia. Controversamente, o que é bom, pode tender ao mal. Da mesma forma que podemos nos edificar com mensagens positivas, que tendem à elevação, somos bombardeados por discursos de ódio. Com a mesma rapidez que o bem caminha, o mal vai a galope.

O Evangelho que nos inspira na liturgia desta terça feira, da 11ª Semana do Tempo Comum (Mt 5,43-48), pode nos trazer respostas e alento para o proposto acima. Amar é o imperativo máximo da mensagem de Jesus nos Evangelhos (cf Jo 13,34). Outrossim, muitas vezes sob o argumento de se defender ideias sustentadas em virtudes – ou mesmo uma sã doutrina – o que vemos é ódio puro e simples. Aos gritos, com a rapidez das mídias sociais, sob o pretexto de se servir a Deus.

Se, quando de nossa iniciação à Vida Cristã, fomos exortados a ser promotores da paz, vivenciando o amor e a caridade fraterna, o que hoje percebemos em nossos ambientes, quer familiares e sociais, quer eclesiais; são como que um campo de batalha. Seja por controvérsias políticas, seja por outras questões (até mesmo religiosas), vemos o desferir constante de ofensas, desdém, desrespeito da dignidade alheia. Palavras letais como metralhadoras a devastar o que se tem à frente. Antagonicamente, os ensinamentos de Jesus nos impelem ao contrário. Quando foi que perdemos a capacidade de entender? Ou já substituímos nosso Cristo, o Jesus de Nazaré, por outros messias que nos inspirem à uma nova verdade? Fato: O Jesus de Nazaré não é o que se vê anunciado por muitos dos religiosos de hoje. Nem nossa sociedade, cheia de farisaicos apedrejadores, está em busca de reviver o sonho da Igreja Primitiva, narrada nos Atos dos Apóstolos.

A palavra empregada por Mateus e traduzida para o português como inimigos aparece 39 vezes no Segundo Testamento, sendo 20 delas inseridas nos escritos do apóstolo João. Jesus vem, agora, nos dizer que devemos amar aos nossos inimigos, contrariando, desta forma, o pensamento da época. Bom é destacar que o Primeiro Testamento não diz explicitamente: odiarás o teu inimigo, mas a ética judaica, que ensinava cuidar dos velhos, viúvas, crianças e estrangeiros; lecionava e aceitava o ódio aos inimigos (cf Pr 29,27). Trata-se da lei do Talião (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 29,21), que na sua origem tentava pôr um freio na espiral da violência (o grito de Lemec Gn 4,23-24). Este princípio da equivalência rege muitos textos do Primeiro Testamento, até mesmo nos Salmos; onde o orante pede que Javé lhe faça justiça. Jesus mostra-lhes, naquele momento, que a ética cristã era contrária a qualquer tipo de ódio, mesmo aquele destinado aos inimigos. Relações baseadas na violência e na vingança não tem chance de alcançar bom termo. Para quebrar a espiral da violência é preciso resistir ao seu impulso, sem alimentá-lo. São necessárias atitudes que a desmontem, e desarmem quem aposta nela como solução para os conflitos. O freio que Jesus propõe é vencer o mal com o bem (cf Sl 35,11-13). A generosidade pode ser o caminho mais eficaz em momentos de conflito.

“Amai a vossos inimigos” acena para o tipo de amor inteligente, que compreende a dificuldade e esforça-se em libertar o inimigo do seu ódio. Tal amor fundamenta-se na atitude amorosa de Deus para com os homens, e portanto, é uma prova de que os que amam assim são verdadeiros filhos de Deus. Foi isso que Jesus desejou nos mostrar quando disse: “eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai Celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 44-45).

