Morte no Jacarezinho

Por Hermes de Abreu Fernandes

Não podemos dizer que foi uma ação policial infeliz. Não houve uma operação policial. O que temos foi uma operação de guerra. Só em histórias lamentáveis de guerras que tantos danos colaterais ocorrem.

Pessoas tendo suas casas arrombadas. Executadas diante de quem nada tem em relação com a diligência original das forças policiais. O argumento do comando da operação foi que criminosos se esconderam nas casas invadidas. Certo. Não seria critério original preservar vidas que não estavam envolvidas no confronto? Entrar em confronto dentro de residências habitadas não se trata de imprudência primária? E o direito à segurança física e emocional dos membros da Comunidade do Jacarezinho? Por que invadir disparando suas armas em residências onde famílias habitam? Com crianças a assitir em estado de desespero? Há argumentos que justifiquem tal desrespeito à vida humana? À dignidade humana?

O vice presidente da República alega que todos os que morreram no confronto eram bandidos. Não ouso questionar a culpabilidade dos mesmos. Outrossim, lembro que não há no Brasil uma lei que justifique a pena de morte. Pior seria, então, a execução sem julgamento prévio.

A questão social também nos faz pensar. Há crimes nas comunidades pobres. Isto é inegável. A polícia deve, sim, buscar a prisão e o julgamento dos envolvidos no crime organizado. Entretanto, o que vemos nos fatos no Jacarezinho é um sentimento de liberdade. Policiais se sentem livres para burlar os critérios racionais mais básicos de segurança. Colocam toda uma população em risco de danos colaterais, por achar que podem fazê-lo. Por que podem? Por serem policiais? Por que estão em comunidades pobres? Parece que sim. Em meio às periferias existenciais, a polícia pensa tudo poder. Sentem-se acima da lei de respeito à vida humana. Como se pobre não fosse humano.

Quando vemos as operações de busca e apreensões em crimes ditos “do colarinho branco”, não se vê violência. Tiros. Nem mesmo, “cara feia”. Os “doutores bandidos” são mais humanos do que os pobres bandidos? Por que invadem comunidades favelizadas com extrema violência e, ao cumprir mandatos em condomínios, agem na “prima finesse”? O que podemos pensar é que a polícia gosta de matar pobre. Que a máxima “bandido bom é bandido morto” se refere ao bandido pobre. Só a máxima em si é absurda! E mais: as comunidades favelizadas só abrigam membros do crime organizado? Ou a polícia pensa que todos os pobres que habitam essas comunidades devem ser vistos de forma criminalizadora?

São muitas perguntas. Certamente, ficarão sem respostas. O que não sairá de nosso pensamento são as imagens do rio de sangue deixado no Jacarezinho. Em uma ação policial criminosa, em nome da lei.

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