Ação profética na história de Israel



Por Frei Jacir de Freitas Faria



Na origem, profeta é um termo grego (profetes) que aparece na mitologia para referir-se ao personagem que interpreta as palavras confusas da sacerdotisa Pitia, que teria recebido a mensagem de Apolo, dada por Zeus. O profeta era, pois, um interprete da divindade. Historicamente, o profeta passa a ser um anunciador do futuro, simplesmente porque as palavras da divindade estavam quase sempre relacionadas ao futuro.


Ser profeta na Bíblia
Juntamente com os termos visionário, vidente e homem de Deus, profeta, tradução do hebraico nabî’, é o mais usado na Bíblia para designar aquele que fala em nome de Deus. Nas suas 315 ocorrências, ele retrata o período que vai do final do séc. VII ao VI antes da era comum (a.E.C.).


O profeta é o intérprete, aquele que comunica a palavra, seja de Deus ou de Baal. Ele é uma pessoa escolhida por Deus para transmitir a sua mensagem de denúncia, solução e esperança. Em outras palavras, o profeta é o porta-voz da aliança.


A atuação profética investe contra os opressores do povo de Deus. Quando um povo atacava, invadindo Israel, o profeta denunciava o opressor e o povo de Israel, que permitia a opressão por causa de seus próprios erros.


O profeta, encarando a crise social, política e econômica de seu povo, torna-se também um homem da crise. Jeremias diz: “Meu coração está quebrado dentro de mim, estremeceram todos os meus ossos. Sou como um bêbedo, como um homem que o vinho dominou por causa do Senhor e por causa de suas santas palavras (Jr 23, 9). E continua: “Porque a terra está cheia de adúlteros”… Já Elias, agindo de forma violenta contra o rei Acab, o qual lhe chama de ‘flagelo de Israel’, diz: “Não sou eu o flagelo de Israel, mas tu és tu e tua família, porque abandonastes o Senhor e seguistes os baals” (1Rs 18, 18). Amós, por sua vez, denuncia a podridão na Samaria, onde o fraco é oprimido e o indigente, esmagado (Am 4,1). Amós denuncia o rei de Israel, Jeroboão. Amasias, sacerdote de Betel, entrega Amós para Jeroboão, e afirma que a terra não pode mais suportar as palavras do profeta Amós (Am 7,10).


Colocando-se contra os poderosos, o profeta faz opção clara pelos que sofrem, os pobres. Zacarias, por exemplo, sonha com “um rei justo e vitorioso, pobre, montado sobre um jumentinho. Ele eliminará os cavalos de Efraim e de Jerusalém, e o arco de guerra” (Zc 9,9). Malaquias, por sua vez, afirma Deus agirá, no Dia do Senhor, contra “os que oprimem o assalariado, a viúva, o órfão e violam o direito dos estrangeiros” (Ml 3,5). Deus é o Deus dos pobres. Ser profeta é agir como Deus, que tem preferência pelos pobres. Assim, o profeta sabe discernir o que faz parte do projeto de Deus.


Algumas mulheres faziam parte do movimento dos profetas. No entanto, a única mulher que poderia ser considerada profetisa na Bíblia, no sentido estrito do termo, é Hulda (2 Rs 22,14), que viveu na época da reforma deuteronomista do Rei Josias. As outras mulheres que recebem o título de profetisa são Miriam, irmã de Moisés e Aarão (Ex 15,20) e Débora (Jz 4,4). Embora sejam somente três as mulheres chamadas de profetisas na Bíblia, sabemos que muitas outras atuaram como tal. Há de se ressaltar, no entanto, que está denominação tem suas origens nos livros históricos e no Pentateuco, mas não nos proféticos. O machismo no mundo bíblico, com certeza, impediu o surgimento de outras mulheres profetisas. E por que não concluir que muitas mulheres profetisas não lograram ter os seus feitos registrados no Livro Sagrado. Em Is 8,3, ao falar do nascimento do filho de Isaías, refere-se à mulher do profeta como profetisa. “Em seguida me acheguei à profetisa e ela concebeu e deu à luz a um filho”. A mulher aqui, também na perspectiva machista, é considerada profetisa, por ser esposa e mãe do filho do profeta.


