Pentecostes: festa das comunidades, Espírito e missão (At 2,1-13)

Por Pe. Shigeyuki Nakanose; Maria Antônia Marques

Numa cidade do interior de Minas Gerais, algumas lideranças, vindas de diversas comunidades, reuniram-se durante dois dias para estudar o evangelho de João. O clima para esse estudo era muito bom. Havia grande desejo de aprofundar e vivenciar a Palavra de Deus. Entre essas pessoas estava João — rapaz que devia ter entre 25 e 30 anos, um deficiente mental. Ele esteve presente o tempo todo. Às vezes batia palmas fora de hora, ria e falava alto, fazia seus comentários — nem sempre compreensíveis — e nos momentos de trabalho em equipe ele passava em todos os grupos. João incomodava, mas era acolhido e respeitado como pessoa, de forma que a presença dele ajudava a comunidade a colocar em prática o que estava estudando. E nos intervalos sempre havia alguém conversando ou brincando com ele.

O que chamou a nossa atenção foi o gesto de acolhida. Uma acolhida incondicional. Em momento algum ele foi rejeitado pela comunidade. Essa atitude nos questionou, pois em geral temos certo padrão de comportamento e quem não se encaixa nele é discriminado. Por exemplo, é muito comum em nossas comunidades, nos momentos de celebração, entrar um bêbado ou mendigo e quase sempre essa presença nos incomoda, gera mal-estar e constrangimento, sentimos até certo alívio quando o “intruso” é retirado.

No entanto, esse grupo de líderes agiu na contramão das normas sociais preestabelecidas. O que o levou a ter esse comportamento? Os(as) participantes conheciam João, o seu dia a dia e a sua história de vida. Ele não era um desconhecido, mas uma pessoa aceita e amada pelo grupo. Nesse caso, a convivência comunitária possibilitou a sua integração no grupo. Esse fato nos fez pensar na vivência das primeiras comunidades cristãs, cujo testemunho está registrado no livro dos Atos dos Apóstolos.

1. Visitando as primeiras comunidades cristãs

O livro dos Atos dos Apóstolos, escrito fora da Palestina, por volta do ano 85 d.C., retrata a vida das primeiras comunidades cristãs entre os anos 30 e 60 d.C. Esse livro era uma espécie de cartilha da comunidade, pensada em vista de problemas concretos do cotidiano. Na comunida­de o que mais afetava o dia a dia era a convivência entre judeus e estrangeiros. Foi difícil para o grupo de judeus cristãos, ainda apegados às tradições judaicas, acolher os estrangeiros, sentar com eles à mesma mesa, ou seja, partilhar o mesmo modo de vida e comungar os mesmos ideais (At 10,28; Lc 14,15-24).

Para um judeu entrar na casa de um não judeu ou sentar-se à mesma mesa era impensável. E, nas comunidades cristãs, todos — mulheres, homens, estrangeiros, senhor e escravos — eram convidados a sentar-se à mesma mesa. Porém na prática do dia a dia ainda havia muitos preconceitos dos judeus cristãos em relação aos estrangeiros (At 11,1-2; 15,1-12).

Além dos conflitos internos, as comunidades cristãs eram acusadas pelas autoridades judaicas de deturpar a Lei de Moisés, pois elas se consideravam o verdadeiro Israel, com a função de interpretar, explicar e aplicar a Lei (At 5, 27­28; 6,8-15). A principal Lei era a do sábado, tinha o objetivo de manter viva a memória da libertação e assegurar o descanso da comunidade, mas com o tempo se cristalizou. O cumprimento dessa Lei foi colocado acima da pessoa. Outra Lei igual­mente importante era a da pureza, que dividia as pessoas e as coisas em puras e impuras.

A doença, a limitação física e a pobreza eram consideradas como castigo de Deus. Pois a teologia oficial — a teologia da retribuição — era regida pelo seguinte princípio: se a pessoa cumprisse a Lei, seria abençoada com terra, descendência e vida longa. Pobreza, esterilidade e morte precoce eram consideradas como castigo para as pessoas que não cumpriam a Lei (cf. Dt 30,15-20).

