“Os irmãos de Jesus”: Maria teve outros filhos e, por conseguinte, Jesus teve irmãos? – Uma Catequese na tentativa de elucidar esta dúvida

Por Hermes de Abreu Fernandes

Quando tendemos à leitura da Bíblia sem considerar o estudo paralelo dos conhecimentos antropológicos, históricos, psicológicos e linguísticos; podemos cair na armadilha da leitura literal da mesma. Algo impossível de se conceber dados os muitos anos de sua escrita. A Bíblia não é somente um livro. É uma biblioteca de livros. Estes, distam cronologicamente uns dos outros. Assim como, o contexto histórico muda, dada a realidade em que foram escritos. Não podemos esquecer que, também, diferem em seu estilo de escrita. Seu gênero literário. É neste sentido que se faz impossível a compreensão dos textos bíblicos com uma abordagem literal. Para melhor absorver a mensagem divina presente na Bíblia, precisamos de exegese e hermenêutica bíblicas.

Entre muitos textos, aqueles que se referem aos irmãos de Jesus, trazem um desafio ao nosso entendimento. Maria: mulher, casada, digna, concebeu outros filhos com José, seu legítimo esposo? Muitos afirmam que sim, baseados no texto bíblico Mt 13,55-56. A quem se refere o texto? Quem são os irmãos de Jesus, e como entender estes “irmãos”? A estas perguntas se dedica a presente catequese.

Textos que se referem aos irmãos de Jesus

Temos sete textos no Segundo Testamento que mencionam os irmãos de Jesus, sendo eles: Mc 6,3; Mc 3,31-35; Jo 2,12; Jo 7,2-10; At 1,14; Gl 1,19; 1Cor 9,5. Enumeram como irmãos de Jesus – conforme Mc 6,3 – Simão, Tiago, José e Judas. Quem eram estes, segundo os Evangelhos? Podemos entender “irmãos” como filhos dos mesmos genitores? vejamos:

  • Lc 2,41-52: Jesus, aos 12 anos de idade, foi com José e Maria a Jerusalém. Permaneceram lá pelos sete dias da festa de Páscoa (Lc 2,43). Contando com os dias de viagem (ida e volta), a Família de Nazaré deve ter permanecido 15 dias fora de casa. Ora, Maria não poderia ter deixado em casa, por tanto tempo, filhos pequenos. A partir daí, podemos concluir, com alguma certeza, que aos 12 anos, Jesus era filho único. Essa conclusão é confirmada pelo texto seguinte:
  • Jo 19,26s: Jesus, ao morrer, confiou sua mãe a João, filho de Zebedeu, membro de outra família. Esse gesto de Jesus seria incompreensível se Maria tivesse outros filhos em casa. O texto se sustenta por ser Maria viúva e não ter outros filhos a lhe amparar na velhice.
  • No Segundo Testamento nunca se fala de filhos de Maria e José. Jesus é dito “filho de José como se supunha”, em Lc 3,23. Em Mc 6,3, é dito “o filho de Maria”, com o artigo “o”. O Evangelho nunca diz “a Mãe de Jesus e seus filhos”, embora isso fosse muito natural se ela, de fato, tivesse outros filhos (cf Mc 3,31-35; At 1,14). Há referências, isto sim, a “Maria e os irmãos de Jesus”, palavra pouco compreensível se estes fossem irmãos biológicos de Jesus. Como se pode referir aos irmãos de Jesus, sem considerar que estes seriam, consequentemente, filhos de Maria? Vamos pensar um pouco sobre isso.

Por que “Irmãos de Jesus”?

O aramaico, língua falada pelos judeus no tempo de Jesus e que os evangelistas nos fazem supor; era pobre de vocábulos. A palavra aramaica e hebraica “irmão” podia significar não somente os filhos advindos dos mesmos genitores, mas primos, ou até, parentes mais distantes. Falamos de uma tradição proveniente dos hebreus. Povo que, por muitos séculos, se organizara por clãs. Entendiam que uma família era a referência máxima existencial de uma pessoa. Por isso, referir-se aos membros de um clã como irmãos é algo apropriado dada à abordagem antropológica.

No Primeiro Testamento, vinte passagens bíblicas podem atestar esse significado de irmão como parente (familiar) próximo. Podemos destacar como exemplo:

  • Gn 13,8: Abraão disse a seu sobrinho Ló: “Não deve haver conflitos entre nós, ou entre nossos pastores, porque somos irmãos”. Em Gn 14,14-16; o texto também se refere a Ló como irmão, sendo este, sobrinho.
  • Gn 29,12-15: Labão declara-se irmão de Jacó, quando – na verdade – Jacó era filho de Rebeca, irmã de Labão, sendo assim, Jacó seu sobrinho.
  • Gn 31,23: Relata que Labão, com seus irmãos – isto é – seus parentes mais próximos, foram ao encalço de Jacó.
  • 1Cr 23,21-23: “Os filhos de Merari: Mooli e Musi. Filhos de Mooli: Eleazar e Cis. Eleazar não deixou filhos, mas só filhas, que se casaram com seus irmãos (primos), os filhos de Cis.
  • Podemos ver ainda 1Cr 15,5; 2Cr 36, 10; 2Rs 10,13; Jz 9,3; 1Sm 20,29.