O profeta age, na maioria das vezes, isolado. Alguns chegam a ter sua escola ou discípulos. Este modo de agir do profeta o leva a uma profunda crise pessoal. É o caso de Jeremias, que sofre por ter defendido o Exílio na Babilônia para o seu povo. Por isso, ele foi considerado um traidor da pátria (Jr 39) e acabou exilado no Egito (Jr 41-43).


O profeta torna-se um desinstalado por Deus. Ele é, aparentemente, um frustrado. Sente-se ameaçado constantemente no seu projeto. Na outra ponta da linha, a simples presença do profeta é capaz de gerar uma crise pessoal e institucional. O profeta incomoda pessoas e instituições. Ele diz o que as pessoas não querem ouvir. O reconhecimento destas palavras é, quase sempre, muito posterior.


Os profetas de Israel e Judá pregavam a fé monoteísta ao Senhor e contra qualquer tipo de idolatria. Na voz do profeta Isaías, Deus diz: “Eu sou o primeiro e último, fora de mim não há Deus” (Is 44, 6b). E ainda condena os idólatras: “Os que modelam ídolos nada são, as suas obras preciosas não lhes trazem nenhum proveito! Elas são as suas testemunhas, elas que nada veem e nada sabem, para a sua própria vergonha. Quem fabrica um deus e funde um ídolo que nada lhe pode valer? Certamente, todos os seus devotos ficarão envergonhados, bem como os seus artífices, que não passam de seres humanos” (Is 44, 9-11). Combater a idolatria e a alienação religiosa do povo é a marca indelével da ação profética.


O profeta está também presente no templo de Jerusalém, atuando em sintonia com os sacerdotes. Ele é uma pessoa de oração, que reza a vida e seus acontecimentos. É alguém que vive uma profunda experiência pessoal de Deus. Ele é o seu testemunho. O profeta é o guia espiritual do povo.

Ser profeta na história de Israel
Os profetas e as profetisas, na história de Israel, moveram-se pela certeza: Deus é justo e o povo se afastou dele. O povo rompeu a aliança com Deus. Desse modo, a estrutura da sociedade ficou fraca, tornando-se presa fácil para os dominadores que os subjugavam, os expulsavam da sua própria terra e os exilavam.


Os reis da monarquia de Israel e de Judá, que deviam zelar pelo povo, não o fizeram. Eles não tomaram as devidas providências. Faltou coerência entre a vida e o culto. O culto deixou de ser expressão de honestidade. O Templo onde se realizava o culto tornou-se um covil de ladrões (Jr 7,1-15; Mt 21,12-13; Am 2, 6-16). O profeta chega a usar a pedagogia do medo para fazer o povo voltar ao caminho de Deus. Textos proféticos, como Is 33, 14-16; Sl 15 e Sl 6, ao descreverem uma verdadeira liturgia de acesso ao Templo, afirmam que só quem é justo poderá aproximar-se de Deus; ou seja, apenas aquele que fala o que é reto despreza o ganho explorador e se recusa aceitar o suborno.


A enumeração em ordem decrescente das coisas que os profetas mais denunciam é: injustiça nos tribunais, comércio, escravidão, latifúndio, salário, tributos e impostos, roubo, assassinatos, garantias e empréstimos, luxo. Por mais estranho que pareça, é o poder legislativo que recebe mais denúncias por parte dos profetas. Os acusados alternam entre juízes, legisladores, reis e seus funcionários. Os que sofrem a má administração da justiça fazem parte do tripé, tão caro na defesa profética: pobres, viúvas e órfãos. A esses é negado até mesmo o direito de reivindicar a justiça. A lei passa a defender a classe dirigente, a qual garante, com isso, os direitos e bens adquiridos à custa do sofrimento dos pobres (Am 6,1-7). Qualquer semelhança com os nossos dias é mera coincidência.

