A vocação profética de Isaías, Jeremias, Jonas e Jesus



Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm




Isaías: vocação para a denúncia e o anúncio
Isaías mesmo conta como foi o seu chamado (Is 6, 1-10). Ele vê Deus sentado no trono, com vestes que cobriam o santuário e rodeado de serafins que proclamam a sua grandeza. Isaías toma consciência da própria limitação, de sua condição de pecador. Um dos anjos traz brasa e lhe toca a boca, purificando-o e perdoando os seus pecados. Deus escolhe Isaías, e este lhe responde: “Eis-me aqui, envia-me!”. Isaías é chamado no Templo, no momento da oração da comunidade. Deus elege Isaías, que tem prática de oração intensa, e o envia para o ministério profético.


Isaías aceita o chamado e recebe a missão de ser profeta, de denunciar os erros de seu povo. Para obter a salvação, o povo precisará passar por duras provações. Isaías teve a difícil tarefa de anunciar os castigos previstos para o povo. Uma pequena parcela, um broto do povo, subsistirá e dela renascerá o povo.


Os elementos essenciais da vocação de Isaías são: visão; consagração através da boca com o toque da brasa purificadora; aceitação da missão e denúncia dos erros do povo.

Jeremias: escolhido para destruir, arrancar e plantar. Mas ele tem medo!
A vocação de Jeremias é descrita em um texto bíblico de bela construção literária, Jr 1,4-10. Deus se revela a Jeremias e lhe dá missão, tocando a sua boca e colocando nela suas palavras. Deus dá a Jeremias a missão de destruir, arrancar e plantar a justiça divina (Jr 1,10). Jeremias retruca, dizendo que não sabe falar. “Ah! Senhor Deus, eis que eu não sei falar, porque ainda sou uma criança!” (Jr 1,6). E Deus mesmo lhe diz: “Não tenhas medo deles, para que eu não te faça ter medo deles” (Jr 1, 17). Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações” (Jr 1,5). Essa missão dada por Deus a Jeremias foi marcada por medo e por muita crise, inclusive a da sedução.


Jeremias é um profeta medroso. Se o seu nascimento foi marcado pela alegria na casa paterna (Jr 20,15), ele, no entanto, quando já crescido, amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Maldito o dia em que nasci” (Jr 20,14). Jeremias demonstra claramente que não queria ter nascido. A sua mãe leva a culpa: “Minha mãe teria sido minha sepultura” (Jr 20,17). “Mãe, minha desgraça é a vida que a senhora me deu” (Jr 15,10).


A comunidade de Jeremias, ao relatar a sua vocação, quis mostrar como ele se parecia com o grande profeta Moisés. Este também teve medo, disse que não sabia falar, que era gago, mas realizou sua missão profética.


Jeremias tinha uma afeição muito grande pelo ambiente rural, onde nascera e teria vivido. Possivelmente, não se casou. Era de família sacerdotal, da descendência do sacerdote Abiatar (1Rs 2,26). Conhecedor do sofrimento de seu povo, Jeremias sabia que algo deveria ser feito, mas ele tinha medo. No ano 627 a.E.C., no décimo terceiro ano do governo de Josias, Jeremias sente o chamado de Deus. O livro que leva o seu nome descreve os elementos essenciais dessa vocação, nos seguintes pontos:


Deus, quando chama alguém, é porque este já é íntimo seu. “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei” (Jr 1,1-5). Ele sente que sua vida pertence a Deus desde antes de nascer.


Jeremias tem consciência de que é um consagrado para a missão profética: “Eu te consagrei” (Jr 1,5b). Por isso, ele não sabe fazer outra coisa a não ser profetizar.


O medo e outras limitações humanas são inerentes à vocação. Deus não o livra das dificuldades, como o medo de falar, e ele se justifica, dizendo que ainda não sabe falar porque: “sou ainda uma criança” (Jr 1,6).