Com base nessa verificação, não teremos dificuldades em entender que os ditos irmãos de Jesus eram, em verdade, primos dele.

Este parentesco se deduz pelos seguintes textos:

  • Em Mt 27,56 se lê que estavam no Calvário com Maria, mãe de Jesus: “Maria Madalena, Maria mãe de Tiago e José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.”
  • Esta Maria, mãe de Tiago e José, não é a esposa de São José, mas de Cléofas, conforme Jo 19,25. Era também a irmã de Maria, mãe de Jesus, como se lê em Jo 19,25: “Estavam aos pés da Cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria (esposa) de Cléofas, e Maria Madalena”.

Cabe aqui lembrar, também, que os nomes de Cléofas e Alfeu designam a mesma pessoa em grego. São formas gregas do mesmo nome aramaico Claphai. Ora, o mais antigo historiador da Igreja, Hegésipo, conta-nos que Cléofas ou Alfeu era irmão de São José. Portanto, a referência à outra Maria como irmã da Mãe de Jesus, em verdade, refere-se à cunhada. Podemos concluir, à luz do texto bíblico e da sabedoria de Hegésipo, que Cléofas e Maria, sua esposa, tiveram como filhos Tiago, José e Simão. Estes, portanto, eram primos de Jesus. Filhos do irmão de José, Cléofas, e sua esposa.

O fato de, no Evangelho, sempre estar juntos à Maria, embora não fossem seus filhos, e sim sobrinhos, explica-se do seguinte modo:

No judaísmo antigo, a mulher não costumava apresentar-se sozinha em público, mas sempre acompanhada por parentes próximos do sexo masculino. Ora, podemos entender que José, esposo de Maria, tenha falecido antes da vida pública de Jesus; quando este saiu de casa para iniciar sua missão. Maria, por conseguinte, passou a ser acompanhada por seus sobrinhos, por parte de seu matrimônio com São José, então, primos de Jesus; chamados pelos evangelistas como seus irmãos. Fácil, não é? Nenhum mistério insondável. Para se bem entender esta dúvida sobre o fato de Jesus ser filho único, advindo da Divina Encarnação, basta estudar um pouco da história, cultura judaica, idiomas hebraico e aramaico. Fim do mistério. Maria não teve outros filhos, além de Jesus.

Há quem também argumente que Maria teve outros filhos, além de Jesus, com base no texto de Lc 2,27. Neste, lemos que “ela deu a luz ao seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou em uma manjedoura pois não havia lugar para eles na hospedaria”. O termo primogênito não significa que Maria tenha tido outros filhos, após Jesus. Em hebraico, hekor (primogênito), podia designar simplesmente “o bem-amado”. Tal semelhança de sentidos se dá pelo fato de que, por muitas vezes, o primogênito é o filho no qual durante certo tempo se concentra todo amor dos pais. Além disso, o primogênito era tido pelos hebreus como detentor de maior benção de Javé, pois devia ser consagrado a Ele desde os primeiros dias de sua vida ( cf Lc 2,22; Ex 13,2; Ex 34,19). A palavra “primogênito” podia mesmo ser sinônimo de “unigênito”, pois – um e outro vocábulo – na mentalidade semita, designam o “bem-amado“. Tenhamos em vista, por exemplo, Zc 12,11: “Quanto àquele que transpassaram, chorá-lo-ão como se chora um primogênito; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito“.

Mesmo fora da terra de Israel, podia chamar-se primogênito o menino que não tivesse irmão nem irmã mais jovem. É o que se atesta em uma inscrição sepulcral judaica datada do ano 5 a.C. e descoberta em Tell-el-Yedouhieh (Egito), no ano de 1922. Lê-se nela que uma jovem mulher chamada Arsinoé morreu “nas dores do parto do seu filho primogênito”. Notemos neste texto o modo de falar que observamos a respeito de Mt 1,25: primogênito vem a ser apenas antes do qual não se houve outro, e não necessariamente aquele após o qual houve outros.

Sobre os que defendem que Maria teve outros filhos com base nos textos gregos

A língua grega tinha um vocábulo próprio – anepsiós – para designar primo. Por conseguinte, se o Evangelho em grego diz que Jesus teve adelphósis (irmãos), este termo há de ser entendido no sentido estrito de filhos do mesmo pai e da mesma mãe.

Respondemos que o linguajar grego do Segundo Testamento supõe a língua semita em que o Evangelho começou a ser pregado; portanto, há de ser interpretado à luz dos termos semitas subjacentes aos vocábulos gregos respectivos. Adelphós traduz ah, e deve ser compreendido no sentido amplo de ah (= “irmão”, “primo”, “membro do mesmo clã”).