Após a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém, por volta do ano 70 d.C., os judeus fariseus, que há tempos exerciam suas atividades nas sinagogas, começaram a reorganizar o povo judeu. Aos poucos, esse grupo foi se fortalecendo. A sinagoga passou a ser uma forte instituição para garantir, proteger e controlar a vida do povo. Por isso, os romanos fizeram aliança com os judeus fariseus. As práticas religiosas desse grupo foram reconhecidas pelo império. Assim, eles conquistaram o direito de interpretar e aplicar a Lei, e também passaram a utilizá-la para cobrar tributos do povo judeu.

Na tentativa de preservar a identidade do povo judeu, os grupos de linha farisaica se enrijeceram, começaram exigir a observância rigorosa da Lei, que passou a controlar todas as dimensões da vida humana. Na tradição oral havia 613 mandamentos, sendo 248 positivos: farás; e 365 negativos: não farás; O número 248 corres­ponde aos membros do corpo humano e 365 aos dias do ano[1]. Esses números indicam que a pessoa era totalmente regida pela Lei.

O cumprimento da Lei se tornou um verdadeiro cativeiro (Mt 23,2-4). No interior da sina­goga surgiram alguns grupos, como, por exem­plo, os judeus cristãos, que começaram a relativizar a importância da Lei, pondo em primeiro lugar a vida humana. Aí vieram os conflitos e as repressões. Aqueles que não cumpriam a Lei eram perseguidos, torturados e expulsos da sinagoga (Jo 9,22.34).

O auge do conflito entre judeus fariseus e judeus cristãos aconteceu por volta do ano 85 d.C. Os judeus cristãos foram expulsos da sinagoga. Separados da comunidade judaica, eles ficaram sem proteção, sem trabalho, sem relações sociais e comerciais, afastados de sua tradição religiosa, dos serviços e ritos religiosos. Sem direito de enterrar seus mortos! Isso para um judeu era uma verdadeira maldição. Sem a religião judaica farisaica, permitida pela lei do império, os judeus cristãos deveriam assumir outra religião que fosse reconhecida pelos romanos.

Os judeus cristãos, desde os tempos do imperador Nero (54-68), já eram considerados gente perigosa e inimiga da nação. O principal crime deles era não aceitar o culto ao imperador, a religião imposta por Roma. As autoridades religiosas e do império mantinham sobre os judeus cristãos uma contínua vigilância. O menor deslize de um membro desse grupo seria motivo para denúncia, prisão, tortura e apedrejamento. E, no cotidiano, a população passou a ver os cristãos como pessoas suspeitas, gente perigosa e imoral.

As comunidades cristãs viviam na “corda bamba”. Em nível interno era imprescindível eliminar as divisões e as discriminações entre as pessoas, fortalecer os laços de amizade e reforçar a partilha entre ricos e pobres (1Cor 11,17-34). Em nível externo, estava em jogo a sobrevivência, os judeus cristãos não deviam criar caso com ninguém, muito menos com o império romano. As comunidades cristãs, espelhando-se na prática de Jesus, faziam oposição ao helenismo, um sistema comercial excludente.

Pois bem, nesse contexto dos anos 80 a 90 d.C. é que o livro dos Atos dos Apóstolos foi escrito, com a finalidade de animar as comunidades a se manterem fiéis ao ideal profético-missionário. As comunidades estão fazendo uma revi­são de vida, uma volta às origens. Nessa revisão da história, à luz da conjuntura em que estão vivendo, as comunidades fazem a releitura de sua trajetória. Um dos fatos retomados é a origem da comunidade cristã, colocando esse acontecimen­to na festa de Pentecostes. Mas qual o significado dessa festa para os judeus? E por que colocar o derramamento do Espírito Santo, prometido por Jesus (Lc 24,49), à nova comunidade exatamente na festa de Pentecostes: a festa da Lei?

2. Pentecostes: festa da partilha e da solidariedade!

Entre as principais festas do povo judeu estão as festas da Páscoa e de Pentecostes. A Páscoa era uma festa dos pastores, que acontecia na primavera e tinha como objetivo pedir a bênção da divindade sobre os animais, suas crias e supli­car a proteção na busca de novas pastagens. A festa de Pentecostes originalmente era denominada de festa da colheita (Ex 23,16), ou ainda festa das semanas (Ex 34,22; Dt 16,9; Nm 28,26). Uma festa agrícola, celebrada sete semanas após o início da colheita. Nesta festa, as pessoas reconheciam Javé como fonte da chuva e da fertilidade da agricultura e lhe ofereciam os primeiros frutos da terra.