O profeta é porta-voz de Deus (Jr 1,7). Jeremias terá que falar em nome de Deus e em sintonia com o povo para o qual ele foi enviado. E Deus estará com ele sempre. Ele é um abençoado de Deus. As palavras de Deus são colocadas em sua boca, de modo que ele fale em seu nome (Jr 1,10).


O profeta sente-se seduzido por Deus. “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Essas palavras proferidas por Jeremias demonstram como ele compreendeu o mistério da vocação em sua vida. Deus mudou a vida de Jeremias, mas ele reclama e protesta contra Deus, como se este fosse responsável pela sua desgraça, pois ninguém quer ouvi-lo e todos zombam dele.

Jonas: vocação marcada pelo medo da conversão do opressor
O Segundo Livro de Reis fala de um profeta chamado Jonas, filho de Amati, que era de Gad-Ofer (2Rs 14,25). Este, com certeza, não é o mesmo Jonas do livro bíblico que leva o seu nome. Estamos diante de uma parábola, uma história contada pelo povo de Deus para falar de cada um de nós, quando temos medo de ser profeta. A nossa vida é marcada por essa dinâmica de vocacional de sermos enviados por Deus e de, ao mesmo tempo, rejeitar a proposta divina.


Jonas somos todos nós, quando cultivamos medos que nos impedem de seguir adiante. Medo de sair proclamando a Palavra que liberta. Medo de mergulhar no sagrado, de assumir as responsabilidades que a vida nos impõe. Jonas nos convoca adentrarmos no mais profundo de nós mesmos, a fazermos uma viagem interior ao túnel do tempo, para superar traumas e recobrar forças para viver o presente intensamente. Não por menos, Jonas, em hebraico, Yoná,, significa pomba de asas aparadas. Jonas é todo aquele que prefere ficar no ‘peixe grande’, descansando sem assumir sua missão.


Deus chama Jonas, mas ele não aceita a difícil tarefa de ir a Nínive, a cidade do inimigo povo Assírio, que havia destruído o seu povo, Israel. Jonas não acredita que Deus o chama para anunciar a boanova ao opressor. Ele não crê que o opressor possa se salvar. Deus chama Jonas para profetizar, mas ele foge. Ele prefere ir a uma ‘Colônia de férias’, a cidade de Tarsis. E para lá embarca. No barco a caminho de Tarsis, ocorre uma terrível tempestade, o capitão e os marinheiros que o interrogam representam Deus que continua desafiando-o. Uma tempestade assola os viajantes. Para salvar a todos, Jonas propõe que ele seja jogado ao mar. No fundo do mar, lugar do mal e das incertezas, Jonas cai justamente no interior de um peixe grande. Nesse momento, Jonas toma consciência de seus atos, mergulha no silêncio de si mesmo, enfrenta o monstro arinho, no mar, lugar do perigo que mora dentro dele mesmo.


A vocação de Jonas, o profeta da parábola, corresponde a uma dimensão de nossa vocação: a do medo. Deus nos chama, mas temos medo de perder a representação de Deus. Queremos que Deus seja aquilo que projetamos deles. Deus nos surpreende. Ele surpreendeu Jonas que mora dentro de nós.

Jesus: síntese da vocação profética
A realização da vocação de Jesus para o serviço do Reino é expressa de modo claro em Lc 4, 14-22: remir os presos, recuperar a vista dos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor.


Também outros textos bíblicos contam a vocação de Jesus, a saber: Lc 4, 14-22; Hb 5,1-10; Ap 19,13; Jo 1,1-8.30.36; 3,14-19; 3,31-34; 4,25.26.34; 4,42; 5,30.36.38.43; 6,29.38-40; 6,44.50-51.57; 7,16.28-29.33; 8,16.18; 11,27.42.52; 12,13.27.37.46-49; 14,24.31;15,21; 16,5.27; 17,4.6.8; 17,14.18.21.23.25; 18,11.37; 19; 20,21-22. Nesses textos, aparecem outras dimensões da vocação profética de Jesus, isto é: Ele é filho de Deus, o Sumo Sacerdote, o Princípio de Salvação eterna, o Verbo de Deus encarnado, o Cordeiro de Deus, o Embaixador de Deus, o Messias, etc.


