Profeta e profetisas na Bíblia


Por Frei Jacir de Freitas Faria, ofm



Compreender a teologia profética na Bíblia, feita por homens e mulheres, a partir de Deus na vida de judeus e cristãos de ontem e de hoje, implica discernir o significado do substantivo profeta, nas suas várias conotações.


Em nossos dias, o termo profeta ou profetisa define alguém que denuncia as injustiças sociais e anuncia mudanças, alimentando, assim, o sonho de outro mundo possível. Muitos de nossos profetas e profetisas já tiveram suas vidas por aqueles que não suportam o incômodo da denúncia de seus atos contra a vida. Será que em Israel, quando alguém queria falar de um profeta, usava no seu vocabulário apenas respectivo termo? E o profeta exercia unicamente a função própria que lhe cabia? Não. Ele era conhecido como profeta, vidente, visionário e homem de Deus. Cada termo designa a função exercida por um profeta ou profetisa em Israel. Além desses termos, a Bíblia também faz uso de ‘servo de Deus’, ‘mensageiro de Deus’, ‘sentinela’, ‘guarda’, ‘pastor’ etc.


Na origem, profeta é um termo grego (profetes) que aparece na mitologia para referir-se ao personagem que interpreta as palavras confusas da sacerdotisa Pitia, a qual teria recebido a mensagem de Apolo, dada por Zeus. O profeta era, pois, um intérprete da divindade. Normalmente, ele é entendido como o anunciador do futuro, porque as palavras da divindade, quase sempre, diziam o que estava por vir.


O conceito profeta influenciou na caracterização desse personagem bíblico e seus sinônimos, que são:

O profeta vidente
“Antigamente, em Israel, quando alguém, ao consultar a Deus, dizia: ‘Vamos ao vidente’, porque, em vez de ‘profeta’, como hoje se diz, dizia-se vidente” (1Sm 9,9). Essas palavras aludem a Samuel, quando se encontra com Saul. O vidente Samuel é o exemplo típico de vidente. Ele conhece o que está oculto e pode revelá-lo mediante presentes.


O termo vidente, em hebraico ro’eh, aparece no Primeiro Testamento (PT) 11 vezes: 1Sm 9, 9.11.18.19; 2Sm 15,27; 1Cr 9,22; 26,28; 29; 2Cr 16,7.10; Is 30,10. O vidente atua nos centros urbanos. Acredita-se que alguns videntes poderiam exercer a função de sacerdotes, pois sacrificavam animais e profetizavam através das vísceras deles. O vidente observa as vísceras dos animais para poder adivinhar e profetizar. O sacerdote Sadoc foi chamado de vidente (2Sm 15,27).

O profeta visionário
Gad, o profeta da corte de Davi, recebe uma comunicação de Deus e é chamado de o visionário de Davi (2Sm 24,11). Três outras vezes, a expressão visionário de Davi é aplicada a Gad (1Cr 21,9; 29,29; 2Cr 29,25). Além dele, Amós é também denominado visionário pelo sacerdote Amasias: “Visionário, vai, foge para a terra de Judá; come lá o teu pão e profetiza lá (Am 7,12). Visionário, em hebraico se diz hozeh, pode ser contabilizado 16 vezes no Primeiro Testamento.


A função do profeta-visionário era ter visão ou contemplar. Como vimos em relação a Gad, alguns visionários serviam ao rei com suas visões e palavras, por isso eram conhecidos como “visionário do rei”, o que, por outro lado, não deve levar-nos a afirmar que eles tivessem participação na corte. A visão e contemplação faziam parte da atividade de profetas como Isaías, Amós, Miqueias, Naum, Abdias e Habacuc.


Alguns visionários foram chamados de falsos profetas, pelo fato de suas “visões” serem movidas por interesses (Mq 3,5-7). Por outro lado, os visionários, por causa de suas denuncias corajosas, eram considerados referências importantes para o povo poder manter-se no caminho de Deus. Eles agiram contra o ímpio Rei Manassés (2Cr 33,18).


Os profetas visionários conclamavam o povo a converter-se da má conduta e a observar os seus mandamentos e estatutos, conforme toda a Lei prescrita aos pais (2Rs 17, 13).

O profeta homem de Deus
“Agora reconheço que és um homem de Deus e que se cumpre a Palavra do Senhor, que tu pronuncias” (1Rs 17,24). Essas palavras são da viúva de Serepta, dirigidas a Elias, quando este ressuscitou o seu filho. Também Eliseu, Samuel, Semeias, Ben-Joanã, assim como Moisés e Davi, são chamados de Homem de Deus. O termo aparece nada menos que 76 vezes no Primeiro Testamento, sobretudo no período do século IX.

Homem de Deus é um profeta detentor de relação íntima com Deus, o que lhe confere a capacidade de operar milagres, assim como Elias e Eliseu. Então, o homem de Deus é capaz de intermediar entre Deus e o ser humano.

