O sacrifício de Isaac e sua recepção no judaísmo e cristianismo

Frei Jacir de Freitas Faria[1]

Em grandes linhas, eu diria que o tema escolhido por André Chevitarese, no seu artigo que o título acima enuncia, é de grande interesse, sobretudo porque parte de um tema central, o sacrifício de Isaac, e o relê sob diversos aspectos, especificamente o do martírio como atualização do mesmo. O sacrifício de Isaac é elemento importante na constituição das três grandes religiões monoteístas e, portanto, não deixa de sê-lo para a pesquisa bíblica e a ciência da religião.

Seguindo a intuição da conclusão do ensaio que afirma que as releituras de Gn 22 fazem parte de um grande leque aberto, no que se refere à diversidade de abordagens que caracterizam o cristianismo nas suas origens, gostaria de propor outros tópicos de reflexão, bem como algumas observações metodológicas e questionamentos.

1. Considerações metodológicas

A desenvoltura da tese proposta parece lógica e coerente, no entanto, saliento os seguintes pontos:

· Iniciar a reflexão com a opinião de Crossan e a complementação feita sobre a ligação entre a cultura do estudioso e a popular foi esclarecedor. Contudo, creio que faltou explorar mais a dependência que o estudioso atual tem da cultura popular, principalmente enquanto comunitária. Nesse pormenor, valeria aqui relembrar a valiosa colaboração de Severino Croatto, em saudosa memória, que desenvolveu a teoria da relação intrínseca entre aquele que escreve o texto e seu público. Ele diz que, quando ambos, autor e público-alvo, desaparecem, o texto original faz emergir novos sentidos para outros leitores, de épocas e contextos diferentes.

· Oportuno foi o uso do recurso da imagem, que também nos fornece uma releitura de Gn 22. Faltou, porém, um estudo da recepção de Gn 22 na Torá Oral, nas liturgias sinagogais e na arte, por exemplo, de Caravaggio, Rembrandt, Chagall, entre outros.

· Ficou evidente que a transposição de Isaac como representação de Jesus (o filho imolado) deve-se às releituras. Prenúncio de Deus expondo seu filho Jesus. Sendo assim, quais realmente Chevitarese privilegia na sua análise? As leituras canônicas? As orais? Os apócrifos? As artes? A Imagem exibida em seu texto? Ele cita Gn 22, AJ, AB, 4Mac, entre outras. Mais três autores, destaque para Josefo. Não teria sido oportuno explorar mais a imagem? Já que ela é a novidade na apresentação. Qual é o seu contexto? Sua autoria?

· Na leitura semiótica realizada, faltou estabelecer os pressupostos teóricos. Não basta apenas descrever semelhanças e diferenças, pois são códigos diferentes – palavra e imagem. Os apócrifos têm muito a nos oferecer em relação à imagem. Ao explorar a imagem, Chevitarese deveria ressaltar mais os limites e as interfaces entre o texto canônico e os apócrifos, enfatizando a atualidade desse diálogo e retomando sua proposição inicial – a letra “b” do texto de Crossan e a “sua” releitura. E ainda poderia perguntar pelo sentido que as pessoas comuns dariam à imagem apresentada. A imagem é melhor vista com Abraão de cabeça para baixo. Não seria uma inversão da leitura? Se vista com Abraão na posição normal, ela se torna “ilegível” e, além disso, mostra-se em baixo relevo. O alto relevo só é nítido com Abraão de cabeça para baixo. Assim, o cordeiro a ser imolado torna-se mais relevante. Não seria o baixo relevo uma possibilidade de ressaltar que o cordeiro sacrificado seria trocado por Jesus?

· Para a ciência da religião teria sido igualmente oportuno a reflexão ter apontado questões históricas do judaísmo e cristianismo, como a passagem dos sacrifícios cruentos no culto para os incruentos, bem como aprofundar o significado do martírio judaico e cristão como resistência, esperança, salvação e sofrimento, também em outros escritos apócrifos judaico e cristãos.

· Na página 6, quando menciona Monte Moriá, creio que há um equívoco. Em Gn 22,2 encontramos o nome Moriá designando a terra e não a montanha. O Monte Moriá fica na terra de Moriá; assim como o Sinai, no deserto que leva o mesmo nome. É correta, porém, a afirmativa de que, posteriormente, em Crônicas, esse monte fica associado ao Monte do Templo. Na época de Josefo, já era uma crença comum pensar no Monte do Templo como o local para onde Abraão levou Isaac.