Os elementos essenciais da vocação de Jesus são: ser enviado como filho de Deus mesmo; ter o Espírito de Deus com ele; fidelidade incondicional a Deus; ter consciência da sua missão; realização da missão; martírio como consequência de sua vocação.

Conclusão

O estudo que fizemos sobre a vocação dos profetas na Bíblia nos evidencia algumas conclusões, como:


A vocação de cada profeta é específica. Não podemos dizer que todo profeta ou profetisa foi chamado para simplesmente denunciar. Claro que esse aspecto teve um papel fundamental na vida de cada profeta, mas cada profeta tem o seu contexto. Por isso, muitos profetas chegam a mencionar o dia em que eles foram chamados (Zc 1,1; Ez 1,1-2).


Na experiência vocacional de cada profeta, podemos destacar que eles têm, em comum, a certeza de que Deus chama cada um para uma missão, que só ele poderá realizar. Portanto, terá que passar por uma mudança radical em sua vida. Deverá deixar a sua vida tranquila e assumir uma missão nova. O profeta torna-se um desinstalado por Deus. Ele sabe disso, pois, após o seu chamado, vive a experiência profunda de Deus, o que provoca uma reviravolta na sua vida pessoal e familiar.


Ser chamado por meio de sinais, como, por exemplo, voz, luz, toque, nuvem de incenso, sarça ardente, deserto, festa no Templo, são alguns dos meios encontrados pela comunidade do profeta para dizer que ele foi escolhido por Deus para exercer uma missão específica. Esses símbolos são também o meio encontrado para narrar a experiência do chamado.


Em alguns casos de vocação profética, a escolha tem como objetivo dar continuidade à missão de seu antecessor. É o que ocorre, por exemplo, com Eliseu.


O esquema literário das narrativas vocacionais se repete, em muitos casos, do seguinte modo: chamado, rejeição ao chamado, explicitação e aceitação da missão.


O medo e a incerteza fazem parte da vocação de muitos profetas. Muitos apelam para o não saber falar, não saber comunicar, fator essencial na vida profética. Deus não aceita esse argumento.


O profeta, ao longo de sua caminhada, percebe que Deus o havia predestinado para essa missão (Is 44,2.24; Jr 1,4).


Nas narrativas da vocação dos profetas, os elementos essenciais se repetem. Podemos, assim, falar de um gênero literário de narrativa de vocação.


A vocação das mulheres profetisas não é descrita na Bíblia. Elas não recebem a mesma consideração dada aos profetas. No caso da esposa de Isaías, certamente ganha o nome de profetisa por ser a esposa do profeta.


Jesus é a síntese da vocação profética do Primeiro Testamento, na perspectiva cristã.

Fonte: Bíblia e Apócrifos

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Caso se interesse por aulas sobre Bíblia e apócrifos, inscreva-se no nosso canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos

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2 comentários Adicione o seu

  1. As mulheres profetizas deixadas de fora…
    há muito a dizer sobre isso.
    Jeremias, é o profeta da sinceridade.
    Gosto dele talvez mais que de qualquer outro. Claro, que Isaías é amado por todos. Jesus, o Deus encarnado é bem mais do que Profeta, como diz o próprio texto.
    Mas Jeremias…nossa!
    Queria um livro só sobre ele.

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    1. O Caminheiro do Reino disse:

      Em texto anterior, Frei Jacir fala sobre as Profetisas. Não ficaram esquecidas as mulheres. Pelo menos, não na produção Bíblica-teológica de Frei Jacir.

      Podemos ver a importância das mulheres no profetismo no texto “Profeta e Profetisas na Bíblia”: https://ocaminheirodoreino.com/2021/05/26/profeta-e-profetisas-na-biblia/

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