O que pensar sobre Possessão Demoníaca e Exorcismo? – Vejamos o que o Magistério da Igreja tem a dizer

Por Hermes de Abreu Fernandes

Há uma certa constância em se ver e ouvir sobre possessões demoníacas. Entre os movimentos pentecostais isto se tornou lugar comum. Fica-nos a impressão de que as obras do maligno estão mais exacerbadas hoje em dia. Ou estas manifestações são fruto de modismo? Afinal, há ou não exorcismos nas religiões pentecostais? E as manifestações demoníacas e seus respectivos combates nos grupos de oração da Renovação Carismática Católica? Também acompanham estes equívocos? Acerca destas questões se dedica o presente texto.

Em primeiro lugar, convém definir sobre a possessão demoníaca. É um estado, no qual, o demônio se apodera das faculdades mentais da pessoa humana e age por meio dela, independentemente da vontade do indivíduo. Exprime-se principalmente por blasfêmias e revolta contra Deus. A possessão demoníaca se distingue do estado de pecado, mesmo em se tratando de falta grave, pois não supõe necessariamente culpa da parte do possesso.

A existência da possessão demoníaca é atestada pelos Evangelhos. Jesus praticou exorcismos (cf. Mt 12,27). Ora, não se pode crer que Jesus tenha fingido expulsar demônios quando não os havia. Ele veio precisamente para dar testemunho da Verdade (cf. Jo 19, 37). Em consequência, é de se crer que o Senhor tenha encontrado casos reais de possessão durante seu ministério público.

Após Jesus Cristo, no decorrer da história da Igreja, muitas vezes os cristãos julgaram estar diante de uma possessão demoníaca. Diagnosticavam-na mediante sintomas que pareciam inexplicáveis aos olhos da ciência e da razão. Um exemplo clássico seria falar em línguas estranhas. Contorcer-se de forma inumana, sem dor. Supor “Adivinhar” pensamentos dos que estão próximos de si, ou mesmo, relatar fatos oficialmente desconhecidos do suposto possesso. Em síntese, é necessário fenômenos verdadeiramente sobrenaturais. Impossíveis à condição humana do suspeito de possessão.

Em nossos dias, a Igreja recomenda cautela diante de tais fenômenos. Parte dos sintomas aparentes em muitos casos de suspeita de possessão são explicáveis pela psicologia e, até mesmo, pela parapsicologia. Daí a reserva das autoridades eclesiásticas, que julgam ser possível a ocorrência de possessão demoníaca – que pode se caracterizar principalmente pelo ódio a Deus e blasfêmia, mas afirmam que a mesma deve ser bem diferente de manifestações imprevistas do psiquismo humano. Há muito de psicopatologia possível. Quando não, mero fingimento. Para tanto, antes de se recorrer ao rito do exorcismo em si, deve haver a devida investigação do caso. Em um trabalho conjunto entre os investigadores religiosos e os científicos.  Há que se sublinhar, sobremaneira, que o exercício do exorcismo é próprio aos ministros ordenados, devidamente investidos de licença do bispo local. Em hipótese alguma, deve ser exercido por ministro não ordenado, conforme veremos a seguir.

Necessidade de autorização das autoridades eclesiásticas e pseudo-exorcismo

O ritual da Igreja reconhece dois tipos de exorcismos:

1) O menor consiste em orações que podem ser proferidas por qualquer cristão, mas não devem ser utilizadas sem critérios. Neste sentido, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu orientação clara a este respeito, como veremos mais adiante neste texto. Em nossos dias, existem uma tendência exagerada a crer que o demônio é o autor de todas as desgraças físicas e morais, de modo que, para debelar qualquer infortúnio, se diz a oração do exorcismo menor ou simples. A esta prática está subjacente um erro, que pode ter graves consequências: a precipitação para admitir intervenções diabólicas suscita um clima de apavoramento dos fiéis. Apavoramento este que pode causar doenças emocionais. Na verdade, o ser humano é suficientemente malvado para explicar a existência de pecados e outros males no mundo. O demônio tenta o pecador, sem dúvida, mas não se deve supor com facilidade que ele seja o inspirador de todas as tentações. De resto, Santo Agostinho diz, com razão, que o demônio é um cão acorrentado; pode ladrar e fazer muito barulho, mas só morde aqueles que dele se aproximam.

2) O exorcismo maior é muito complexo. Supõe um sacerdote nominalmente designado pelo bispo. O exorcista se prepara mediante jejum e profere numerosas orações, às vezes, por dias sucessivos. Isso só ocorre nos casos de possessão demoníaca judiciosamente diagnosticada. Trata-se, portanto, de algo muito raro.

Com base nessas premissas, pode se dizer que, nas assembleias protestantes, os pastores presumem muito fácil e precipitadamente haver possessão demoníaca. Em certas igrejas, todos os infortúnios são atribuídos ao demônio, de modo que os exorcismos se repetem com frequência.

Na verdade, “essas vítimas do mal” não estão sob possessão demoníaca. São pessoas que sofrem como os demais mortais sofrem. Não é, portanto, o caso de se aplicar o exorcismo. Este provoca um ambiente de histeria coletiva, com gritos, exclamações, aplausos teatrais… O que se deve fazer em tais casos é pedir ao Senhor que alivie as pessoas sofredoras e as livre de seus males, sem, porém, recorrer ao exorcismo. A oração é a grande arma do cristão. É preciso crer mais na oração e procurar menos recursos teatrais.