· Sugestões bibliográficas:

FARIA, Jacir de Freitas. Apócrifos aberrantes e complementares. Cristianismos alternativos. Poder e heresias! Introdução crítica e histórica à Bíblia apócrifa do Segundo Testamento. Petrópolis: Vozes. (No prelo).

KRISTEVA, Júlia. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974.

Stroumsa, Guy G. La fin du sacrifice. Les mutations religieuses de l’antiquité tardive. Collège de France; Paris: Odile Jacob, 2005. 3) STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo. Um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.

Smith, Mark S. O Memorial de Deus: História, memória a experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.

VV. AA. Leitura judaica e releitura cristã da Bíblia. RIBLA, 40, Petrópolis: Vozes, 2001.

2. Considerações às interpretações de textos

Em relação ao conteúdo da reflexão de Chevitarese, gostaria de frisar alguns pontos e tecer outras considerações.

1) Considerando a estrutura literária de Gn 22, valeria ressaltar o relato de seu contexto sacrificial organizado de forma que transpareça a seguinte ordem seqüencial: a) Deus ordena a realização de um sacrifício; b) aquele que deve sacrificar prepara o material necessário; c) ele parte para o lugar do sacrifício – a montanha; d) prepara o altar do sacrifício; e) há uma ordem impedindo a realização do sacrifício; f) retorno ao estado original, sem a realização do tipo de sacrifício solicitado. Ademais, o personagem Abraão aceita o pedido divino. O leitor tem a certeza de que ele é fiel, apesar do seu grande sofrimento em ter que realizar tal sacrifício.

2) Em Antiguidades Judaicas, concordo com a interpretação da historização de Flávio Josefo, situando a releitura no contexto do martírio como sinal de esperança, mas faltou abordar o significado último do martírio no judaísmo e no cristianismo.

3) Em Antiguidades Bíblicas, faltou acentuar o caráter de resignação de Filon de Alexandria nas suas atualizações de textos bíblicos. Seria interessante começar lendo o seu texto um pouco antes, de modo que se possa perceber a descrição positiva que Filon faz de Isaac e Abraão, apresentando-os como modelos ancestrais judaicos para os judeus de seu tempo, os quais sofriam discriminação étnica em Alexandria. Na descrição do sacrifício de Isaac, vale também ressaltar que ele fez opção tranqüila pelo martírio porque tinha a certeza de estar no caminho de santidade, já demonstrada pela piedade do seu pai, que realizou um sacrifício perfeito. Essa atualização de Filon motivou os judeus a sofrer o martírio em prol do judaísmo.

4) Dentre os textos bíblicos analisados, seria bom considerar aqueles que tratam da filiação divina de Jesus e sua ressurreição: Rm 1,3-4; I Cor 15,3-6; Fil 2,5-9; ITs 4,15-17; Gal 4,4-5. A morte de Jesus, o Filho, nos trouxe a salvação. Ele ressuscitou. Abraão não sacrificou seu filho Isaac porque Deus mesmo não lhe permitiu. Já com a morte de Jesus, Deus eliminou os nossos pecados por meio de sua carne sacrificada (Rm 8,3). Deus não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós (Rm 8,32). O sacrifício de Isaac está na origem da interpretação paulina da crucifixão de Jesus. Gn 22 serve como fundamento da morte de Jesus na cruz[2]. Na tentativa de demonstrar a antiguidade do cristianismo ao império romano, nada melhor que Gn 22, pois em Jesus se realizou o sacrifício de Isaac e a salvação de todos. Sua morte é redentora e sua ressurreição, histórica.

5) Em Hebreus 11,19, teria sido melhor citar o texto desde o versículo dezessete, que retoma o tema da fidelidade de Abraão para a comunidade dos hebreus, bem como outras passagens dessa carta. A fé de Abraão é apocalíptica. Ele afirma que Deus é capaz de ressuscitar os mortos. O autor da carta aos Hebreus se utiliza de Gn 22 para polemizar com o judaísmo formativo. Jesus mesmo é o sacerdote misericordioso da descendência de Abraão. Jesus destrói o império da morte, o diabo (Hb 2,14-17). E mais do que isso, em Hb 7, 26-27, a morte de Jesus é um sacrifício sacerdotal que ultrapassa o sistema de pureza do judaísmo.

