Por que alguns católicos se opõem à Verdade? Sobre discursos de ódio, negacionismo e fundamentalismo religioso dentro da Igreja

“As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la, quando as confronta.” (S. Agostinho)

Por Hermes de Abreu Fernandes

Vivemos em tempos de violência. Parece-nos que esta fascina a muitos. Como explicar o espancamento de um jovem por cinco outros no último dia 09, em Garça – SP? Como explicar que o padrasto de Henry Borel o torture psicologicamente, o sujeite a maus-tratos, o agrida até à morte? Como explicar apologia à violência por parte de políticos? Não vamos esquecer o “vamos metralhar a petralhada”, ou “eu sou a favor da tortura”, “Marielle Franco merecia morrer. Era lésbica e comunista”. É o revés da via comum. A humanidade sempre primou pela paz. Hoje, o que é lugar comum é o ódio. Pessoal, institucional.

Se já não nos bastasse as muitas mazelas que afetam nosso povo, ainda nos adveio o covid-19. Nosso caminho, quer social, quer eclesial; já se fazia tortuoso. Sentíamo-nos confusos. A política que acreditávamos ser o Bem, tornou-se o mal de alguns. Palavras como justiça social, passaram a ser atacadas como discurso comunista. Os projetos do poder público pelo bem estar dos empobrecidos, são – aos poucos – cancelados. Como se a dignidade humana estivesse restrita aos bem nascidos. Uma casta da sociedade que se julga mais humana por seus bens, sua produção econômica. Esta disparidade se revelou mais efusivamente com a pandemia.

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Além da total vulnerabilidade dos pobres face ao vírus, os ricos querem negar a estes o direito de se proteger. Usando da metodologia do negacionismo, os ricos afirmam que não se pode ficar em casa, que o Brasil não pode parar. Fácil dizer que se tem que trabalhar, quando são os operários, os lavradores, os prestadores de serviços, os profissionais do transporte, quem – de fato – se expõem. Os patrões? Tem as tecnologias ao seu serviço. Administram suas máquinas de lucro por home office, por sua infinidade de assessores; no conforto de seus lares e, quando muito, de seus escritórios cheios de segurança claustral. A ideia de que o Brasil não pode parar expõe aos riscos de morte os que dependem de seus salários para a subsistência. Não a eles, os patrões. Exercem sua dignidade patronal usando de seus smartphones brilhantes, arrojados. Daí, voltamos ao exposto acima: esse amor psicótico ao lucro, tendo como custos o risco dos trabalhadores e trabalhadoras, não seria também uma forma de violência?

Para além da produção, ou ausência dela, fala-se muito de que o país vai entrar em falência. O que vale um superávit financeiro aos mortos? Como nos questionou anteriormente Charles Chaplin, somos máquinas ou homens? E a falência? O que de fato significa? Um país que tenha riquezas, mas careça de dignidade humana em seu ideal filosófico pode se considerar rico? Não! É pobre de conceitos. De humanidade.

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Ainda podemos discorrer longamente sobre a saúde. Que lusco fusco é esse do governo? A forma com que se lidou com a vacina, a insistência com medicações ineficientes ao tratamento do Covid, os absurdos discursos do presidente sobre a pandemia, o entra e sai de ministros; enfim: tudo isso é prova clara de que o governo não tem a real intenção de cuidar de seu povo. Claro está que não tem compromisso com os muitos doentes e enlutados pelo Covid-19. Não vamos esquecer o “e daí? não sou coveiro”, do presidente. Irresponsabilidade, negacionismo, mentiras sobre a real situação nacional. Descaso e desonestidade. Assim se define o atual governo em relação à pandemia. Não vamos esquecer o desrespeito pelos funcionários da saúde, nossos heróis hercúleos nesta pandemia.

Enche-nos de tristeza ver muitos religiosos e religiosas, também católicos, se posicionarem em favor do governo. Por vezes, com manifestações absurdas. Um exemplo claro foi na Arquidiocese de Uberaba. O arcebispo Dom Paulo Mendes Peixoto, em comunhão com o clero desta arquidiocese, publicou no último dia 04 o Manifesto em Defesa Vida. Em resposta, alguns católicos que se auto denominam católicos pela verdade, por outdoor, faziam claras críticas – com ausência de verdade – à arquidiocese.

Primeiramente, se eles se creem católicos pela verdade, em hipótese alguma, poderiam se manifestar por imagem pública. Tal ato reflete total desrespeito à comunhão da Igreja. Não se agride seus irmãos e irmãs por imagens públicas, promovendo escândalos. Isto, ao bem da vivência cristã, não se faz sequer com inimigos. É um desrespeito à maturidade do ser cristão. Atitude imatura, pirracenta. Se alguém tem algo a dizer a um líder religioso, agende uma reunião, envie uma carta, um e-mail, entre outras formas maduras de se manifestar. Por outdoor fica clara a intenção de se gerar escândalo. Estes que se intitulam católicos de verdade, atentam contra sua Igreja. São pedras de tropeço ao povo de Deus. Nada mais podemos dizer ao defini-los.

Em segundo lugar, gostaríamos de saber onde se justifica as acusações feitas à arquidiocese? Teologia da Libertação? Opção político-partidária? Onde? O texto da Arquidiocese de Uberaba se sustenta na Palavra de Deus. Na literatura profética, nos Evangelhos, nos Atos dos Apóstolos, na Literatura Epistolar. Sem deixar de lembrar a total comunhão deste manifesto com o Magistério da Igreja. Estes que acusam a Arquidiocese de Uberaba estão imbuídos de intenções nada cristãs. A história trará a verdade. Ela é um imperativo ( cf Jo 8,32). Ao Povo de Deus na Arquidiocese de Uberaba, seu clero e ao Arcebispo Dom Paulo, nossa total solidariedade e comunhão!

Continuaremos nosso caminhar. Opondo-nos a quaisquer tipo de violência. De discursos e atos de ódio. Conduzimo-nos pela pedagogia do amor. Sempre em comunhão com a Igreja de Jesus, cujo sonho é viver e anunciar a Boa Nova do Evangelho com alegria, jeito humilde e paixão, para acolher o Reino de Deus e contribuir em sua construção já aqui na Terra, na esperança do Reino Definitivo. Para tanto, estamos sempre em favor dos pobres, dos excluídos e em defesa da vida, quando esta se faz ameaçada. Não por ideologias, mas embasados no seguimento de Jesus, que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância (cf Jo 10,10).

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