As imagens na Igreja Católica podem ser vistas como Idolatria?

Por Hermes de Abreu Fernandes

Há tempos que as disputas teológicas e pastorais passam pela problemática das imagens na igreja. Baseando-se em textos bíblicos, muitos acusam que o uso representativo das imagens incorre em idolatria. Primeiramente, devemos entender o que vem a ser, historicamente no contexto bíblico, a idolatria. Seria o uso de representação material do objeto de nossa fé, ou sacrifícios diante daquilo que se acreditava abrigar em si o próprio sagrado? Idolatria consiste no ato de considerar algo material o próprio sagrado e não mera representação do mesmo. Seriam as imagens católicas idolatria? Há muito que se considerar acerca desta questão.

Antes de justificar a iconoclastia por mera referencia bíblica, devemos ver a questão como um todo. Muitos acusam a Igreja católica de idolatria, usando de textos bíblicos. Estão certos? Certamente, não! Se há onde se fala contrário à confecção de imagens, há onde se recomenda representar o sagrado pelas mesmas. Tudo, na Bíblia. Por que? Vejamos a fundo.

1. O Primeiro Testamento

Vejamos o livro do Êxodo (20,4), onde proíbe aos israelitas a confecção de imagens. Por quê? Porque poderiam dar oportunidade para que o povo de Israel às adorasse como fazia os povos vizinhos. Os israelitas tendiam, sim, a imitar os gestos religiosos dos povos ditos pagãos. Há varias referências nos textos bíblicos à Aserá (אֲשֵׁרָה), divindade Cananéia da fertilidade. Para entender esta proibição, devemos ver a mesma em um contexto de real idolatria. Não se tinha uma representação da mesma e sim, acreditava-se que – em posse de sua imagem (o ídolo) – esta divindade estaria presente no clã. Neste sentido, a representação material não era simbólica. Acreditava estar no material sua própria pessoalidade. Além: considerando o monoteísmo presente no povo hebreu, que centraliza em Javé sua fé, a presença de outras divindades seria desrespeito àquele que seria o único Deus.

Verifica-se, porém, que a proibição de fazer imagens não era algo de absoluto. em certos casos, o Senhor mesmo mandou confeccionar imagens para sustentar a piedade de Israel; como podemos ver abaixo:

Ex 25,17-22: O Senhor mandou Moisés colocar dois querubins de ouro sobre o Propiciatório da Arca; era pelo Propiciatório assim configurado que Javé falava ao seu povo. Por isso a Bíblia costuma dizer que “Javé está sentado sobre os querubins” (cf 1Sm 4,4; 2Sm 6,2; 2Rs 10,15; Sl 79,2; 98,1).

1Rs 6,23-28: O texto menciona os querubins postos junto à Arca da Aliança no Templo de Salomão.

1Rs 6,29ss: As paredes do Templo de Salomão foram revestidas de imagens de querubins.

Nm 21,4-9: O Senhor Deus mandou confeccionar a serpente de bronze para curar o povo mordido de serpentes.

1Rs 7,23-26: O mar de bronze colocado à entrada do Palácio de Salomão era sustentado por 12 bois de metal.

1Rs 7,28ss: Havia entre os ornamentos do Palácio de Salomão imagens de leões, touros e querubins.

Os próprios judeus compreenderam que a proibição de fazer imagens era condicionada por circunstancias transitórias, de modo que aos poucos foram introduzindo o uso de imagens nas suas sinagogas. Veja o caso, por exemplo, da famosa sinagoga de Dura-Êropos, na Babilônia, na qual estavam representados Moisés diante da sarça ardente, o sacrifício de Abraão, a saída do Egito e a visão de Ezequiel.

2. O Segundo Testamento

Pelo Mistério da Encarnação, sabemos que Deus quis dirigir-se aos homens por meio da figura humana de Jesus, o Messias. Este, por sua vez, ilustrar as realidades invisíveis através de imagens, inspiradas pelas coisas visíveis: assim, utilizou parábolas e alegorias que se referiam aos lírios do campo, à figueira, aos pássaros do céu, aos pássaros do céu, ao bom pastor, à mulher que perdeu sua moeda, ao filho pródigo.