Para melhor visualizar a ação profética na história de Israel, vamos por partes:

A monarquia
A monarquia em Israel, desde o seu surgimento, recebeu duras críticas do profeta e último dos juízes, Samuel (1Sm 8). Ela continuou, ao longo dos séculos, sendo criticada pelos profetas. Há, porém, divergências nas soluções apresentadas para mudar o sistema de governo na monarquia. Alguns como Amós, Oseias, Miqueias, Sofonias acreditam que ela deva desaparecer. Outros, como Eliseu, Proto-Isaías, Jeremias, Ezequiel, Zacarias I, que ela deva ser mantida e reformada como mudanças de governantes.


No período que vai desde o surgimento da Monarquia Unida em Israel (1030 a.E.C.) até o séc. VIII, quando Amós inicia a sua atividade profética, encontramos profecia relacionada com a corte. Sicre, referindo-se a esse período, fala de três etapas:


a) proximidade física e distanciamento crítico em relação ao monarca;
b) distanciamento físico entre o profeta e o rei;
c) distanciamento progressivo da corte e aproximação cada vez maior do povo.


Os profetas Gad e Natã vivem na corte e representam o primeiro grupo. Aías de Silo e Miqueias, filho de Jamla, não frequentam os palácios. Eles mostram que o compromisso deles é com o que “Deus lhes mandou dizer”. Apoiam os reis e chegam a anunciar-lhes a destruição de suas dinastias. Elias representa o terceiro grupo. O rei, caso necessite de um profeta, deveria procurá-lo fora da corte (1Rs 18,10). E com muita dificuldade, o rei vai encontrá-lo. Elias não se dirige ao palácio de Acab. A partir de Elias, o profeta fala ao rei por ele ser autoridade política e religiosa, mas a sua atuação está, sobretudo, junto ao povo (1Rs 17, 9-24). Eliseu, seguindo os passos do seu mestre Elias, tornou-se um dos profetas mais populares do Primeiro Testamento.


Nas pegadas de Elias, o profetismo em Israel será marcado pela oposição à monarquia.

Os impérios
A Bíblia é uma longa história de sucessivas dominações de impérios sobre o povo de Deus. Os impérios do Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Síria e Roma, consecutivamente, dominaram sobre o povo de Deus. Foi somente no período do reinado de Davi e Salomão (1010 a 932 a.E.C.) é que Israel pôde viver certa liberdade política e econômica. Hoje, por meio da arqueologia, sabemos que a monarquia davídica e salomônica não foram grandiosas assim com relatam os textos bíblicos. O poder dos impérios jamais permitiu a supremacia de Israel. A questão é mais teológica que real.


Os profetas e profetisas, em relação aos impérios, tiveram duas atitudes básicas:


conformação dos impérios com a vontade de Deus (Primeiro Isaías; Ezequiel; Jeremias e Segundo Isaías); condenação dos impérios, por eles serem incompatíveis com a vontade divina (Naum, Ageu, Zacarias, Profetas anônimos de Jerusalém (Jr 50-51; Is 13; 14,4-21; 21, 1-10; 47 e Daniel).


Em relação ao primeiro ponto, podemos dizer que a aceitação do profeta à dominação de um império sobre Israel acontece quando ele percebe que o povo se desviou da aliança e, portanto, precisa de uma correção divina. A submissão acabava sendo a única forma de sobrevivência do povo; caso contrário, sua aniquilação seria total. Desse modo, Jeremias agiu ao afirmar que o império babilônico fora um instrumento de castigo usado por Deus.


A segunda atitude, a da condenação dos impérios, vai predominar na maioria dos profetas, como também em Jeremias (Jr 46-49). O peso da opressão era tamanho, que ninguém poderia aceitar o dominador como solução para a conversão.

