Reflexão Litúrgica – 6⁰ DOMINGO DA PÁSCOA – 9 de maio

Por Izabel Patuzzo

O novo mandamento

I. INTRODUÇÃO GERAL

Celebramos hoje o 6º domingo da Páscoa e o dia das mães. Recorda-nos o papa Francisco de que não somos órfãos, porque a mãe de Jesus, ao pé da cruz, nos assumiu como filhos. Todos nós devemos a vida a uma mãe. Ser mãe é muito mais que colocar um filho no mundo; é a escolha de dar a vida com contínuos gestos de amor e cuidado. As mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos momentos mais difíceis, a ternura, a dedicação, a força e os valores morais e éticos mais profundos que levamos conosco, para sempre, em nossa vida.

A primeira leitura relata a conversão e o batismo de Cornélio, centurião romano. Essa conversão indica que a comunidade cristã já desenvolve sua missão em ambiente pagão. Como comunidade de amor, a Igreja não faz acepção de pessoas, mas acolhe todos aqueles que abraçam a fé e desejam congregar-se como filhos e filhas de Deus. A comunidade cristã, desde seu início, anuncia que a salvação divina é oferecida a todos os povos. Jesus deu a vida para todas as criaturas; a leitura assinala que, para Deus, o decisivo não é a pertença a uma raça ou grupo social, mas a disponibilidade para acolher a oferta que Ele faz.

O texto do Evangelho de João nos recorda o amor de Jesus por cada um de seus discípulos; o Senhor pede uma resposta correspondente a esse amor, isto é, que vivamos no âmbito de seu amor. Essa resposta de amor é própria do Espírito recebido: o amor que responde com amor. A comunidade é, pois, o lugar delimitado pelo amor de Jesus, onde são visíveis seus efeitos. A grande exortação das leituras deste domingo pode ser traduzida por estas palavras do Mestre: “Permanecei em mim, que eu permanecerei convosco”. Essa é a condição fundamental para produzir frutos.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

2. I leitura (At 10,25-26.34-35.44-48)

A primeira leitura nos fala da importância da missão do apóstolo Pedro fora de Jerusalém. Ele se encontra em Cesareia; como chefe da comunidade cristã, foi escolhido para ser instrumento da missão universal que Jesus confiou à sua Igreja. Assim, superando uma concepção exclusivista judaica, acolhe no seio da comunidade os novos convertidos, pois o batismo não pode ser recusado àqueles que se convertem mediante o anúncio da Boa-nova de Jesus Cristo.

Cornélio vai ao encontro de Pedro e prostra-se diante dele, reconhecendo-o como pessoa de grande dignidade. Pedro, entretanto, apresenta-se como simples e humilde servidor da comunidade. Assim ele se torna portador da mensagem do amor universal de Deus manifestado em Cristo; amor inclusivo, que vence as barreiras de raça e cultura e é oferecido a todos aqueles que se dispõem a entrar na dinâmica do amor universal de Deus.

Cornélio está entre os primeiros cristãos vindos do mundo não judaico; ele, juntamente com seus familiares, é oficialmente introduzido na comunidade cristã. Isso significou uma mudança de mentalidade por parte dos cristãos de origem judaica. No mundo judaico, o estrangeiro ou gentio era considerado impuro, mas a comunidade cristã tem consciência de que o anúncio querigmático é para todos.

2. II leitura (1Jo 4,7-10)

O autor da primeira carta de João tem a convicção de que Deus é amor. Segundo ele, a característica mais marcante do ser de Deus é o amor. Portanto, a atividade mais específica de Deus é amar a criatura humana. A maior prova do amor de Deus para com a humanidade foi o envio de seu Filho amado para a salvação de todos. O amor divino manifestado em Jesus Cristo não se resumiu apenas a palavras, mas se exprimiu em gestos concretos. Jesus acolheu os marginalizados e excluídos, cuidou dos doentes, perdoou aos pecadores e libertou os cativos de espíritos malignos.

João recorda que foi Deus quem nos amou primeiro. E se esse amor é incondicional, os batizados têm por missão expressar, por meio de gestos concretos, o amor divino. Quem conhece a Deus, quem tem uma vida íntima com ele, também deve ser capaz de ser generoso, de servir com gratuidade e externar o amor nas relações fraternas.