Mais: a evolução dos povos, que foram aprimorando sua cultura, tornou menos sedutora a prática da idolatria. Isto tudo fez com que os cristãos compreendessem que a proibição de fazer imagens já cumprira seu papel junto ao povo de Israel. Doravante, prevaleceria a pedagogia divina exercitada na Encarnação, que levava os homens a passar das coisas visíveis ao amor, às invisíveis. A meditação dos ensinamentos de Jesus e a representação artística dos mesmos, tornaram-se recursos, através dos quais, o povo fiel procurou se aproximar do Filho de Deus. Tendo em Cristo o olhar, a representação artística do mesmo vem como arte que expressa sentimentos. Sentimentos traduzidos em formas, cores, beleza.

Foi neste emaranhado de sentimentos que os antigos cemitérios cristãos (catacumbas) foram decorados com diversos afrescos, geralmente inspirados em textos bíblicos. Noé salvo das águas do dilúvio, os três jovens na fornalha cantando, Daniel na cova dos leões, os pães e os peixes restantes da multiplicação feita por Jesus, o Peixe (Ichthys), que simbolizava o próprio Cristo.

Nas igrejas, as imagens tornaram-se a Bíblia dos iletrados, dos simples e das crianças. Exerciam função pedagógica de grande alcance. É o que notaram alguns dos escritores cristãos antigos: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (São Gregório de Nissa, século VI). E ainda: “O que a Bíblia é para o que sabe ler, a imagem é para os iletrados” (São João Damasceno, século VIII).

O Papa São Gregório Magno escrevia a Sereno, bispo de Marselha, em fins do século VI: “Tu não devias quebrar o que foi colocado nas igrejas, não para ser adorado, mas – simplesmente – para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, outra é aprender – mediante esta imagem – de quem se dirigem tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os que ignoram as letras. Mediante as imagens estes aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler”.

3. A Controvérsia Iconoclasta

Nos séculos VIII e IX, verificou-se na Igreja uma disputa em torno do uso das imagens – a luta iconoclasta. Por influencia do judaísmo, do islamismo, de seitas e antigas heresias cristológicas, muitos cristãos do Oriente puseram-se a negar a legitimidade do culto às imagens. Os imperadores bizantinos tomaram parte da querela, mais por motivos políticos, do que por razões religiosas. A querela foi levada ao Concílio de Nicéia II (787). Este, com base no raciocínio de grandes teólogos como São João Damasceno, reafirmou a validade do culto das imagens, enquanto culto de veneração e não adoração. Perceba aqui o bom uso da preposição. Culto das imagens e não às imagens. As imagens aqui tem função pedagógica e afetiva. Não abrigando em si o sagrado que a mesma representa, exceto pelo simbólico. Com efeito, o Concílio fez uma distinção entre latréia (adoração, reconhecimento da soberania absoluta de Deus) e proskýnesis (veneração), tributável aos santos e também às imagens, pois estas representam sua santidade, assim como, o Mistério do Senhor. O culto das imagens é, portanto, relativo. Uma analogia àqueles que representam. Sem qualquer predicado sobrenatural em sua matéria. Nada há na matéria prima das imagens, com a qual lhas confeccionamos, que abrigam o sagrado. É o que simbolizam que nos aproxima do céu.

Assim se pronunciaram os padres conciliares: “Definimos que, como nas representações da Cruz, assim – também – as veneráveis imagens, em pintura, em mosaico ou qualquer outra matéria adequada, devem ser expostas nas igrejas de Deus (sobre os santos utensílios e os paramentos, sobre as paredes e os quadros), nas casas e nas estradas. O mesmo se faça com a imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador, como as da Santa Mãe de Deus, com as dos santos anjos e todos os santos e justos. Quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão levados a reconhecer os modelos originais, a se voltar para eles, a lhes testemunhar uma veneração respeitosa, sem que isso seja adoração, pois esta só convém, segundo a nossa fé, a Deus”. (Sessão de 13 de outubro, Concílio de Nicéia II, 787).