Há quem cite Tb 7,2 para dizer que a Bíblia grega usa o vocábulo anepsiós, e não adelphós. Ao que podemos responder: há três recensões do livro grego de Tobias, não concordantes entre si. Além disso, há que se considerar o contexto em que foi escrito Tobias, o qual, é muito diverso do contexto dos Evangelhos. De resto, no próprio livro de Tobias ocorre frequentemente o vocábulo “irmão(s)” no sentido amplo de “parente” ou “amigo”. (Cf Tb 5,9.11.14; 6,7.10.14; 7,9.15; 8,4; 9,1; 10,12). O mesmo ocorre no texto hebraico do Cântico dos Cânticos, onde a noiva é chamada “irmã” (cf Ct 4,9; 5,1).

Maria permaneceu sexualmente intocada após o nascimento de Jesus?

Uma vez que elucidamos o parentesco dos ditos “irmãos de Jesus”, fica ainda a dúvida sobre a condição de intocada, em sua sexualidade, após o nascimento do Menino Deus. Primeiramente, gostaríamos de considerar que não há necessidade alguma de uma condição celibatária para Maria. Ela casou-se com São José. Dentro dos preceitos religiosos judaicos. Também é inegável o amor reinante naquele lar. Que homem assumiria um filho advindo do Mistério da Encarnação, senão por amor? Ah, o amor de São José era infinito! Amor a Javé! Amor a Maria, sua bem amada.

Neste sentido, não precisamos do celibato de Maria e, consequentemente de José, para nosso amor e veneração. Entretanto, não o negamos. No texto de Mt 1,25; lê-se: “E não teve relações com ela, até que ela deu a luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus”. Isto significa que após o nascimento de Jesus, José teve relações com Maria? Não, necessariamente. A expressão “até que” corresponde ao hebraico ad ki. Esta partícula , na Escritura, ocorre para designar o que se deu (ou não se deu) no passado, sem indicação do que iria acontecer no futuro. Tenhamos em vista, por exemplo, Gn 8,7: referindo-se a Noé que “soltou o corvo que ia e vinha, até que as águas secassem”. Isto não significa que, após secarem as águas do dilúvio, o corvo tenha voltado à arca. O fato de não voltar, já significaria que havia terra seca. Não é uma condicional imperativa. Está mais para um forma de se expressar. Podemos ver isso também no Salmo 110/109,1.

No parágrafo anterior, vê-se que há referência ao passado, prescindindo do futuro, como no caso de Mt 1,25. Por conseguinte, poderíamos traduzir esse versículo como se segue: “Sem que ele (José) a tivesse conhecido, isto é, tido relações conjugais, ela (Maria) deu à luz.” Em verdade, lendo nos originais, entendemos que o texto de Mt 1,25 vem mais confirmar a concepção imaculada do que se referir a alguma condição pós parto. Nenhum Evangelho se ocupa do celibato de Maria. Importa a anunciação e concepção virginal. Entretanto, nenhum texto nega sua condição de sexualmente intocada por toda a vida.

Para nossa fé na condição de intocada sexualmente, referente à Virgem Maria, temos como fundamentos o Magistério da Igreja. Entre eles, o Dogma da Imaculada Conceição. Os Dogmas não nos são impostos. São frutos da tradição e esforços hercúleos de nossos Doutores. Há que se crer neles não somente pelo que defendem, mas pela história que os reveste. Como podemos nos esquecer de São Bernardo de Claraval, Beato João Duns Scotus, entre tantos homens e mulheres que se dedicaram a nos iluminar com a Sagrada Teologia? É na teologia, no Magistério da Igreja, que encontramos o termo “aeiparthenos”, isto é, “sempre virgem”. O Catecismo da Igreja Católica, fazendo referência à Constituição Dogmática Lumen Gentium (LG, 57), afirma: “o nascimento de Cristo não diminuiu a dignidade virginal de sua mãe, ao contrário, santificou-a” (CIC, 449).

Neste sentido, o cristão católico acredita e venera não somente a imaculada concepção, mas a condição de Maria sempre virgem. Por nada haver em contrário na Palavra de Deus. Por muito nos ensinar os Santos Padres e Doutores da Igreja.

Concluindo

Não desejamos por esta catequese impor dogmas. Ao contrário. Estes se fazem desnecessários à fé, no que se refere à dignidade da Família de Nazaré. O próprio “sim” de Maria à uma gravidez incomum, perigosa para a cultura da época, reveste à Maria da dignidade de Primeira Cristã. A adesão de José ao projeto de Deus não pode deixar de ser lembrada como de grande importância. A Família de Nazaré fica-nos como a primeira comunidade cristã. Maria e José estiveram comprometidos com o anúncio da Boa Nova, em total consagração. Ser a Mãe do Verbo encarnado e o protetor dela e de seu Filho, fazem deles protagonistas do Reino. Os filhos deste casal são a humanidade inteira.

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