3. Evangelho (Jo 15,9-17)

No evangelho deste domingo, Jesus estabelece um paralelo entre a relação dos discípulos com ele e a sua relação com o Pai. Em ambos os casos, trata-se da fidelidade própria do verdadeiro amor. Cumprir os mandamentos equivale a manter-se no amor. O Mestre insiste na necessidade da prática como critério da união com ele. Não existe amor a Jesus nem a vida sob sua influência, se não há o compromisso com os irmãos.

O mandamento que constitui a comunidade de Jesus e lhe dá identidade é, ao mesmo tempo, o fundamento da missão. Jesus o enuncia pela segunda vez, agora em relação com o fruto. Comunidade e missão não são duas coisas distintas nem separáveis: onde não existe uma comunidade que ponha em prática o amor mútuo, a missão de Jesus não pode ser levada adiante. Da mesma forma que Jesus, em sua atividade pública, manifesta a presença do Pai entre as pessoas, assim também haverá de fazê-lo sua comunidade de discípulos; mas Deus só está presente e ativo onde existe amor como o de Jesus, expressão máxima de seus mandamentos. Também não se pode proclamar a mensagem de amor sem se apoiar na experiência amorosa de Jesus; nem será possível oferecer uma alternativa ao mundo injusto sem criar comunidades justas e fraternas.

Identificada com Jesus e sua mensagem, a comunidade cristã tem plena consciência de realizar com dedicação as obras de Deus. Jesus realiza os mandamentos do Pai, expressando assim seu amor para com ele. Os discípulos realizam os mandamentos de Jesus, recebidos do Pai: expressam assim sua comunhão com seu Mestre e ficam vinculados ao Pai. Esse novo modo de expor a relação entre Jesus e o Pai, e depois a íntima comunhão com os discípulos, tira toda ambiguidade ao vínculo expresso antes sob a figura da videira. Essa união tão íntima com Deus se realiza mediante um amor que é resposta ao seu, mas Jesus exclui expressamente o amor e a adesão próprios de servos; trata-se de amizade que chega até a dar a vida pelos amigos. A missão da comunidade adquire assim uma dimensão nova: os discípulos não a exercem como assalariados, contratados para realizar o trabalho do Senhor e executar suas ordens, mas como amigos que compartilham da sua alegria na tarefa comum.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Os ensinamentos de Jesus no evangelho deste domingo são situados pelo evangelista João no contexto de despedida da última ceia. Jesus deixa claro aos seus discípulos que eles não ficarão sozinhos, pois estará sempre no meio deles. Este é o grande ensinamento dessa passagem do Evangelho: a comunidade de Jesus continuará na história, até o fim dos tempos, a sua missão. Jesus acompanhará para sempre seus discípulos. Nos momentos de crise, de desilusão, de frustração, de perseguição, ele estará sempre ao lado, dando força, coragem e agindo por meio da comunidade de fé.

Cada discípulo é verdadeiro e inseparável amigo de Jesus. É ele quem nos chama, nos escolhe por sua livre inciativa; partilha conosco o projeto do Pai, associando-nos à sua missão; estabelece conosco uma relação de proximidade, confiança, intimidade e comunhão. Diante de sua proposta, questionamo-nos: é ele o centro de nossa comunidade de fé? De nossas pastorais? Que lugar ocupa em nossa vida? Estamos de fato disponíveis para dar continuidade à sua missão?

Jesus não apenas diz: “Amai-vos uns aos outros”, mas complementa: “assim como eu vos amei”. Ele foi o primeiro a dar inúmeros exemplos da verdadeira forma de amar. Chama-nos de amigos, e não de servos; e fazer parte de sua comunidade de amigos supõe testemunhar, com gestos concretos, que somos capazes de amar todas as categorias de pessoas que Jesus ama. Não alimentar preconceitos, cuidar dos fracos, vulneráveis, esquecidos e marginalizados.

Izabel Patuzzo

Pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: Isabellapatuzzo@hotmail.com

Fonte: Vida Pastoral

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