Naturalmente, é plausível que se entenda ser possível aos cristãos e cristãs certa dúvida sobre os conselhos advindos da Palavra de Deus. Jesus disse amai vossos amigos… orai pelos que vos perseguem. Em contrapartida, em Hb 1,9 diz: “amaste a justiça e odiaste a iniquidade”. Parece contraditório? Não! É correto odiar a maldade e os atos maus, detestando-os. Tal sentimento de busca pelo caminho reto é de constância na literatura epistolar no Segundo Testamento, assim como, na literatura dos Santos Padres, como Santo Agostinho, São João Crisóstomo, entre outros pais na fé. Devemos entender que o exercício ascético de buscar virtudes por amor a Jesus e em obediência à sua mensagem, difere totalmente do ódio aos viventes todos, sobretudo, aos irmãos e irmãs humanos/as. Dentro da ética cristã, aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas (cf 1Jo 2,9).

O mandamento radical de Jesus, no sentido de amarmos os nossos inimigos, põe seus discípulos, e – consequentemente a nós, Igreja peregrina – em harmonia com a atuação de Deus para com os homens bons e maus. Na cultura da época se ensinava que a pessoa bem educada era generosa tanto no amor aos amigos e membros da família, como no ódio aos inimigos. Jesus reage a essa maneira de limitar o mandamento do amor às fronteiras que os grupos humanos costumam estabelecer entre si. É essencial aprender de um Deus que é bom para com todos. Em Mt 5,48 se indica o ideal profundo e ambicioso de todas essas reflexões de Jesus sobre os preceitos da Lei.

A argumentação de Jesus é consistente, uma vez que ele mostra, aos ouvintes e a todos nós, que amar a aqueles que nos amam é compreensível e natural. Todavia, estando os seus ensinamentos em um patamar mais elevado de coisas, qual seja, é exigido dos cristãos que ajam além do natural. Façam aquilo que não seria esperado e natural fazer. Ser leal e amoroso aos que nos tratam bem era tão fácil que até publicanos e gentios o faziam. Algo como que ordinário nas relações cotidianas. Aos seus discípulos pede o extraordinário: amar além do comum. Buscar o modelo do Pai Celeste.

Vale ressaltar que os publicanos eram funcionários que ofereciam em leilão os impostos de diversas regiões de um país. Os funcionários subordinados vendiam novamente o direito de cobrança aos agentes locais, que exploravam ao máximo o povo. Estes cobradores eram considerados traidores pelos judeus e seu nome representava tudo que é vil. Esses publicanos, amavam aos que os amavam, logo, perguntava Jesus: se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? Neste sentido, Jesus usa da realidade e do contexto para fortalecer seu argumento. Dizer que até os publicanos o fazem, é despir tal esforço de quaisquer aspirações virtuosas.

Os cristãos, então, são considerados como filhos do Pai que está nos céus, quando personificam o amor dele. O amor de Deus não discrimina. Ao contrário: derrama-se sobre amigos e inimigos igualmente. Este amor não é motivado pelos nossos méritos e sim governado pelo próprio caráter de Deus. É sempre autonegação e autodoação. O amor de Deus procura relacionar-se com amigo ou inimigo, buscando seu bem, sem perguntar pelo custo. Somos chamados a viver essa santidade e perfeição ao exemplo do Pai. Não uma santidade alienada, moralista, intimista. Uma santidade que nos leva ou outro. Que constrói relações. Edifica e liberta os que estão em situação de sofrimento.

Na mensagem do Evangelho de hoje, podemos inferir que o amor Cristão vai além da escolha por valores humanos. É algo que transcende nossa horizontalidade, à uma verticalidade. O que devemos buscar são comunidades assíduas na oração e na partilha. Fervorosas no seguimento de Jesus pobre e crucificado, ainda hoje, nas muitas fraturas sociais. Comprometidas com Jesus amor que não é amado. Amor com os motivos de Deus. Amar por amor, sendo ele o próprio amor. Perdão, afeto, acolhida: assim se agrada a Deus. Assim se faz o caminho de seguimento de Jesus. O que difere disto, passando pelos caminhos do ódio, afasta-se da Verdade. Somos chamados ao exercício das realidades do Reino de Deus, buscando os valores do alto. “Perfeitos, como o Pai celeste é Perfeito” (Mt 5, 48).

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