Era um momento de muita alegria, precedido por vários mutirões. Os agricultores e agricultoras juntavam suas forças para fazer a colheita da produção de cada família. A colheita era colocada nas eiras, perto das vilas e das roças. As eiras eram um tipo de terreiro batido, como existem em nossas roças ou sítios, para secar café, trigo, soja, arroz ou feijão. Esse ajuntamento dos vários agricultores e agricultoras era marcado pela solidariedade, semelhante aos mutirões que ainda hoje existem em muitas regiões do Brasil.

Com o tempo as festas judaicas foram associadas a acontecimentos marcantes da história de Israel. A festa da Páscoa passou a lembrar a saída da escravidão do Egito (Dt 16,1-8). A festa da colheita se tornou a festa da renovação da aliança de Deus com o povo (Dt 16,9-12). No tempo tribal essas festas eram celebradas nas casas. Mais tarde passaram a ser celebradas no Templo. Elas foram transformadas em festas de Peregrinação. Todo o povo tinha a obrigação de ir ao Templo para levar ofertas e cumprir os rituais de sacrifício: “Guardarás a festa das Semanas: as primícias da colheita do trigo e a festa da colheita na passagem do ano. Três vezes por ano todo o homem do teu meio aparecerá perante o Senhor Javé, Deus de Israel. Porque expulsarei as nações de diante de ti, e alargarei o teu território ninguém cobiçará a tua terra, quando subires para comparecer na presença de Javé teu Deus, três vezes por ano” (Ex 34,22-24).

Os peregrinos, de todas as regiões, iam em grupos a Jerusalém, acompanhados por sacerdotes. Em Jerusalém eles entravam no Templo, carregados com suas oferendas, cantando hinos, ofereciam seus produtos e davam graças a Deus, dono da terra e fonte de seus produtos, rezando: “’O Senhor nos fez sair do Egito com sua mão forte e seu braço estendido, por meio de grande terror, sinais e prodígios; e nos fez chegar a este lugar, deu-nos esta terra, terra que mana leite e mel. E agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que me deste, Senhor!’ Tu os depositarás diante do Senhor teu Deus, e te prosternarás na presença do Senhor teu Deus” (Dt 26,3-10).

No período helenístico, a partir do século III a.C., a festa da colheita recebeu o nome de Pentecostes — cinquenta dias após a Páscoa. Ao mesmo tempo começou a perder a relação com a agricultura. A associação com a história da salva­ção de Israel foi acentuada. Por exemplo, o livro dos Jubileus, um escrito deste período, que não entrou na lista oficial dos livros sagrados, continuou se referindo a esta festa como a festa dos “primeiros frutos” (Jubileus 22,1). No entanto, esse livro ainda identifica essa festa com a renova­ção da aliança entre Deus e Noé (Jubileus 6,1-21; Gn 8,20-22; 9,8-17).

A festa de Pentecostes, no século II a.C., em alguns ambientes sacerdotais judaicos, saduceus, recebeu um novo significado, passou a ser a festa que celebrava o recebimento da Lei no Sinai. Após a destruição do Templo, por volta do ano 70 d.C., a corrente farisaica deu um novo sentido para a festa das semanas. Ela foi transformada na festa do dom da Lei[2]. O que era uma celebração familiar passou a ser um ritual vivido no Templo, com a presença intermediária do sacerdote. Só os judeus puros, aqueles que cumpriam todas as exigências da Lei podiam participar.

E quem eram os puros? Em primeiro lugar os judeus, que se consideravam escolhidos e abençoados por Deus. Havia também outras exigências, como guardar o sábado, abster-se de comer alimentos impuros, não se misturar com pessoas impuras: não judeus, pobres, doentes… O simples contato com uma pessoa ou coisa considerada impura era suficiente para se tornar impuro. Para a mulher a situação era ainda mais complicada, pois a menstruação e até mesmo a maternidade a deixavam impura e responsável pela impureza das pessoas e locais onde estava (Lv 12,1-8).

Os estrangeiros não faziam parte do povo eleito por Deus, viviam em situação permanente de impureza. Entre os judeus, os pobres e os doentes também eram considerados impuros, pois, conforme a Lei do puro e impuro, eles eram pecadores, pessoas castigadas por Deus (Ex 20,5; 34,7; Nm 14,18). Havia, porém, um jeito de a pessoa se purificar: ela devia levar ofertas ao Templo. Os sacrifícios para a purificação tinham um preço muito alto, dificultando aos pobres o cumprimento da Lei (Lv 12,8; Lc 2,24).

