Deve haver pobres? – Refletindo a questão a partir da Bíblia

Por Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

Os Evangelhos de Marcos (14,3-9), de Mateus (26,6-13) e de João (12,1-8) falam de uma mulher que ungiu os pés de Jesus com um perfume caríssimo. Respondendo à crítica dos discípulos ou de Judas, que afirmava que o valor daquele perfume poderia ser dado aos pobres, Jesus disse: “Pobres sempre tereis convosco!” Daí, muita gente acha que o cristão não deve se preocupar com situação de pobreza e miséria no mundo. É isso mesmo?

Mais. As palavras de Jesus são tomadas do livro do Deuteronômio, capítulo 15, versículo 11: “Nunca deixará de haver pobres na Terra”. O versículo 4 do mesmo capítulo, porém, diz: “É verdade que em teu meio não haverá nenhum pobre”. O versículo 7 diz: “Quando houver um pobre no teu meio, seja um só dos teus irmãos”. Como ficamos: É para haver pobres? Muitos? Poucos? Ou não deve haver? Para onde apontam essas setas?

 As metas

A palavra de Jesus nos Evangelhos significa apenas que depois de sua morte os pobres continuariam no mundo, só ele iria morrer. Marcos deixa claro: Vocês estão querendo ajudar os pobres? Podem ajudar, eles continuam aí! E João desmascara Judas: Ele se interessava pelos pobres, coisa nenhuma! Queria era pôr a mão naquele dinheiro…

Além disso, podemos ver nas palavras de Jesus nos Evangelhos, que ele está presente no pobre. Aquela foi a vez da mulher de prestar serviço ao Jesus histórico, depois virá a vez de todos, discípulos ou não, prestarem serviço a Jesus presente nos pobres (Mt 25,31-46).

A palavra que os Evangelhos colocam nos lábios de Jesus foi tomada do livro do Deuteronômio. Ali a coisa parece meio confusa: primeiro não haverá pobres, depois pode ser que haja um ou outro, por fim sempre haverá pobres. Qual seria a meta, a intenção, do Deuteronômio?

É simples. Basta ler os outros versículos do trecho, o seu contexto. Está falando do ano do jubileu ou do ano sabático. Fala do perdão das dívidas, proíbe a agiotagem contra os compatriotas e afirma que no povo de Deus não deve haver pobres (Dt 15,3). Só há uma condição: “que você de fato obedeça à voz de Javé teu Deus, cuidando de pôr em prática todos os mandamentos”. Observe aqui a meta, o objetivo dos mandamentos. Os mandamentos não visam a regular o comportamento individual das pessoas e, sim, a criar uma sociedade onde não haja pobres! (versículo 5)

Então, numa sociedade organizada de acordo com os mandamentos, nunca será preciso a gente se preocupar com pobres? Não! Algum haverá. Mas tu não lhe deves fechar a mão, nem ter receio de emprestar o que ele necessita, mesmo às vésperas do ano do perdão das dívidas (versículos 7 a 10).

Sendo mais realista ainda em sua meta, pobres sempre haverá. A lei de Deus nunca será posta em prática em toda a sua força e extensão, pobres sempre haverá, porque esperteza, injustiça e opressão sempre vai haver. É bom lembrar que pobre nunca faltará e, por isso, tua mão nunca se há de fechar (versículo11).

Não deve haver pobres, mas pobres sempre haverá, mesmo quando se procura observar a lei de Deus. É a direção para onde aponta o Deuteronômio. Os Evangelhos, porém, lembrando a presença do pobre mesmo depois da morte de Jesus, apontam para Mateus 25, onde o julgamento final da humanidade, “todas as nações da terra”, não vai depender do progresso intelectual, científico ou tecnológico, vai depender do que ela fez com o pobre: “Tudo o que fizestes ao menor… foi a mim que o fizestes!”.

Até aqui chega a meta dos Evangelhos.

Pe. José Luiz Gonzaga do Prado
É da Diocese de Guaxupé-MG, um dos tradutores da Bíblia da CNBB, Professor de Sagrada Escritura.
Fonte: Catequese Hoje

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