As capitais Samaria e Jerusalém
A capitais de Israel e de Judá, Samaria e Jerusalém, respectivamente, receberam especial destaque na crítica profética e soluções diferenciadas. A Jerusalém, de modo particular, os profetas apontaram como solução desde a sua destruição total até a sua reconstrução, a partir de uma intervenção divina. Dentre os profetas que defenderam a primeira posição, destacam-se: Miqueias, Hulda, Sofonias, Isaías II. Já os defensores da segunda posição são: Abdias, Isaías I, Isaías II, Ageu, Zacarias I, Isaías III, Zacarias II. Amós teceu duras críticas à Samaria.

Terras e a reforma agrária de Miqueias
A questão da apropriação indevida das terras, com consequente criação de latifúndios – não como entendemos o termo hoje, pois Israel não tinha terra em abundância a ponto de caracterizar-se como latifúndio –, deveria ter papel importante no Israel agrário. Ocorre, porém, o contrário, pois são somente Isaías e Miqueias que tratam mais claramente dessa questão. Profetas como Amós e Malaquias, dos quais se esperaria manifestação, dada a evidência da problemática no seu tempo, não pronunciam uma palavra sequer a respeito. Miqueias, no entanto, chega a propor uma reforma agrária.

O “Dia do Senhor”
A expressão “Dia do Senhor”, bem conhecida entre os israelitas, foi considerada de modo diferenciado pelos profetas. Amós diz que esse dia não será de bênção e de felicidade, como esperava o povo eleito, mas de trevas. Sofonias e Ezequiel falam de “Dia de Ira”. O Proto-Isaías, Jeremias, Sofonias e Joel chamam “Dia de Trevas, Lagrimas, Massacre e Terror”. Eles relacionam esse dia à invasão do opressor.


Durante o Exílio na Babilônia, o “Dia do Senhor” ganha a conotação de dia de esperança. A ira de Deus volta-se contra os opressores e, por conseguinte, Israel será libertado, conforme Abdias, Primeiro Isaías, Jeremias, Ezequiel e Joel.


Depois do Exílio, o “Dia do Senhor” tende a ser um “Dia de Julgamento” que garantirá o triunfo dos justos e a ruína dos pecadores, segundo Malaquias.


Concluindo, podemos dizer que “Dia do Senhor” dependendo do contexto e do ponto de vista do profeta, foi interpretado como o dia de esperança, bênção, paz, lágrimas, terror e julgamento.

Os pecados do povo
Joel é o único profeta que não condena os pecados do povo. Ele somente insiste na penitência ritual. O Segundo Isaías, por sua vez, alude aos pecados, porém tal atitude tem o objetivo pedagógico de mostrar que a iniquidade de Israel está expiada (40,2). Mais que ameaçar o povo, como o fez o Primeiro Isaías, o Segundo Isaías mostra um Deus consolador: “consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus” (40,1).

A conversão
A conversão do povo foi proposta por muitos profetas, como: Amós, Baruc, Proto-Isaías, Sofonias, Jeremias, Ezequiel e Primeiro Zacarias, embora alguns não acreditassem que o seu povo seria capaz de realizar tal proposta. Somente uma intervenção divina, que concedesse o perdão, é que poderia mudar a realidade. O Segundo Isaías, falando da conversão dos pagãos ao Senhor, foi mais ousado. Do mesmo modo, Jonas chegou a anunciar a conversão da capital do império assírio, Nínive.

Os milagres
As ações milagreiras de Elias, Eliseu (1Rs 17,8-24; 2Rs 4,1— 8, 15) e Jesus mostram que a ação do profeta não é só de falar em nome de Deus, mas também de devolver a vida ao povo, o que lhe restitui, por conseguinte, a esperança de uma vida melhor.

