Os pobres, a fome e o descaso

Por Neuza Mafra

“O Pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas…

e não nos deixeis cair em tentação!

Dados levantados pelo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – Penssan), apontam para 117 milhões, o número de pessoas sem acesso permanente a alimentos, somados às quase 20 milhões de pessoas que literalmente passam fome no Brasil.

Não estamos falando de um país pobre em recursos naturais, menos ainda de um país sem recursos humanos. Estes dados indicam a força da injustiça social. Não somos um país pobre, mas um país empobrecido por tiranos, tal como o descreve o Profeta Amós: “Escutai, vós que vos encarniçais contra o pobre, para aniquilar os humildes da terra, vós que dizeis: quando é que passará a lua nova, para podermos vender os grãos, e o sábado, para abrirmos os sacos de trigo, diminuindo a efá, aumentando o preço, alterando balanças, comprando o indigente a dinheiro e um pobre por um par de sandálias? Venderemos até o farelo do trigo!” (Amós 8, 4-6).

O Brasil é o maior país da América do Sul em área territorial com uma diversidade climática favorável à produção de alimentos suficientes para toda a população. Nada justifica dizer que a fome é histórica no Brasil, sobretudo, quando o alimento é direito de todos. O que empobreceu o Brasil nos últimos tempos, a pandemia? Não! A pandemia foi um prato cheio para um governo que vive espreitando “a lua nova” para arrancar mais e mais direitos dos pobres, deixando-os na miséria extrema.

Numa sociedade onde predomina a pobreza sistêmica, fruto do pecado social, vergonhosamente histórica, é a prática do descaso das autoridades que se beneficiam com as populações mais vulneráveis, sem acesso a cestas básicas, serviços sanitários mínimos, água, trabalho, saúde. Com essas vulnerabilidades, os pobres são usados como trampolim para promessas que jamais serão cumpridas. A estes detentores do poder, importa criar a cultura da dependência, do assistencialismo e do paternalismo. Aqui, a fome será sem dúvida, resultado da opção pelo lucro, ou, come quem tem poder de compra.

Para a teologia da libertação, só a justiça social é capaz de levar a uma verdadeira opção pelos pobres contra a pobreza, visto que ela é causada pela opressão a que estão submetidas populações inteiras. Frequentemente o Papa Francisco tem condenado a pobreza, lembrando que amamos os pobres não porque eles são o centro do evangelho, mas porque sua situação exige justiça social.

Em 2014 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), pela primeira vez, apontou que o Brasil havia saído do Mapa da Fome. O que certamente incomodou o governo Bolsonaro, que na sua primeira semana como presidente, tratou de extinguir o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o CONSEA, órgão importantíssimo com participação da sociedade civil servindo como pilar no combate a fome, vindo a ser recriado sob Medida Provisória em 2019.

A luta para saciar a fome dos empobrecidos tem sido uma constante por parte das comunidades, dos movimentos sociais, de militantes comprometidos. O pão vem da base, não vem das instâncias responsáveis primeiramente em suprir as necessidades da população. Isso faz lembrar o que Betinho dizia ao criar a Campanha Nacional Contra a Fome e a Miséria: “a alma da fome é política”.

Milhares de pessoas hoje contam apenas com as campanhas de solidariedade para se alimentarem, mesmo que precariamente. Contudo, esta realidade tem mostrado em nossas comunidades um crescimento altíssimo e acelerado de pessoas cada vez mais empobrecidas, e, ao mesmo tempo, uma diminuição significativa de doações. A fome não se explica, ela é sentida, dói, enverga, aniquila, mata.

Será que a profecia de Amós, tem alguma semelhança com o atual momento brasileiro no qual prevalece o ditado: “farinha pouca, meu pirão primeiro”? Livrai-nos deste mal, amém!

Fonte: Portal das CEBs

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