6) Em relação à Epístola a Barnabé, mesmo que esta tenha sido “o último e decisivo passo na historização da exegese de Gn 22”, vale destacar que esse livro é o mais antijudaico dos apócrifos. Nele, o judaísmo não é considerado religião verdadeira e o Primeiro Testamento é de índole cristã. Os cristãos não-judeus são os herdeiros da promessa. E ainda, nesse mesmo contexto de releitura do Gn 22 da Epístola de Barnabé, valeria mencionar a teologia de Marcião, que ensinava que o cristianismo devia romper com o judaísmo, pois este possuía o deus vingativo, o Demiurgo; bem como os ensinamentos de Valentino, de que a fé na morte e ressurreição de Jesus não salva, e os dos ebionitas, que defendiam a morte redentora de Jesus na cruz.

3. Releituras de Gn 22 não consideradas

O texto poderia retomar outras releituras de Gn 22. Cito algumas delas.

O Livro dos Jubileus, datado entre 170 e 140 antes da era comum, acrescenta ao relato de Gn 22 um personagem celestial, chamado de Mastema, que pede a Deus para pôr Abraão à prova. Isaac é chamado de filho amado e primogênito. Há um anjo que se coloca entre Abraão e Mastema. O fim do relato anuncia uma festa que será celebrada em sete dias para memorizar esse evento. Nota-se o cunho sacerdotal desse midraxe, que relê o Gn 22 para mostrar que Israel é um povo sacerdotal e santo.

No Targum Neophyti, datado entre os dois primeiros séculos da era comum, vê-se que o sacrifício de Isaac foi a décima tentação de Abraão. Isaac, por ser tão fiel a Deus quanto a Abraão, tem consciência de que ele é a vítima sacrificial e a ela se conforma naturalmente, de modo que seu pai não obtenha a maldição divina em chave escatológica. Depois da intervenção do anjo do Senhor, Abraão ofereceu culto a Deus e invocou o nome do verbo de Javé. Assim, Gn é relido em chave litúrgica. Abraão intercede por Isaac e sua descendência, o que significa dizer, por Israel e pelo judaísmo. Por fim, é dito que no evento do sacrifício de Gn 22 foi manifestada a glória da Shekiná de Israel. Nesse sentido, a escola joanina interpreta o sacrifício de Jesus como manifestação da glória divina.

Esse texto justifica a interpretação de Chevitarese e teria sido oportuna a sua utilização.

4. Contribuições à reflexão

Para complementar a reflexão de Chevitarese, gostaria de apresentar uma outra imagem e aprofundar a questão do martírio para judeus e cristãos.

Mosaico da Sinagoga de Beth Alpha (séc. VI)

No exercício da historização do Gn 22, é oportuna a utilização da imagem e sua interpretação. Gostaria somente de apresentar uma outra do século VI, encontrada em um mosaico, na sinagoga de Beth Alpha, atualmente localizada em um Kibutz, na Galiléia. A cena representa dois servos de Abraão que vigiam um jumento, e há um carneiro dependurado em uma árvore, pronto para o sacrifício. Abraão, com uma das mãos segura uma espada e, com a outra, coloca Isaac sobre o altar do holocausto. No centro do mosaico, aparece a representação de Deus em forma de sol, do qual sai uma imagem de mão forte para impedir Abraão de realizar o sacrifício. Abaixo está escrito em hebraico: “Não estenda”, retirado de Gn 22, 12 que diz: “Não estenda a sua mão sobre o jovem”. Os nomes de Isaac e Abraão estão escritos sobre suas imagens. No quadro geral do mosaico, além de imagens de elementos da natureza e do zodíaco, está a Torá colocada bem acima da cena do sacrifício de Isaac. Esse detalhe demonstra o valor da Torá e seu cumprimento em Gn 22. Já o uso de imagens é uma questão polêmica, pois os judeus não as permitiam. Nesse caso, pelo fato de ser um ambiente de culto, parece que havia concessão.