Miquéias: “quem é como o Senhor?” na história de Israel
Esse camponês, Miquéias, nome que significa “quem é como o Senhor?, atuou como profeta entre os anos de 738 a 693 a.E.C. Na sua época, religião e moral estava em situação degradante.


Miquéias denunciou com força profética os tribunais e seus juízes corruptos que agiam por suborno (3,11; 7,3), chegando jurar falso (6,12), os comerciantes fraudulentos (6,9-15), a escravidão das crianças (2,9), os latifúndios (2,1-5), o roubo de campos (2,2), os príncipes (7,3), reis (3,1.9.11), os chefes militares (3,1.9), os sacerdotes (3,11) e os falsos profetas (2,6s.; 3,5-8; 3,11).


Miquéias propôs a reforma agrária (2,1-5), o desaparecimento total de Jerusalém, a cidade construída com o sangue dos pobres, um processo do Senhor contra Israel (6, 1-8), a abolição dos armamentos e monumentos pagãos que existiam no país (5,9-14) e a vivência de religião libertadora.


A esperança de Miquéias dependia do fim de Jerusalém. Nela estava sedimentada uma sociedade corrupta, que não admitia reformas nem composições. Enquanto Jerusalém não desaparecer do mapa a solução não virá, afirmava. Miquéias esperava que o Messias vindo de Belém vencerá os povos (5,1-8) e os dispersos voltarão (4,6-8) para a terra da promessa.



Na história: um profeta, uma denúncia, uma solução
Dizer que todos os profetas expressaram uma viva esperança na transformação da sociedade de então, não nos parece claro. Por outro lado, reduzi-los a um pessimismo fatalista, também não é justo. Uma atenta análise da atuação de cada profeta na história de Israel, como vimos acima, nos revela que a esperança de cada profeta é tão diferente, quanto a análise da realidade feita por cada um deles. Para alguns profetas a esperança de um novo tempo para o seu povo estava condicionada a mudanças como: conversão, justiça nos tribunais, intervenção divina, etapa prévia de purificação, reforma agrária, compromisso com a justiça e o direito. Diante de tamanhas exigências poder-se-ia concluir que os profetas não têm esperança. Primeiro, porque as exigências são grandes e segundo, porque o povo, de modo geral, não estava a fim de mudar de vida. Talvez tenhamos que concordar que uns profetas são extremamente pessimistas (ou realistas), como Jeremias, e outros, como Joel, são os arautos da esperança. Por outro lado, seria melhor acreditar que cada profeta, a seu modo e por ser um profeta, tem esperança. Caso contrário ele deixaria de sê-lo. Em outras palavras, a esperança nos profetas delineia-se em vários pontos: reconstrução de Jerusalém, como centro religioso e lugar de paz; volta do exílio babilônico; novas lideranças; perdão de Deus para o povo; conversão dos pagãos, etc.


Cada profeta, uma denúncia, uma solução e uma esperança. Não é possível enquadrá-los em um mesmo esquema. Cada profeta, atento aos problemas da sua sociedade, o que lhes era peculiar, soube, com base nas propostas da aliança feita com Senhor, apresentar uma solução. Uns profetas, sem a pretensão de fazer uma análise científica, foram mais detalhistas. Outros se detiveram em problemas cruciais. Cada profeta vive um momento histórico diferenciado. Por isso, eles divergem na leitura da realidade e das soluções apresentadas. A história incorpora essa realidade. Todo projeto por eles apresentado analisa a realidade, critica-a e projeta uma esperança. Ao negar a esperança, paradoxalmente o profeta cria esperança. Essa nasce de uma realidade de morte e de injustiça. O povo toma consciência da situação e cria algo de novo. A esperança é, pois, realista e condicionada ao Deus que liberta. Onde não tem justiça, também não tem paz.