Movidos pela Palavra do Senhor, eles atuavam, sobretudo, em situações de pobreza, fome, seca, guerra etc. Eles agiam em favor dos oprimidos, visando à transformação da realidade social. O rei, quando precisava do profeta homem de Deus, devia ir onde o povo estava. O homem de Deus não mais pode ser considerado como profeta visionário, visto que este ficava na corte ao lado do rei. No primeiro caso, estamos pensando em Elias, no segundo, em Gad.

O profeta
Profeta, tradução do hebraico nabî’, é o termo mais usado na Bíblia. São 315 ocorrências que se reportam aos profetas, em especial a partir do final do século VII e durante o VI antes da Era Comum (a.E.C.). Notório é o fato de nabî’ ser usado tanto para os falsos profetas do Senhor, como para os verdadeiros profetas Isaías, Amós, Miqueias e outros.


O profeta é o intérprete, aquele que comunica a Palavra, seja de Deus, seja de Baal. Ele é uma pessoa escolhida por Deus para transmitir a sua mensagem de denúncia, solução e esperança. Em outras palavras, o profeta é o porta-voz da aliança.


A atuação profética investe contra os opressores do povo de Deus. Quando um povo atacava, invadindo Israel, o profeta denunciava o opressor e o povo de Israel, que permitia a opressão por causa de seus próprios erros.


O profeta, encarando a crise social, política e econômica de seu povo, torna-se também um homem da crise. Eis alguns exemplos. Jeremias diz: “Meu coração está quebrado dentro de mim, estremeceram todos os meus ossos. Sou como um bêbedo, como um homem que o vinho dominou por causa do Senhor e por causa de suas santas palavras (Jr 23, 9). E continua: “Porque a terra está cheia de adúlteros”… Já Elias, agindo de forma violenta contra o rei Acab, que o chama de ‘flagelo de Israel’, lhe diz: “Não sou eu o flagelo de Israel, mas és tu e tua família, porque abandonastes o Senhor e seguistes os baals” (1Rs 18, 18). Amós, por sua vez, denuncia a podridão na Samaria, onde o fraco é oprimido e o indigente, esmagado (Am 4,1). Amós denuncia o rei de Israel, Jeroboão. Amasias, sacerdote de Betel, entrega Amós para Jeroboão, e afirma que a terra não pode mais suportar as palavras do profeta Amós (Am 7,10).


Colocando-se contra os poderosos, o profeta faz opção clara pelos que sofrem, os pobres. Zacarias, por exemplo, sonha com “um rei justo e vitorioso, pobre, montado sobre um jumentinho […]. Ele eliminará os cavalos de Efraim e de Jerusalém, e o arco de guerra” (Zc 9,9). Malaquias, como tal, afirma: Deus agirá, no Dia do Senhor, contra “os que oprimem o assalariado, a viúva, o órfão e violam o direito dos estrangeiros” (Ml 3,5). Deus é o Deus dos pobres. Ser profeta é agir como Deus, que tem preferência pelos pobres. Assim, o profeta sabe discernir o que faz parte do projeto de Deus.


O profeta age, na maioria das vezes, isolado. Alguns chegam a ter sua escola ou discípulos. Algumas mulheres faziam parte do movimento dos profetas. No entanto, o seu modo de agir isolado leva-o a uma profunda crise pessoal. É o caso de Jeremias, que sofre por ter defendido o Exílio na Babilônia para o seu povo. Por isso, ele é considerado um traidor da pátria (Jr 39) e acaba exilado no Egito (Jr 41–43).


O profeta torna-se um desinstalado por Deus. Ele é, aparentemente, um frustrado. Sente-se ameaçado constantemente no seu projeto. Na outra ponta da linha, a simples presença do profeta é capaz de gerar uma crise pessoal e institucional. Incomoda pessoas e instituições por dizer o que as pessoas não querem ouvir. O reconhecimento dessas palavras é, quase sempre, muito posterior.


Os profetas de Israel e Judá pregavam a fé monoteísta ao Senhor e contra qualquer tipo de idolatria. Na voz do profeta Isaías, Deus diz: “Eu sou o primeiro e último, fora de mim não há Deus” (Is 44, 6b). E ainda condena os idólatras: “Os que modelam ídolos nada são, as suas obras preciosas não lhes trazem nenhum proveito! Elas são as suas testemunhas, elas que nada veem e nada sabem, para a sua própria vergonha. Quem fabrica um deus e funde um ídolo que de nada lhe pode valer? Certamente, todos os seus devotos ficarão envergonhados, bem como os seus artífices, que não passam de seres humanos” (Is 44, 9-11). Combater a idolatria e a alienação religiosa do povo é marca indelével da ação profética.


O profeta está também presente no templo de Jerusalém, atuando em sintonia com os sacerdotes. Ele é uma pessoa de oração, que reza a vida e seus acontecimentos. É alguém que vive uma profunda experiência pessoal de Deus; é o seu testemunho. O profeta é o guia espiritual do povo.

