Arrumação – Dor e Esperança no contar e cantar do sertanejo

Por Hermes de Abreu Fernandes

A música icônica de Elomar Figueira de Melo, sobretudo Arrumação, sintetiza o clamor do pobre sertanejo. Alegoria secular ao Livro de Jó, fala de sofrimento e esperança, sem deixar de questionar o por quê e o para quê de tanto penar. Mais que música. Uma reflexão acerca da condição humana. O verso de Elomar dialoga com a prosa da vida. Poético e prosaico, dialeticamente duelam com a esperança e o desalento.

Mais que música, é dor e esperança em pranto e canto. É cor em notas musicais. Teologia na arte.

***

Arrumação
(Eliomar Figueira de Melo)

Josefina sai cá fora e vem vê
Olha os forro ramiado vai chuvê
Vai trimina riduzi toda criação
Das bandas de lá do ri gavião
Chiquera pra cá já roncô o truvão

Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá o feijão no pó
Futuca a tuia, pega o catadô
Vamo plantá o feijão no pó

Mãe prurdença inda num cuieu o ai
O ai roxo dessa lavora tardã
Diligença pega o pano e cum balai
Vai cum tua irmã, vai num rumo só
Vai cuiê o ai, o ai da tua avó

Lua nova sussarana vai passá
Sêda branca, na passada ela levô
Ponta d´unha, lua fina risca no céu
A onça prisunha, a cara de réu
O pai do chiquêro a gata comeu
Foi um trovejo c´ua zagaia só
Foi tanto sangue de dá dó

Os cigano já subiro bêra ri
É só danos, todo ano nunca vi
Paciênca, já num guento a pirsiguição
Já só caco véi nesse meu sertão
Tudo que juntei foi só pra ladrão

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