Embora tenha reivindicado para si só de forma indireta o título de profeta (Lc 13,13), Jesus foi o profeta por excelência, a síntese de toda ação profética. Ele, na condição de Filho de Deus, sucede aos profetas como último dos mensageiros de Deus. Chamado pelo povo de “João Batista, Elias ou um outro profeta que ressuscitou” (Lc 9,19), Jesus, na sinagoga de Nazaré, onde fora criado, leu o texto de Is 61,1-2, com o qual ele confirma a sua ação profética: “O espírito do senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Denunciando toda e qualquer forma de injustiça do seu tempo, Jesus anunciou um Reino de justiça, paz e liberdade. E por ele morreu crucificado e ressuscitou. A esperança de um “novo tempo”, realizada em Jesus, se eternizou em todos aqueles que nele acreditaram.

Conclusão: a profecia não pode parar
A presença dos profetas e profetisas na história de Israel, que a Bíblia nos legou, foi marcada pela diversidade de pensamento e atuação conforme a leitura da realidade que eles faziam a partir de Deus para o seu povo.


A profecia é a teologia da história. É o desejo de sempre construir a libertação de um povo, sistemas e pessoas. Profecia é a Palavra de Deus no meio do povo. Difícil, no entanto, é distinguir palavra humana da palavra divina. Muitas vezes, elas se misturam na história. Nem todos que se julgam profetas não o são. E nem todos os profetas foram considerados com tal, como no caso das mulheres da Bíblia.


O profetismo bíblico inspirou o profetismo na igreja. Olhando a história da Igreja percebemos a várias nuances do profetismo na vida dos monges do deserto, nas inúmeras congregações religiosas, nas divisões eclesiais (protestantismo, pentecostalismo, etc.), na vida do clero e dos leigos. As igrejas necessitam de profetas para manter-se no caminho de Deus. Os profetas e profetisas, normalmente não assumem cargos de direção, mas cumpre a difícil tarefa de manter a direção eclesial no caminho. Assim, estes dois grupos são importantíssimos para vida eclesial. No entanto, é lamentável quando o poder hegemônico silencia profetas. Profetas estão escassos em nossos dias.


A sociedade civil necessita de profetas para sobreviver. Inspirados na fé recebida na comunidade, muitas lideranças civis políticas se deixam guiar pelos princípios da ética, o que os leva a denunciar as situações de injustiça.


Olhando para a história do profetismo bíblico poderíamos nos perguntar pela validade da crítica profética. Valeu a pena profetizar? Esta é a pergunta básica. Por que tanta denuncia se nada mudou? As sociedades continuam injustas nas suas estruturas. Todos continuam o sonho de outro mundo possível! É, parece ser essa a sina do ser humano. Assim como nos tempos bíblicos, basta um grupo assumir o poder que ele acaba caindo também em corrupção. A esperança de um povo se vê traída.


A profecia valeu a pena porque a palavra profética deu fruto ao longo da história. A profecia continua sempre atual. A esperança profética não pode morrer. A esperança é a gasolina de todo e qualquer ser humano. Quem perde a esperança deixa de viver. Mesmo que estruturas não mudem, não podemos deixar de esperar num outro mundo possível. Homens e mulheres novas renascem a cada dia. E mesmo que eles envelhecem e voltem para o nada, há de se esperar sempre.


O profeta é o ser humano da crise, do sofrimento. Ele não é compreendido nas suas ações e palavras proféticas, pois ele está sempre além do tempo e das pessoas. Ele consegue ver o que os outros não veem, por estar sempre mergulhado numa eterna crise, nele e nos outros.


A palavra e força se unem na ação profética. Uma palavra bem-dita derruba barreiras, alimenta sonhos, impulsiona a esperança. Ela não dá a casa pronta, o pão, mas ensina com buscá-lo. Uma palavra maldita põe tudo a perder. Ela destrói esperanças. A palavra profética é sempre bem-dita. Por isso, ela é eterna, no sonho e na conquista. Temos que esperar sempre! Temos que ser profetas sempre, mesmo que o tempo não seja para tanto. O Miqueias bíblico e os “miqueias” de nosso tempo continuam no sonho e na esperança de um novo tempo.