Se alguém se diz beneficiado ou curado em virtude do exorcismo aplicado pelo pastor, pode se afirmar que tal bem-estar resulta da sugestão incutida pelo exorcista. O exorcismo como tal não tem efeito sobre o demônio, que no caso não está atuando, mas leva a pessoa a crer que está prestes a ser curada. Ora, esta sugestão desbloqueia o íntimo do paciente e o induz a se sentir bem e normal. Trata-se, pois, de  efeito da sugestão, que ocorre nos casos de doenças funcionais ou de doenças de fundo emocional.

Dentro da Igreja Católica, o que se vê é, lamentavelmente, desobediência ao Magistério. Exorcismos feito à revelia dos critérios adotados. Gostaríamos de lembrar aqui que o caráter negativo desta desobediência não é o conflito com a autoridade e, sim, o bem da pessoa humana. Os critérios adotados pelo Magistério da Igreja são para salvaguardar a saúde física e psíquica dos membros da comunidade cristã. Não podemos esquecer, também, a legitimidade teológica. Há muitos invencionismos difundidos como doutrina. Apregoam que o demônio está em todo lugar. Autor de todos os infortúnios. Os que estão a sofrer, segundo esta “pseudo-teologia demoniológica” (permita-nos o neologismo), estão sob ação demoníaca. Uma espécie de alienação às realidades temporais. O sofrimento humano pode ser resultado de irresponsabilidade, egoísmo, ganância, usura. Todavia, alguns pregadores atribuem sempre a ação direta do demônio. Isentando o homem destas ações maléficas. Às vezes, o maior inimigo do homem é ele mesmo.

Rituais teatrais e emotivos – Orientações do Magistério da Igreja

A Igreja Católica não pode concorrer com as características emotivas e teatrais do culto pentecostal protestante. A mensagem da Igreja não é fantasiosa, nem recorre à “apelação”, que fala aos sentimentos e às emoções, mais que à inteligência e ao raciocínio. A Igreja fala à profundidade do ser humano e tende a provocar nele uma adesão que não é “festiva”, mas séria e total. Onde o barulho se faz muito presente, ausenta-se a genuinidade da fé.

A Congregação para a Doutrina da Fé tem uma instrução dirigida aos Bispos a respeito do uso do exorcismo. Foi assinada em 24 de setembro de 1985, pelo Prefeito da referida Congregação, o Card. Joseph Ratzinger; atualmente Papa Emérito Bento XVI. Diz assim:

“Há alguns anos, certos grupos eclesiais multiplicam reuniões para orar no intuito de obter a libertação do influxo dos demônios, embora não se trate de exorcismo propriamente dito. Tais reuniões são sob a direção de leigos, mesmo quando está presente um sacerdote.

Visto que a Congregação para a doutrina da Fé foi interrogada a respeito do que  pensar diante de tais fatos, este Dicastério julga necessário transmitir a todos os Ordinários a seguinte resposta:

1 – O Cânon 1172 do Código de Direito Canônico declara que a ninguém é lícito proferir exorcismo sobre as pessoas possessas, a não ser que o Ordinário (Bispo) tenha concedido peculiar e explícita licença para tanto (1º). Determina também que esta licença pode ser concedida pelo Ordinário do lugar a um presbítero dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida (2º). Por conseguinte, os Srs. Bispos são convidados a ungir a observância de tais preceitos.

2 – Destas prescrições, segue-se que não é lícito aos fiéis cristãos utilizar a fórmula de exorcismo contra Satanás e os anjos apóstatas, contida no Rito que foi publicado por ordem do Sumo Pontífice Leão XIII; muito menos lhes é lícito aplicar o texto inteiro deste exorcismo. Os Srs. Bispos tratem de admoestar os fiéis a propósito, desde que haja necessidade.

3 – Por fim, pelas mesmas razões, os Srs. Bispos são solicitados a que vigiem para que – mesmo nos casos que pareçam revelar algum influxo do diabo, com exclusão da autêntica possessão diabólica – pessoas não devidamente autorizadas não orientem reuniões nas quais se façam orações para obter a expulsão do demônio, orações que diretamente interpelem os demônios ou manifestem o anseio de conhecer a identidade dos mesmos.  

A formulação destas normas de modo nenhum deve dissuadir os fiéis de rezar para que, como Jesus nos ensinou sejam livres do mal (cf. Mt 6,13). Além disso, os pastores poderão valer-se desta oportunidade para lembrar o que a Tradição da Igreja ensina a respeito da função própria dos Sacramentos e a propósito da intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria, dos anjos e dos santos na luta espiritual contra os espíritos malignos.

Aproveito o ensejo para exprimir à Vossas Excelências meus sentimentos de estima, enquanto lhe fico sendo dedicado no Senhor.

Joseph Card. Ratzinger, Cardeal Prefeito.”

É em observância destas normas que hão de se proceder os grupos de oração católicos. O contrário a isto incorre em desobediência ao Magistério e não incorre em comunhão eclesial. Com ouvidos atentos e coração dócil, devemos manter o caminhar conforme as diretrizes e ensinamentos da Igreja. Não obstante o que possa parecer bom aos olhos, ou mesmo inspiração que venha do alto, caminhar em comunhão com o Magistério sempre foi e será a melhor via de se evitar o erro.

Neste sentido, devemos sempre confiar nossas dúvidas aos bispos devidamente constituídos pela Tradição Apostólica e, em hipótese alguma, agir segundo nossas inspirações pessoais. Nelas, sim, pode estar o mal à espreita. O rompimento com a comunhão na Igreja é o que a faz vulnerável ao maligno. Tende à ruína (cf. Mc 3,24).

Referências

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