Ademais, nesse período, o bizantino, os cristãos são a maioria em Israel e o interesse cristão pelo diálogo com o judaísmo já tinha chegado ao fim. Os judeus sofrem perseguições. A questão é: por que, então, representar o sacrifício de Isaac em um mosaico? Há uma evidente releitura/atualização de Gn 22, tendo em vista o fortalecimento da esperança e da salvação no fim dos tempos. Exemplo disso é a representação do carneiro, que recorda o sacrifício de expiação realizado no templo, que não existe mais. A mão vigorosa de Deus, que aparece acima impondo um pare, sugere o desejo judaico de que Deus intervenha e aja contra os cristãos que haviam dominado a sua terra e seu povo.

Para demonstrar essa esperança de redenção israelita com a poderosa intervenção de Deus, as sinagogas dessa época se utilizaram da arte mosaica não somente com a representação do sacrifício de Isaac, mas também com a representação de Daniel na cova dos leões, em Susiya, e do rei Davi, em Gaza.

Rosh Hashná

Para além das imagens, vale lembrar que, no segundo dia do Rosh Hashanáom, que é também o segundo dia do ano novo judaico, lê-se, nas sinagogas, Gn 22, conhecido no judaísmo como Akidat Yitzchak – Amarração de Isaac. Na Torá, Rosh Hashaná é chamado de Iom T´ruá, o dia do toque do Shofar, recebendo, posteriormente, o nome de cabeça (início) do ano. O toque do shofar, naquele dia, segundo uma das interpretações rabínicas, lembra justamente o chifre do carneiro que foi sacrificado em lugar de Isaac. Se Deus salvou Isaac da morte, Ele salvará igualmente o judeu da morte durante o julgamento do início do ano, que termina em Yom Kippur. No fundo, trata-se da submissão incondicional de Israel ao que se considera ser vontade de Deus, custe o que custar. Bem como, o desejo de que Deus considere no pedido de perdão de cada judeu, caso ele não seja digno, o mérito dos seus ancestrais como Abraão e Isaac que demonstrar dedicação e fé.

O martírio dos judeus e dos cristãos

A releitura ou atualização de Gn 22, tanto no judaísmo como no cristianismo, como bem acentua Chevitarese, remete-nos ao contexto de martírio. Judeus e cristãos precisavam encontrar uma resposta para os sofrimentos advindos da perseguição romana. Isaac e Abraão são reavivados como modelos de fé judaica e resistência diante do império romano.

Jesus crucificado tornara-se o mártir por excelência. Os cristãos são os novos Isaacs que aceitam o martírio para encontrar a salvação, testemunhando que Jesus morreu e ressuscitou.

O cristianismo apócrifo do século segundo[3] tratou de modo polêmico a questão do martírio em relação ao cristianismo que se tornou hegemônico. Nessa época, a idéia do martírio como caminho de salvação, na demonstração de fé na morte e ressurreição de Jesus, estava largamente difundida entre os cristãos. Negando o mundo e o culto ao imperador, encontrava-se a salvação no além, pensavam os cristãos. Tertuliano condenou os grupos gnósticos que não aceitam a orientação da igreja em favor do martírio. Eles, os gnósticos, afirma Tertuliano, rejeitam o martírio porque dizem que Cristo morreu precisamente para que eles não precisassem morrer. Tertuliano dirá ainda que “é preciso tomar nossa cruz e suportá-la como fez o Mestre. A única chave para abrir o paraíso é o nosso próprio sangue”.[4] Para Irineu, a negação do martírio é uma arma teológica dos falsos cristãos gnósticos, que vivem imunes à perseguição romana. Inácio de Antioquia diz que o martírio é o que diferencia o cristianismo verdadeiro dos hereges[5]. Justino também condena os gnósticos que não são perseguidos e nem condenados à morte como mártires.[6] Os cristãos africanos de Cartago, lugar de atuação de Tertuliano, incentivam o martírio aos moldes dos macabeus e contra os pagãos do império romano. Quem se declarava cristão ou dele se ouvia dizer estava fadado à morte pelo império. Foi o que nos relatou o filósofo e cristão Justino, no ano 115, a respeito de uma mulher romana convertida ao cristianismo e de seu marido, que não se convertera.[7] Ambos foram martirizados por serem considerados cristãos. Justino, nesse sentido, escreve em Apologia 3: “Também eu, portanto, espero ser vítima de conluios e ser crucificado”. E foi o que aconteceu. Em 165, a mando do imperador Marco Aurélio, Justino, Policarpo e tantos outros cristãos anônimos foram martirizados. Policarpo foi queimado vivo na arena. O império também acreditava que os cristãos atraíam castigos dos deuses. Marco Aurélio chegou a pedir a Policarpo que rejeitasse a fé em Cristo e que jurasse pelo imperador. Policarpo morreu declarando-se cristão. Assim, podemos concluir que o martírio era visto pelo cristianismo que se tornou hegemônico como ato de fé que testemunhava a paixão e morte de Jesus e a certeza da ressurreição em outra vida. Cristãos morriam agradecendo a Deus pelo martírio. A obtenção da glória na terra e no além era garantida pela coroa do martírio. As últimas palavras de Narzalo, ao ser martirizado, no ano de 185, foram: “Hoje somos mártires no céu. Graças a Deus!”.[8] Inácio de Antioquia em uma carta escrita aos romanos, antes de ser martirizado, pede que os seus não impeçam a sua morte como mártir. “Rogo-vos que não me deis mostras de bondade inoportuna. Consenti que me torne alimento de animais selvagens, que são os meios de percorrer meu caminho em direção a Deus, e pelos dentes dos animais selvagens estou certo de que poderia provar o puro pão de Cristo”.