Profeta maior e menor

Encontramos, na divisão dos profetas do Primeiro Testamento, a distinção entre Profeta Maior e Menor. Essa diferença ocorre não pela importância do profeta, mas pelo tamanho do seu escrito. No século II a.E.C., já era conhecida essa distinção. São três os profetas maiores, a saber: Isaías, Jeremias e Ezequiel. Já os Menores são em número de 12, ou seja: Amós, Oseias, Miqueias, Sofonias, Naum, Habacuc, Ageu, Zacarias, Malaquias, Abdias, Joel e Jonas.


O livro de Baruc, que é colocado entre os livros proféticos da Bíblia Grega (LXX), não é propriamente o livro de um profeta. Baruc era secretário e amigo do profeta Jeremias, que lhe teria ditado palavras proféticas. Nessa mesma linha, o livro das Lamentações é atribuído a Jeremias e, por isso, localiza-se depois do livro de Jeremias. Tal hipótese, no entanto, não é sustentada pelos pesquisadores, pois o teor do livro não coaduna com o pensamento de Jeremias.


O livro de Daniel é outro que suscita polêmica. Na Bíblia hebraica, ele não faz parte dos livros proféticos, mas do bloco do Escritos. Daniel é reconhecido no Segundo Testamento (Mt 24,15) como profeta; mas, nos estudos mais recentes, é considerado apocalíptico. O autor desse livro, assim como o de Jonas, faz uso do nome conhecido para difundir o seu pensamento. Assim, o livro de Daniel se enquadra melhor no gênero sapiencial e apocalíptico. As Bíblias Grega (LXX) e Latina (Vulgata) consideram o livro de Daniel como Profeta Maior.

As mulheres profetisas
A única mulher que poderia ser considerada profetisa na Bíblia, no sentido estrito do termo, é Hulda (2 Rs 22,14), que viveu na época da reforma deuteronomista do rei Josias. Outras mulheres recebem apenas o título de profetisa, como: Miriam, irmã de Moisés e Aarão (Ex 15,20) e Débora (Jz 4,4).


Embora sejam somente três as mulheres chamadas de profetisas na Bíblia sabemos que muitas outras atuaram como tais. Há de se ressaltar, no entanto, que essa denominação tem sua origem nos livros históricos e no Pentateuco, mas não nos proféticos. A valorização maior do homem sobre a mulher, no mundo bíblico, com certeza impediu o surgimento de outras mulheres profetisas. Da mesma forma, impediu que os seus feitos proféticos fossem registrados na Bíblia.


Isaías, em 8,3, ao falar do nascimento do filho de Isaías, refere-se à mulher do profeta como profetisa. “Em seguida me acheguei à profetisa e ela concebeu e deu à luz um filho”. A mulher aqui é considerada profetisa pelo fato de ser esposa e mãe do filho do profeta, e não por ser vista como tal.

Profetismo desde Abraão?
A pergunta parecer ter uma única resposta: o profetismo começa em Israel somente no período da Monarquia, com Davi. Gad e Natan são os primeiros profetas. No entanto, Abraão é chamado de profeta em Gn 20,7. Isso ocorre no episódio em que Abraão diz ao rei de Gerara, Abimelec, que Sara é sua irmã. Deus aparece em sonho a Abimelec e lhe sugere devolver Sara a Abraão, chamado por Deus de Profeta.


Moisés é outro considerado profeta. O último livro do Pentateuco, o Deuteronômio, afirma que, depois da sua morte, “em Israel nunca mais surgiu um profeta como Moisés” (Dt 34, 10). Segundo o livro de Oseias, Moisés é o profeta, por meio do qual o Senhor tirou Israel do Egito e o guardou (Os 12,14).


O terceiro homem das origens, Samuel, é chamado de profeta. Profeta vidente (1Cr 29,29), sua ação o caracteriza como grande profeta bíblico. Samuel é ainda conhecido como juiz no final do período tribal. Ela faz a passagem do sistema tribal para o monárquico.


A conclusão da pesquisa atual sobre as origens do profetismo é que a atribuição do título de profetisa a Miriam e Débora e de profeta a Abraão, Moisés e Samuel foi um acréscimo posterior das correntes teológicas, quando da redação da Bíblia, o que significa que isto ocorreu muito tempo depois da atuação deles.


Considerando os profetas clássicos e os que receberam esse nome – uma lista que ultrapassa a casa dos trinta –, podemos dividir o profetismo bíblico em várias fases: origens (de Abraão a Josué); profetas do palácio (De Gad a Aías de Silo); profetas populares (Elias a Eliseu); profetas clássicos (Amós a Jeremias); profetas da esperança (Abdias a Joel); profetas do Segundo Testamento (João Batista e Jesus).

FREI JACIR DE FREITAS FARIA, OFM

Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Caso se interesse por aulas sobre Bíblia e apócrifos, inscreva-se no nosso canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos

Fonte: Bíblia e Apócrifos

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2 comentários Adicione o seu

  1. Maria Daluz morais Alves disse:

    Parabéns Frei Jacir,aprendo muito com seus ensinamentos, ouço e leia com muita atenção, que Deus abençoe 🙏

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  2. Frei Caio disse:

    Ótimo texto para refletir sobre a profecia no nosso tempo. Parabéns Frei Jacir!

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