Muitas pessoas passaram a ser excluídas da festa de Pentecostes. Era a festa dos puros. Porém nas comunidades cristãs começou a surgir uma prática diferente, sem exclusão. Como aconteceu o novo Pentecostes dentro do movimento de Jesus, que começa a anunciar a inclusão de todos no Reino de Deus?

3. Pentecostes: festa de todos e todas

Era o dia de Pentecostes (At 2,1-13). Na cidade de Jerusalém havia muita gente. Naquele tempo, Jerusalém possuía cerca de 60 mil habitantes e chegava a receber mais de 125 mil peregrinos por ocasião das festas judaicas. Na cidade a agita­ção era grande, gente entrando e saindo. As ruas e os mercados estavam lotados. Os peregrinos continuavam chegando, vinham de todas as regiões para celebrar a festa de Pentecostes.

Todo o povo judeu se preparava para a festa da Lei. O grupo dos seguidores e seguidoras de Jesus também aguardava esta celebração: “Tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2,1). Quem estava reunido? Algumas mulheres, entre elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago (Lc 24,10), e Maria, a mãe de Jesus (At 1,14), os discípulos que estavam indo para Emaús (Lc 24,33), o grupo dos Doze e os irmãos de Jesus (At 1,12-14.26), enfim um grupo constituído por cen­to e vinte pessoas (At 1,15). Uma assembleia composta por mulheres e homens. Todos eram galileus, eles eram considerados judeus de segunda categoria (Jo 1,46).

Entre os seguidores e seguidoras de Jesus” não havia pessoas excluídas, todas eram convidados para a festa de Pentecostes. Nessa festa aconteceu algo extraordinário: “De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles” (At 2,2-3).

Vento e fogo são símbolos da manifesta­ção de Deus — esse mesmo fenômeno também aconteceu na aliança de Deus no Sinai (Ex 19,16-­25; Dt 4,10-12). Esse fato era celebrado em Pentecostes como a festa da Lei, que acontecia no Templo. Mas agora acontece algo diferente: o Espírito Santo se manifesta numa casa — e não no Templo — para mulheres e homens da Galileia.

Desde o antigo Israel, a vida estava organizada ao redor da casa; que era a base da sociedade. A casa representava o conjunto de pessoas que dela dependia: esposas, filhos, famílias de diferentes gerações, parentes próximos, escravos e outros trabalhadores contratados (Js 24,15). Era na casa que se estruturavam as relações de poder, as leis, a organização da produção e a vida social (2Sm 7,11-12.16). Nesse ambiente comunitário as mulheres também exerciam funções importantes. A casa garantia a vida e a proteção de todos os seus membros (1Sm 25,17-19).

Com a monarquia, o sistema tribal, centralizado na casa e na aldeia, foi substituído pela corte e pelo Templo, com a exploração por meio de tributos. Essa tendência aumentou com a dominação de outros impérios — Assíria, Babilônia e Pérsia —, especialmente dos gregos. Com eles, implantou-se o helenismo, a organização da sociedade passou a ter o seu centro na cidade, no comércio, visando sempre mais ao lucro. Isso aumentou a concentração de terra nas mãos de poucos. A grande maioria das camponesas e dos camponeses perdeu suas terras e sua liberdade por endividamento (Ecl 5,7-49).

No tempo de Jesus a vida de muitas pessoas se tornou insuportável. Crescia, dia a dia, o número de endividados, empobrecidos e escravizados. Era comum a revolta e o descontentamento de muitos grupos contra a opressão dos romanos. As constantes guerras e a luta pelo poder tinham consequências desastrosas na vida do povo. Como, se isso não bastasse, parte das autoridades judaicas fez aliança com os romanos, o que piorou ainda mais a situação. A Lei judaica passou a ser usada para controlar o povo judeu. As festas eram ocasiões para arrecadar tributos. Era preciso resgatar o sentido original da casa e das festas na vida das comunidades.

