Da Simplicidade

Por Sérgio de Souza

Nestes tempos pandêmicos, nos quais a humanidade teve que deparar-se consigo mesma por conta do confinamento causado pelos lockdowns, ganharam força diversos conceitos comportamentais advindos da reflexão proporcionada pela solidão e pelo silêncio (ou pelo desespero, pela depressão, pela fuga, pânico ou ansiedade), tais como o minimalismo, detox digital, simplicidade voluntária e outros. Não são poucas as pessoas que, fazendo uma reavaliação da vida, buscam a vida simples do campo, mais próxima da natureza, mudam sua alimentação e hábitos, reduzem suas atividades e procuram se desprender do excesso de objetos e supostas comodidades oferecidas pela modernidade, procuram retiros pessoais através dos quais possam afastar-se por determinados tempos do mundo virtual e conectado. A própria liderança do Vale do Silício (apelido da região da baía de São Francisco, no EUA, onde estão situadas várias empresas de alta tecnologia,) foi das primeiras a descobrir que submeter-se por certos períodos aos desertos digitais faz bem inclusive à criatividade que permite que criem novos dispositivos e aplicativos (que, por sua vez, fazem as pessoas ficarem mais tempo conectadas).

A simplicidade, assim, volta a ser vista como uma virtude. E foi justamente pensando sobre isso que caiu nas minhas mãos um ensaio de Thomas Merton sobre a simplicidade — “O Espírito de Simplicidade” — no qual ele reflete sobre o conceito de simplicidade em São Bernardo de Claraval. As reflexões de Merton vieram ao encontro da questão que eu me colocava, como um insistente adepto do método socrático: o que é a simplicidade?

Para responder, Merton dirá que “São Bernardo realmente reivindicou a bondade fundamental da natureza humana em termos tão fortes como jamais foram usados por qualquer filósofo ou teólogo”. E invoca o ascetismo cisterciense que é insistente na ideia de que os primeiros passos da nossa ascensão rumo ao alto é nos conhecermos — autoconhecimento —e que toda pessoa que começa a empreender essa viagem só chegará a termo se sua busca consistir em não abrir mão de ser ela mesma, que segundo São Bernardo, é retornar à simplicidade original: redescobrir a imagem de Deus em nós, onde habitam a imortalidade e a liberdade. Onde somos livres para ser quem somos.

E quando dizemos “chegar a termo”, é preciso esclarecer que esse processo só estará completo no céu. Aqui na terra, segundo São Bernardo, teremos que lutar para nos livrar de nossa “vestimenta dupla” (que remete à doutrina paulina do homem novo versus homem velho). É interessante que neste ensaio Merton formula pela primeira vez em seus escritos o conceito de “verdadeiro eu” e “falso eu”, que lhe será tão caro e aparecerá repetidas vezes em outros escritos mais famosos. Nos libertar da veste de duplicidade que não somos nós é a própria caminhada rumo à simplicidade. É uma jornada rumo ao futuro, sem deixar de fazer memória sobre a nossa origem. É o já e ainda não. Fomos assim criados — simples — e caminhamos para uma simplicidade redimida, recapitulada em Cristo, que experimentaremos plenamente no céu.

O exercício da simplicidade interior conduz-nos à sinceridade, a estarmos desnudos diante da Verdade, assumindo nossas deficiências com franqueza. E como “a humildade é a verdade”, paramos de nos defender diante de Deus, assumindo nossa vulnerabilidade. Ficamos desarmados e a simplicidade ganha o rosto de um quebrantamento. E este quebrantamento, por sua vez, não nos deixa abatidos, mas abre espaço para a vida ascética e para a mortificação. E é aqui que entram as coisas mais práticas, que fazem contato com os conceitos comportamentais citados no início deste texto: uma vida de penitência compreende a libertação de tudo o que é inútil e acessório e começamos a praticar efetivamente a simplicidade do modo de comer, de se vestir, no trabalho e no estilo de vida. Também a simplicidade pode adquirir um sentido intelectual: ser sóbrio na vida devocional, ordenar a vida de estudos, ter uma vida de oração equilibrada. E, por fim, a simplicidade deve também atingir nossa vontade. Segundo São Bernardo*, esta é a mais importante das tarefas: destruir a vontade própria para abraçar a vontade de Deus. Modernamente, poderíamos dizer: integrar nossos desejos à vontade de Deus. Descobrir que o fundo de cada desejo humano é o desejo de Deus. São Bernardo enfatizará a obediência como grande meio penitencial para o monge atingir o espírito de liberdade interior. A obediência de um filho que confia plenamente no pai. Espiritualmente, a correspondência é a filiação divina. E se para o monge isto traduz-se concretamente na obediência ao abade, para o fiel comum está intimamente ligado ao cumprimento de seus deveres de estado. Ser fiel aos horários, cumprir com disciplina as pequenas tarefas, doar tempo de qualidade aos filhos. A regra espiritual traduz-se cotidianamente em gestos simples e corriqueiros, que, feitos com atenção, discernimento e amor, levam-nos ao espírito de liberdade interior que não é outro senão o caminho que conduz à vivência de nosso chamado mais básico: ser quem somos chamados a ser.

Fonte: Fundação Thomas Merton

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