Referências para o estudo dos profetas

ASURMENDI, Jesus. A profetismo das origens à época moderna. São Paulo: Paulinas, 1988.
BOGGIO, Giovanni. Jeremias: o testemunho de um mártir. Pequeno Comentário Bíblico, São Paulo: Paulinas, 1984.
BOGGIO, Giovanni. Joel, Baruc, Abdias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Os últimos profetas. Pequeno Comentário Bíblico AT, São Paulo: Paulus, 1991.
BONORA, Antônio. Naum, Sofonias, Habacuc, Lamentações. Sofrimento, protesto e esperança. Pequeno Comentário Bíblico AT, São Paulo: Paulinas, 1993.
BRENNER, Athalya (Org.). Profetas a partir de uma leitura de gênero. São Paulo: Paulinas, 2003.
CEBI. Estudo sobre Isaías Júnior. São Paulo: Paulinas, 1983.
CROATTO, José Severino (Org.). Os livros proféticos: a voz dos profetas e suas releituras. Petrópolis: Vozes, RIBLA 35/36, 2000.
CROATTO, Athalya. Isaías. O profeta da justiça e da fidelidade. I e II. Comentário bíblico NT. Petrópolis: Vozes/Sinodal, 1989.
Da SILVA. Nascido Profeta: A vocação de Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1992.
FARIA, Jacir de Freitas. Profetas e profetisas na Bíblia: história e teologia profética na denúncia, solução, esperança, perdão e nova aliança, São Paulo, Paulinas, 2ª Ed. 2012.
FONSATTI, José Carlos. O Profetismo. Cadernos temáticos de evangelização 9, Petrópolis: Vozes, 2002.
MESTERS, Carlos. A profecia durante e depois do cativeiro. In: Curso de Verão. São Paulo: Paulus, 1991.
MESTERS, Carlos. O profeta Elias. Homem de Deus. Homem do povo. São Paulo: Paulinas, 1987.
MONARI, Luciano. Ezequiel um sacerdote profeta. Pequeno Comentário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1992.
SCHÖKEL, Luís Alonso, SICRE, José Luís. Profetas. São Paulo: Paulinas, 1988-1991.
MESTERS, Carlos. Profetas, I e II, São Paulo: Paulinas, 1988.
SEUBERT, Augusto. Como entender a mensagem dos profetas. São Paulo: Paulinas, 1992.
SCHWANTES, Milton. A profecia durante a monarquia. In: Curso de Verão. São Paulo: Paulus, 1991.
MESTERS, Carlos. Ageu. Comentário Bíblico AT, Petrópolis/Sinodal: Vozes, 1986.
SICRE, José Luís. A justiça social nos profetas. São Paulo: Paulinas, 1990.
MESTERS, Carlos. O profetismo em Israel. O profeta. Os profetas. A mensagem. São Paulo: Vozes, 1996.
MESTERS, Carlos.(org.). Os profetas. São Paulo: Paulinas, 1998.
ZABATIERO, Tavares J.P., Miqueias: a voz dos sem-terra, Vozes, Petrópolis 1996.
WILSON, Robert R. Profecia e sociedade no antigo Israel. São Paulo: Paulus, 1993.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019).

PRESENÇA DE FREI JACIR NAS MÍDIAS SOCIAIS

Canal Bíblia e Apócrifos:
Oferece aulas e lives sobre Bíblia e Apócrifos
https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ

Página Bíblia e Apócrifos:
http://www.bibliaeapocrifos.com.br/

Reflexões Bíblicas no Canal Grupo de Reflexões Bíblicas São Jerônimo:
https://www.youtube.com/channel/UCkVLcYNOuzQL_HL1g8e3_lg

Instagram:
https://www.instagram.com/freijacir/

Facebook:
https://www.facebook.com/freijacir.freitasfaria


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s