Nesse contexto, as primeiras comunidades cristãs fazem um retorno à casa. Um retorno à vida comunitária e solidária (At 2,42-46; 4,32-­35). É um pequeno grupo que no império romano vive a festa de Pentecostes como espaço alternativo de resistência e esperança. Essa festa volta a ser a festa da casa, marcada pela solidariedade. É no espaço da casa que o Espírito de Deus se manifesta. “Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2,4). Mas, o que é o Espírito Santo, que se manifesta várias vezes na vida dos primeiros cristãos e não só para os judeus, mas também para os estrangeiros (At 2,1-13; 4,31; 8,17; 10,44; 19,6), e qual a sua ação no movimento de Jesus?

4. Espírito Santo: força de Deus na vida da gente

A palavra Espírito, em hebraico ruah, aparece muitas vezes no Antigo Testamento. No Gênesis pode ser traduzida por sopro ou vento, que possui a força criadora: “A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e um vento impetuoso soprava sobre as águas” (Gn 1,2; cf. Sl 33,6; Jó 33,4). E o sopro de Javé tanto possui uma força criadora, como também destruidora: “ele matará o ímpio com o sopro de seus lábios” (Is 11,4, cf. Ex 15,8; 2Sm 22,9; Jo 4,9).

Em todas as etapas da história do povo de Deus, o Espírito se fez presente; eis alguns momentos importantes:

— Na criação (Gn 1,2; 2,7);

— Na formação e organização do povo (Jz 3,10; 11,29).

— No período dos juízes e da monarquia, o Espírito era dado aos juízes, libertadores do povo, reis (1Sm 11,6), especialmente o rei messiânico (Is 11,2) e profetas.

— No exílio e no pós-exílio o povo sente a presença do Espírito de Deus dando vida nova, ajudando a refazer as esperanças (Nm 11,17; 2Sm 23,2; Mq 3,8; Zc 7,12; Ez 37,10-14).

— No pós-exílio o Espírito não era só para as pessoas que tinham algum cargo especial, mas derramado sobre todo o povo (Jl 3,1-2; Is 59,2; Zc 12,10).

Veja que interessante: no Antigo Testa­mento, a presença do Espírito de Deus tem a função de criar, animar, organizar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar e recriar. E essas também são as funções do Espírito no Novo Testamento. O Espírito continua vivo e atuante na vida de Jesus e das comunidades.

A missão de Jesus é conduzida pelo Espírito (Mc 1,10; Lc 4,14). Ele, com sua maneira de ser e de agir, cria um novo modo de viver, renova a esperança de vida e possibilita à pessoa a volta à comunidade. Jesus toca a pessoa impura: “Jesus foi aonde ela estava, segurou sua mão e ajudou-a a se levantar” (Mc 1,31). Ele rompe a barreira do isolamento social imposto pela Lei do puro e impuro e estabelece novas relações, fundamentadas na lei do amor e da solidariedade. E isso é capaz de fazer o outro reviver (Mc 2,5).

A ação de Jesus vai além. Ele organiza a comunidade. Na multiplicação dos pães “Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos de cem e de cinquenta pessoas. Depois Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. Todos comeram e ficaram satisfeitos” (Mc 6,39-42). Na festa da vida todos podem participar.

Jesus, em seu ministério, criou novos espaços para a pessoa viver, restituiu a vida pelo perdão e organizou a partilha. Ele recriou a vida na liberdade (Mc 5,8). Esse modo de agir sem dúvida era inspirado pelo Espírito. O que mais tarde levou os cristãos a dizer: “Tão humano assim, só Deus”. Seu programa de vida foi evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor (Lc 4,18).

Os seguidores e seguidoras de Jesus, guiados pelo Espírito, percorreram o caminho trilhado pelo Mestre, manifestando a ação do Espírito Santo: criar, animar, discernir, profetizar, ressuscitar e libertar. As primeiras comunidades cristãs libertam e criam novo espaço para as pessoas: “Pedro pegou a mão direita do homem e o ajudou a se levantar” (At 3,7). Depois de curado, o homem entrou no Templo. Ele voltou a fazer parte da sociedade. Mas, além de criar novos espaços, a comunidade também precisava de uma nova ordem.

As comunidades se organizaram a partir da casa (At 12,12). Numa casa as pessoas estavam unidas por algum laço de parentesco ou por alguma relação de trabalho ou colaboração. Todavia nas casas-comunidades cristãs o laço não era mais pela consanguinidade, mas pela fé em Jesus as pessoas se consideravam irmãs (At 1,15), sentiam-se acolhidas e partilhavam o pão (At 2,42), eram discípulas (At 6, 1), cristãs (At 11,26).