A Tradição Cristã reconheceu reiteradamente o valor pedagógico e psicológico das imagens, como suporte para a vida de oração. Assim, por exemplo, escrevia Santa Teresa de Ávila (✝1582), ao ensinar as vias de oração às suas religiosas: “Eis um meio que vos poderá ajudar… Cuidai de ter uma imagem ou uma pintura de Nosso Senhor que esteja de acordo com o vosso gosto. Não vos contenteis com trazê-la sobre o vosso coração sem jamais a olhar, mas serví-vos da mesma para vos entreterdes muitas vezes com ele.” (Caminho e Perfeição, 43,1).

Jean Gerson (✝1429), mestre de espiritualidade, escrevia: “Doravante, ninguém há tão simples e iletrado que possa desculpar-se por não saber como viver retamente para ganhar o paraíso, quando ele tem diante de si e para si, na representação da Cruz e o Crucificado, um livro ilustrado, escrito, ornamentado muito clara e legivelmente, em que todas as virtudes são aprovadas e todos os vícios reprovados” (Moralité de la Passion).

De resto, em Karlsruhe, no ano de 1956, os luteranos reunidos em Congresso, ponderaram que o preceito, de Cristo, de pregar o Evangelho em todas as línguas, inclui também o uso da linguagem figurada do artista (pintor ou escritor). Perguntavam outrossim: “Por que admitir as impressões auditivas na catequese e rejeitar as impressões visuais? Estas parecem ainda mais eficientes do que aquelas.” (Der chistliche Sonntang: 1956, p. 327).

4. Imagens Hoje

Não podemos perpetuar debates teológicos que só se justificaram no nascimento da Igreja. O Cristão Católico que se sente incomodado com a questão das imagens, deve beber das fontes dos Santos Padres, da Patrística, dos Documentos da Igreja. Citamos acima um aperitivo desta riqueza de seu Magistério. Gostaríamos, também, de evocar a fé em nossos pastores, nossos pais na fé. Seriam eles cegos àquilo que poderia nos fazer perder no caminho cristão? Claro que não! O Colégio Apostólico, na pessoa de nossos bispos; os teólogos, nossos mestres na fé; são suscitados por Deus a nos orientar e conduzir no caminho de seguimento de Jesus. Se temos nossas imagens, e nada contrário a elas se manifesta no Magistério da Igreja, é porque nada há que se lhe possa macular.

Dentro de um contexto pastoral, não podemos negar que as imagens estão no emocional coletivo do ser católico. A religiosidade popular está cheia de devoções riquíssimas. Estas não devem ser abandonadas. Faz parte da sabedoria dos simples. Nas romarias aos santuários o Povo de Deus se faz caminhar. Menosprezar a religiosidade destes é uma agressão aos sentimentos que os fundamentam. Se antes as imagens abrigavam em si uma pedagogia catequética, hoje abriga o emotivo, a familiaridade com o Sagrado. Assim como guardamos fotografias daqueles que nos são caros, o Povo de Deus, diante das imagens, aproxima-se do que as mesmas representam por afeição verdadeira. Atribuir a isso idolatria é desmerecer o jeito de amar, venerar e expressar tão valorosos sentimentos.

Que possamos gozar de fé madura e responsável. Sempre em comunhão com o Magistério da Igreja. As imagens são representações de nosso amor a Deus, a Jesus e aos santos e santas; nossos companheiros no caminho. O amor é sempre Bem. Vem do Sumo Bem. Difere, em sua essência, de idolatria.

2 comentários Adicione o seu

  1. Neuza Maria disse:

    Quando eu perdi amizade porque critiquei um cantor, já no terceiro casamento e com filhos distribuídos pelo mundo com mães diversas eu entendi o que realmente era idolatria.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s