Enquanto muitos cristãos morriam martirizados por convicção, outros se perguntavam: Esse é um caminho de salvação ou pura tolice? Como a literatura apócrifa deu a sua resposta a essa questão? Uns eram a favor e outros, contra. Os seus defensores afirmavam que a morte por meio do martírio é um caminho de salvação, mas completavam dizendo que o corpo é matéria e pode até morrer crucificado, como foi o caso dos apóstolos, mas a vida plena está em Deus, fonte do conhecimento. O importante é voltar para Deus. O cristão deve professar a fé e um só Deus, o de Jesus Cristo, que o leva à pátria celestial. Crer é professar a fé em Deus salvador. O cristão deve se libertar de seu próprio corpo material para encontrar a salvação na Plenitude. Essa visão do martírio que salva foi consenso entre algumas correntes apócrifas e o cristianismo que se tornou hegemônico. Ambos os grupos convocavam os cristãos a aceitare o martírio.

Dentre as vozes discordantes em relação ao martírio, destaca-se um tratado gnóstico, intitulado O Testemunho da Verdade, que afirma ser o martírio pela fé uma tremenda ignorância e tolice. Quem opta pelo martírio não sabe quem é Cristo. Assim diz o texto: “Os néscios – que imaginam em seus corações que basta confessar ‘Somos cristãos’ na palavra, mas não com poder, enquanto se entregarem à ignorância e a uma morte humana, sem saber para onde vão nem quem é Cristo, pensando estarem vivos quando, na realidade, estão no erro – caminham depressa para os principados e autoridades. E caem nas garras destes por causa da ignorância que têm dentro de si. Eles são mártires fúteis, pois dão testemunho apenas de si mesmos… Quando se aperfeiçoam morrendo como mártires, eis o que estão pensando: se nos entregarmos à morte por amor ao Nome, seremos salvos. Mas essas questões não resolvidas dessa maneira… Eles não possuem a Palavra que dá vida”.[9] Nota-se a rejeição à paixão e morte física de Jesus, bem como a condenação do martírio como garantia de perdão dos pecados e vida eterna.

Os testemunhos pró e contra o martírio, acima descritos, referem-se aos cristãos, mas, entre os judeus, o martírio não foi visto de modo diverso. A opção pelo martírio judaico foi, por muito tempo, um sinal de resistência e esperança. Os macabeus já haviam ensinado, melhor morrer que negar a Torá e seus ensinamentos, isto é, negar a Deus. A atualização do sacrifício de Isaac teria muito para contribuir com a situação de perseguição romana imposta também aos judeus.

A fé e a prática do martírio como provas da morte e ressurreição de Jesus fortaleceu o cristianismo que se tornou hegemônico. Os grupos gnósticos que combateram essa prática acabaram desaparecendo. O sangue dos mártires foi semente de novos cristãos que se congregaram em uma igreja católica, isto é, universal. Jesus morto e ressuscitado se mostrou, assim, tão humano que somente poderia ser Deus. Os gnósticos ficaram alheios à vida real de cada ser humano, ao proporem um Jesus meramente divino. O que ocorreu, no entanto, quando terminou a época do martírio como testemunho da morte e ressurreição de Jesus, início do século IV, e a igreja tornou-se a emanação do poder na sociedade, a teologia do sofrimento como caminho de salvação continuou na mentalidade dos cristãos, até mesmo nos modernos, que querem sofrer como Jesus sofreu para encontrar a salvação.