Dessa convivência solidária nasce uma nova experiência do Espírito; Essa experiência possibilita a compreensão da boa nova (At 2,6). É uma energia vital que coloca as pessoas em sintonia com o projeto de Deus e leva a uma abertura para o outro (At 4,23-31). É a partir do chão da vida das comunidades que se manifesta a ação do Espírito Santo, capacitando as pessoas a criar, libertar, profetizar, ressuscitar, anunciar… É uma experiência tão intensa que impulsiona a pessoa para a missão.

5. O Espírito Santo envia em missão

A nova comunidade, movida pelo Espírito Santo, deixa o espaço da casa e vai ao encontro da multidão que se prepara para celebrar a festa de Pentecostes. Quem se reúne para celebrar essa festa? Judeus piedosos que residiam em Jerusalém (2,5). Muitos judeus, criados fora de Jerusalém, no final de suas vidas retornavam para terminar seus últimos dias na cidade santa. E além dos habitantes de Jerusalém, todo homem judeu tinha a obrigação de ir ao Templo de Jerusalém, ao menos três vezes por ano, por ocasião das festas de peregrinação: Páscoa, Pentecostes e festa das Tendas.

Na festa de Pentecostes há gente de todas as nações. O livro dos Atos (2,9-11) cita 12 povos e três regiões. Primeiro apresenta os nativos: partos, medos e elamitas. Em seguida cita os habitantes da Judeia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito e as três regiões: Mesopotâmia, Ásia e Líbia. E num terceiro grupo enumera os estrangeiros: romanos, cretenses e árabes. Isso deixa bem claro que o projeto de Deus é para todos(as), não tem fronteira. Todos e todas são convocados(as) para ouvir e viver as maravilhas de Deus.

Para essa multidão, os seguidores e seguidoras de Jesus anunciam a boa nova: “E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimissem” (At 2,4). Essa linguagem é frequente na Bíblia, em geral é usada para falar da manifestação de Deus (Nm 11,25; 1Sm 10,10-13; At 10,46; 1Cor 12,4-11). Mas o autor dos Atos dos Apóstolos insiste em mostrar que o verdadeiro milagre está no ouvir: “Com o ruído que se produziu a multidão acorreu e ficou perplexa, pois cada qual os ouvia falar em seu próprio idioma. Estupefatos e surpresos diziam: ‘Não são, acaso, galileus todos estes que estão falando? Como é, pois, que os ouvimos falar, cada um de nós, no próprio idioma em que nascemos?’ (At 2,6-8). E um pouco mais adiante, no versículo 11, encontramos a seguinte afirmação: “tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes, nós os ouvimos apregoarem em nossas línguas as maravilhas de Deus”.

O anúncio da boa nova chega às pessoas dentro de sua situação de vida. Todos e todas têm a chance de ouvir a boa nova a partir de sua própria realidade. Cada povo escuta o Evangelho em sua própria língua e em sua cultura. A dominação cultural não faz parte do projeto de Deus. O anúncio de boa nova deve ser vivido dentro da cultura de cada povo.

Essa mensagem nos faz lembrar da Torre de Babel (Gn 11,1-9), um mito muito conhecido pelos primeiros cristãos e também por nós. A construção da Torre de Babel foi impedida porque Javé confundiu as línguas dos trabalhadores. Nessa história o que estava em jogo era a construção de um grande império e para isso era necessário unificar a língua, os costumes e a religião. A diversidade da língua é um sinal de resistência dos vários grupos populares ao projeto dos dominadores. Na história de Pentecostes como na de Babel o povo mantém a sua identidade, língua e cultura. É a verdadeira festa da vida! A Palavra de Deus faz caminho nas comunidades e se torna vida na vida das pessoas.

6. Casa, espírito e missão

Em Pentecostes (At 2,1-13) é possível destacar três aspectos fundamentais: as pequenas comunidades que foram se formando nas casas, uma vivência nova onde se manifesta a ação do Espírito que envia em missão. Na casa as pessoas vivem novas relações, baseadas no amor, no respeito e no acolhimento de cada um dos membros. Essa experiência nova leva a pessoa a anunciar a mensagem de Jesus para todos. Assim, o movimento de Jesus se torna essencialmente missionário e profético sob a luz e a orientação do Espírito Santo.

