Entendendo o Livro do Apocalipse

Por Hermes de Abreu Fernandes

Por muitas vezes, somos conduzidos a uma leitura do Livro do Apocalipse sob um prisma escatológico. Escatologia é o estudo dos acontecimentos do fim dos tempos descritos na Bíblia. A palavra escatologia significa “estudo das últimas coisas”. É um tema que surge em muitos livros da Bíblia e a escatologia procura organizar e interpretar essa informação. Há, também, aqueles que pensam ser as imagens do Apocalipse reais e não simbólicas. Uma leitura revestida de literalidade, sem a hermenêutica e exegese necessárias. Só é possível ler o Apocalipse sob estas abordagens? É uma profecia sobre o fim de todas as coisas? As imagens presentes neste livro devem ser vistas tais quais são apresentadas? Ou se pode entender que algumas das questões suscitadas no texto são, sob o método da analogia, referentes à realidade das Igrejas da época, as comunidades primitivas?

É de comum acordo de vários teólogos, que o Apocalipse não se refere estritamente ao fim do mundo. Não é uma profecia meramente relacionada à parusia. Claro que podemos abrir o horizonte da revelação e também entender este livro por uma abordagem escatológica! Entretanto, não podemos encerrar esta intepretação, abordagem, como a única. Há várias chaves de leitura possíveis ao Apocalipse. Entre estas, a de que o Apocalipse se refere à realidade da Igreja nascente, seus desafios, suas lutas. Anuncia os conflitos que haviam de acontecer e a esperança de vitória sobre as perseguições (cf. BERTOLONI: 1994, p. 28).

A palavra Apocalipse quer significar revelação. É o sentido do livro. Pelo menos, sua primeira intenção. A autoria, a princípio, foi atribuída ao evangelista e apóstolo João, que fala das perseguições às Igrejas, por visões que lhe foram reveladas, transmitindo uma palavra de esperança às sete comunidades da Ásia Menor (cf. LELOUP: 2019, p. 24). Sobre a autoria, há uma série de conjecturas que questionam se o João do Apocalipse e o João Apóstolo são a mesma pessoa. Hoje, costuma-se atribuir este livro ao corpo joanino, mas são poucos os que atribuem – revestidos de certeza – a autoria do Apocalipse ao Apóstolo de nome João. Poderia ser resultado de uma mesma pedagogia de Evangelização. Ter o João do Apocalipse pertencido às comunidades herdeiras da missão apostólica do Evangelista homônimo: o discípulo que Jesus amava (cf. Jo 20,21).

As referidas comunidades, às quais se destinam a mensagem do Livro do Apocalipse, viviam – como já anunciado acima – alguma espécie de perseguição. Podemos localizar João em uma ilha. Possivelmente aprisionado, como ele mesmo se apresenta, por causa do nome de Jesus (cf. At 1,1.4.9; 22,8). Com seu escrito, tenta animar estas comunidades, incitando à esperança que deveriam cultivar e animar entre si e à resistência face à perseguição. João se dirige a estas comunidades da Ásia Menor, pois se sente interiormente ligado por partilhar de seus sofrimentos e pela missão profética que lhe foi conferida. Entende-se aqui profética no sentido de incitar a esperança na vitória futura da Igreja e do Evangelho contra as forças do império opressor (cf. Mt 16,18b).

Perseguição da Igreja de Jesus, esperança e resistência. Esta deve ser a prioritária chave de leitura a ser usada para se entender o Livro do Apocalipse.

Falando em esperança em tempos de opressão, podemos nos perguntar: esperança em que? Na vitória de Jesus, que está presente e vivo nas comunidades. É a certeza de que os poderes do mal e da injustiça não prevalecerão sobre a Igreja. Resistência a que? A todas as propostas que fragilizem a fé no Ressuscitado, a quem Deus confiou a Revelação sobre o sentido da história. No contexto em que viviam João e as primeiras comunidades, o império Romano trazia a propaganda de uma espécie de deificação da figura imperial. Os povos submetidos ao império eram obrigados a reconhecer o imperador como um deus. Para João era impossível conciliar fidelidade a Jesus e lealdade ao império. A mensagem de João é radical: aderir à religião do imperador implica a aceitar o sistema econômico e político perverso, que transforma pessoas em mercadoria, como podemos ler no capítulo 18. Trata-se do mesmo sistema que crucificou Jesus. Neste sentido, cabe aqui o imperativo de Jesus que afirma ser impossível servir a dois senhores (cf. Mt 6,24).

A mensagem comunicada através de João para animar as comunidades na esperança e resistência, traz várias riquezas em sua teologia. Apresenta-lhes a visão do céu e do trono de Deus, com a liturgia que aí se celebra ao Juiz três vezes Justo e Santo. Ao mesmo tempo, expõe critérios para compartilhar deste Reino, através de imagens, figuras e sinais. A maioria já conhecida dos livros da Escritura Judaica. Isto se dá para que as comunidades possam captar a dinâmica da história (cf. MIRANDA: 2011, p 125). Convencer-se que esta dinâmica está na mão de Deus e de seu Messias e de que o domínio perverso e arrogante do império não vai prevalecer e, neste sentido, não pode iludir a ninguém. A oposição radical do Apocalipse ao Império Romano é uma chave de leitura importante, para guiar as comunidades cristãs de todos os tempos. Estas que são desafiadas pelas seduções e armadilhas dos impérios, de ontem e hoje, que teimam em se reproduzir na história.

Em nossos tempos, a mensagem do Apocalipse se faz atual. Vivemos momentos de estrita semelhança. As perseguições sofridas pelas comunidades cristãs do primeiro século, fazem-se próximas às dinâmicas opressivas em que vivemos. Não são poucos os líderes, por vezes opressores, que se querem comparar a Deus. A arrogância do Império Romano pode ser identificada em muitos de nossos líderes na atualidade. Fica-nos, a partir da teologia e espiritualidade joaninas, o sinalizar de uma esperança. Aos opressores, arrogantes dos poderes terrenos, importa anunciar Aquele que, pela humildade da Cruz, fez-se Rei de um Reino Definitivo. A este Rei deve se dirigir toda honra, gloria e louvor (cf. Rm 11,36). Os reinos deste mundo nada se comparam ao Reino de Deus. Sobre este Reino se ocupa a profecia do Apocalipse. O fim da opressão, da perseguição e ilusões da arrogância humana. É nesta esperança que se fortalece a fé das Igrejas. Trazendo para sua história, as realidades do Evangelho. Por Cristo, com Cristo e em Cristo, em advento da Vida Plena (cf. Ap 5,9; 13,12). Maranatha!

Bibliografia Consultada

  • BERTOLONI, José. Como ler o Apocalipse: Resistir e denunciar, 13ª Ed. São Paulo: Paulus, 1994.
  • LELOUP, Jean-Yves (tradutor e comentários). Apocalipse de João. Petrópolis: Vozes, 2019.
  • MACHENZIE, John L. Dicionário Bíblico, 10ª Ed. São Paulo: Paulus, 2020.
  • MIRANDA, Valtair Afonso. O caminho do cordeiro: Representação e construção de identidade no Apocalipse de João. São Paulo: Paulus, 2011.
  • RATZINGER, Joseph. Escatologia: Morte e Vida Eterna. São Paulo: Paulus, 2019.
  • SHNEIDER, Theodor (org). Manual de dogmática, Vol. II, 2ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
  • SUSIN, Luiz Carlos. Tempo e Eternidade. Petrópolis: Vozes, 2018.

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