Martírio e sacrifício foram fatores preponderantes no crescimento do cristianismo no império romano, pois eram frutos de uma escolha racional do mártir[10]. Portanto, a atualização do sacrifício de Isaac na morte de cruz de Jesus, como vítima pascal, teve um papel importante naquela época. A morte de um cristão mártir era a certeza da sua salvação. Herdeiros desse modo de pensar estão os nossos irmãos-bomba do islamismo, que aceitam morrer mártires para encontrar um paraíso celeste pleno de prazeres e de mulheres e, assim, contribuir para a libertação de seus compatriotas, os palestinos.

A constatação nas releituras Gn 22 de que Isaac aceitou o sacrifício do martírio com naturalidade e a ele se entregou, mesmo que ele não tenha ocorrido, serviam para legitimar o ato do martírio de cristãos e judeus. O martírio somente tem valor se for um ato de entrega livre. Por isso, a insistência na fé e na entrega de Abraão e Isaac. Assim, cristianismo e judaísmo se viam fortalecidos como religião.

5. Para continuar pensando

Finalizando as considerações sobre as recepções de Isaac e de Jesus no contexto religioso popular judaico e cristão, gostaria de propor umas questões, de modo que possamos continuar no caminho da investigação.

1.Em relação à mudança feita por Chevitarese no texto de Crossan sobre a importância da reflexão popular do texto bíblico para o estudioso, não seria oportuno se perguntar: Os sábios e eruditos daquela época consideravam, de fato, a leitura popular do texto bíblico?

2. Considerando que Gn 22 tornou-se um paradigma de releituras bíblicas, como garantir que a nossa aproximação hermenêutica ao texto, com nosso modo de pensar teológico e ideológico, garanta uma nova palavra de Deus?

3. Em que Gn 22 poderia nos ajudar a compreender a passagem dos sacrifícios cruentos no culto para os sacrifícios incruentos, tanto no cristianismo como no judaísmo? O que dizer dos jovens islâmicos que ainda hoje aceitam morrer como mártires em favor da religião? Ou até mesmo praticar a auto-flagelação?

4. O que, de fato, representava o martírio para judeus e cristãos? Masoquismo? Tolice? Prazer de morrer por outro? Como pode uma pessoa racional fazer sacrifício em proveito de entidades sobrenaturais ocultas? Como atualizar a questão martírio? Ele salva ou é pura tolice?

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[1] Frade franciscano e pesquisador dos apócrifos do Segundo Testamento. Autor de vários livros e artigos sobre os apócrifos e Bíblia em geral, Frei Jacir também estuda o judaísmo e sua releitura no cristianismo.

[2] Cf. LÓPEZ, Ediberto, Releituras de Gn 22 no judaísmo e cristianismo primitivo e o sacrifício de Isaac, RIBLA, 40, Petrópolis: Vozes, 2001, p. 66-91.

[3] Para a análise dos cristianismos apócrifos desse século, bem como dos séculos primeiro e do terceiro ao sétimo, veja o no nosso livro Apócrifos aberrantes e complementares. Cristianismos alternativos. Introdução crítica e histórica à Bíblia Apócrifa do Segundo Testamento, Petrópolis: Vozes, 2008 (No prelo).

[4] Cf. Tertuliano, De Anima 55.

[5] Cf. Ehrman, Bart D., Evangelhos perdidos, São Paulo: Record, 2008, p. 210.

[6] Cf. Justino, II Apologia 15.

[7] Cf. Justino, o Mártir, I Apologia 1.

[8] Cf. Acts of the scillitan martyrs, 1-3, In Christian martyrs, 86-87.

[9] Cf. Testemunho da Verdade 31, 22-32,8; 33,25-34,26.

[10] Cf. STARK, Rodney, O crescimento do cristianismo. Um sociólogo reconsidera a história, São Paulo: Paulinas, 2006, p. 185.

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