A proposta da festa de Pentecostes é uma volta à vida partilhada, ao acolhimento e à solidariedade para com todas as pessoas. É um apelo que nos inquieta, pois vivemos num mundo onde se espalha a cultura da morte e da indiferença social: “crianças submetidas a violência, humilhadas e abandonadas, mulheres estupradas e exploradas, jovens, adultos e idosos marginalizados, correntes intermináveis de exilados e refugiados, violência e conflito em tantas partes do mundo”[3].

No Brasil convivemos com essa realidade. A corrupção se instalou em todos os setores sociais. A violência, o medo e a insegurança fazem parte do nosso dia a dia. Só no Estado de São Paulo, entre os dias 23 e 25 de dezembro de 2000, 104 pessoas foram assassinadas[4]. O desemprego é uma realidade que exclui milhares de pessoas do mercado de trabalho. Muitos vivem uma existência miserável, sem as mínimas condições de uma vida digna. A nossa sociedade continua oprimindo e excluindo as mulheres de sua total cidadania. A lista dos males que ronda o nosso cotidiano é imensa. Nesse contexto, como ser fiel à proposta de vida plena para todos e todas? Eis um grande desafio que nos é lançado.

Só será possível colocar em prática a proposta de Jesus se unirmos as nossas forças em defesa da vida ameaçada. Para atualizar a vivência das primeiras comunidades cristãs é importante considerar as dimensões da casa, do Espírito e da missão. Muitas comunidades já vivem esta realidade. Nessa vivência sentem a manifestação do Espírito de Deus. É isso que continua alimentando as nossas comunidades para caminharem firmes e concretizar, nos pequenos gestos e atitudes do cotidiano, o novo Reino. A presença do irmão, da irmã nos ajuda a viver melhor. O fardo fica mais leve.

A partir do acolhimento e da solidariedade, da vida bem vivida em comunidade, sentimos a presença do Espírito Santo. Essa convivência dá novo vigor para a missão e nos leva a cumprir o mandato de Jesus: “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8).

Ser testemunha significa criar, animar, discernir, profetizar, ressuscitar, libertar e recriar — em casa, na comunidade, no mundo inteiro. E esse testemunho acontece no acolhimento aos pequeninos, na entreajuda, na colaboração mútua e nas relações de reciprocidade entre mulheres e homens. Nas comunidades cristãs não pode haver exclusão. É importante criar espaço em nossas comunidades para que todos e todas se sintam amados e aceitos no seu modo de ser. Valorizar os momentos comunitários, por exemplo, as festas da comunidade, como ocasiões para aprofundar e sedimentar os vínculos existentes entre as pessoas.

A comunidade, que visitamos no interior de Minas Gerais, na sua simplicidade e espontaneidade acolhe João, como ele é, aceita-o como seu irmão. É um pequeno fato, um gesto muito simples, como a festa de Pentecostes, celebrada nos pequenos grupos de seguidores e seguidoras de Jesus, conforme Atos dos Apóstolos, mas que deve ser valorizado. É como a semente de mostarda, que é minúscula, mas capaz de produzir muitos frutos. Esse é o testemunho de muitas comunidades que se esforçam em viver, impulsionadas pelo Espírito de Deus, a prática de Jesus. Essa é a meta para todas as comunidades no novo milênio.


[1] AVRIL, Anne Catherine, As festas judaicas, São Paulo, Paulus, 1997, p. 54.

[2] DUNN, J. D. G., “Festa de Pentecostes”, In Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento (editado por Lothar Coenen e Colin Brown. Tradução de Gordon Chown), São Paulo, Vida Nova, 2000, p. 1.639. Ver também: CENTRO BÍBLICO VERBO, No caminho das comunidades… Atos dos Apóstolos: roteiros e subsídios para encontros, São Paulo, Paulus, 2000; RICHARD, Pablo, O movimento de Jesus depois da ressurreição: uma interpretação libertadora dos Atos dos Apóstolos, São Paulo, Paulinas, 1999.

[3] Pronunciamento de João Paulo II em sua mensagem do dia 25 de dezembro de 2000.

[4] Folha de S. Paulo, São Paulo, 26-12-00, Caderno Cotidiano, p. 6,5c.

Pe. Shigeyuki Nakanose; Maria Antônia Marques

Fonte: Vida Pastoral

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