Santificar o Sábado ou o Domingo?

Por Hermes de Abreu Fernandes

Uma das dúvidas que mais permeiam o pensamento dos cristãos que se aventuram no Estudo Bíblico, é sobre qual dia deve ser santificado. A Palavra de Deus, no Primeiro Testamento, fala muito sobre o Sábado. Os Cristãos, tendo em vista o Mistério Pascal, buscam – como seu dia santificado – guardar e celebrar o domingo como Dia do Senhor.

A Lei de Moisés, entre as suas prescrições mais antigas, mandava que os judeus descansassem no sétimo dia ou sábado (Shabbath), dedicando-o totalmente ao Senhor Javé (cf Ex 20,6; 23,32; 34,21). A palavra Shabbath, em hebraico, significa repouso. Está relacionada a Sheba, isto é: sete em hebraico. Podemos, assim, entender que o Shabbath tem relação com o número de dias, dia sétimo, assim como, também relaciona-se ao conceito de repouso.

O ministério e ensinamento de Jesus não se opôs à Lei do Sábado. Submeteu-se à Lei. Em verdade, Jesus esteve em plena comunhão com os ensinamentos do judaísmo, assim como, suas tradições. Foi circuncidado, conforme a Lei, observou o sábado; bebia das fontes da revelação do Primeiro Testamento. Podemos vê-lo, em vários momentos, citando a Lei e os Profetas em seu discurso. Em Lucas 4,18ss, temos aquilo que podemos chamar de inauguração de seu ministério; quando lê a passagem de Isaías 61,1ss, acrescentando que – naquele momento – tal Palavra se cumpria. Em contrapartida. repreendia os fariseus por seu rigorismo. Este que podia chegar à hipocrisia. Jesus exortava que deviam colocar a caridade acima da observância literal do sábado (cf Mt 12,10-14; Lc 13,10-17; 14,1-6). Lembrava o seguinte princípio: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). O sábado seria, pois, um meio para o homem atingir mais seguramente o grande fim de sua vida: a união com Deus. Seria o sábado um meio e não um fim em si.

Por meio da novidade de sua mensagem, Jesus atribuiu a si mesmo o poder de modificar e suspender a observância do sábado (cf Mc 2,28). Não que negasse sua importância. Ou mesmo, sua fundamentação enquanto observância da vontade de Deus. Vem trazer, junto à Lei de Moisés, o complemento ou a plenitude da vontade deífica. Confirma o valor do sábado, suprimindo a pedagogia opressora dos fariseus. Misericórdia está além do sacrifício. Amor significa mais que obediência. A Liturgia deve significar a Vida, não oprimí-la! Observar o sábado como dia santificado, não impede que se promova a vida, a misericórdia, o exercício do amor. Por causa disso, os doutores da Lei o incriminavam (cf Jo 5,9), mas Jesus dizia que nada fazia senão imitar o Pai que, tendo entrado em repouso após criar o mundo, continuava a governar este e aos homens (cf Jo 5,17). Foi, por certo, esta atitude de Jesus que inspirou aos antigos Cristãos uma certa liberdade em relação ao sábado, fazendo-os compreender a essência do espírito da observância deste dia.

O Evangelho como uma Nova Lei

Na história do nascimento da Igreja, os discípulos – a princípio – continuaram a guardar o sábado. É o que se depreende de suas atitudes por ocasião do sepultamento de Jesus (cf Mt 28,1; Mc 15,42). Mesmo depois de sua Ascensão, continuaram a frequentar as celebrações judaicas aos sábados, aproveitado tais oportunidades para anunciar ali o Evangelho (cf At 13,14; 16,13; 17,2; 18,4). De maneira geral – os primeiros cristãos observavam os costumes religiosos dos judeus (cf At 2,1.46; 3,1). Somente, aos poucos, foram tomando plena consciência das consequências práticas decorrentes da superação da Antiga Lei pela Nova – o Evangelho.

Podemos crer que São Paulo, arauto da abolição das observâncias judaicas, não tenha imposto a celebração do sábado aos cristãos convertidos do paganismo. O apóstolo chegava mesmo a acautelar os fiéis contra a infiltração de ideias judaizantes: “Que ninguém vos critique por questões de alimentos, bebidas ou festas anuais, ou luas novas, ou sábados; que são apenas sombra de coisas que haviam de vir, mas a realidade é o corpo de Cristo” (Cl 2,16-17).

Em breve, o primeiro dia da semana, após o sábado, quando Cristo ressuscitou, tornou-se dia de culto dos cristãos, ou o Dia do Senhor. No ano de 57 ou 58 dC, por exemplo, em Trôade, na Ásia Menor, os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana, conforme At 20,1, para celebrar a Eucaristia. Em 1Cor 16,2 São Paulo recomenda aos fiéis a coleta em favor dos pobres no primeiro dia da semana – o que supõe uma assembleia religiosa realizada naquele dia.

Neste contexto, foram transferidas para o domingo, práticas que os judeus celebravam aos sábados, como o louvar a Deus e a esmola. É muito provável que as comunidades fundadas por São Paulo tenham observado o primeiro dia da semana (dia da ressurreição de Cristo). Este dia dedicado à glorificação do Senhor vitorioso sobre a morte, tomou adequadamente o nome de Kyriaké heméra, dia do Senhor (ou, literalmente, dia imperial), como se pode inferir de At 1,10: “Fui arrebatado em espírito no Dia do Senhor“. O grego Kyriaké heméra resultou, em latim, o Dominica dies, donde – em português – dominga, ou domingo.

O caráter simbólico do sábado

Podemos crer que a celebração do Domingo, como Dia do Senhor, advenha da própria Igreja-Mãe de Jerusalém, pois os Apóstolos estavam reunidos no 50º dia (Pentecostes), um domingo, quando receberam o Espírito Santo (cf At 2,1-3). Este foi comunicado aos Apóstolos não em um sábado e sim, em um domingo. Também o Cristo ressuscitara em um domingo.

Nesta perspectiva cristã, o antigo sábado dos judeus passou a ser uma figura simbólica, como, aliás, muitas outras instituições do Primeiro Testamento. Válidas como processo precursor da Nova Aliança. Rica e cara por sua história e simbologia, porém, a plenitude do Mistério a temos na Pessoa do Cristo. Seu Mistério Pascal. A Epístola aos Hebreus nos deixa claro este caráter figurativo e provisório das instituições da Lei de Moisés (cf Hb 4,3-11: ao que se refere ao sábado).

Seria, de resto, despropositado que os cristãos continuassem a observar o sétimo dia dos judeus, visto que – neste dia – Jesus ficou na sepultura. Ressuscitando, somente no dia do seguinte, o domingo, apresentando-nos a nova criatura, à qual, devemos todos honrar, louvar e celebrar. Nossa fé se fundamenta no Cristo Ressuscitado. Na vitória da ressurreição e não no fracasso da cruz.

Louvor e júbilo na Páscoa de cada semana: o Domingo – memorial perene da Ressurreição

Desde o século II, a história da Igreja bem nos lembra, há depoimentos que atestam as celebração do domingo tal como foi instituída pelos apóstolos, conscientes do significado da ressurreição de Cristo. Santo Inácio de Antioquia (110 dC, aproximadamente), escrevia aos Magnésios: “Aqueles que viviam na antiga ordem de coisas, chegaram à nova esperança, não observando mais o sábado, mas vivendo segundo o Dia do Senhor, dia em que nossa vida se levantou mediante Cristo e sua morte” (Sermões, 9,1).

Em meados do século II, encontra-se o famoso depoimento de São Justino, escrito entre 153 e 155 dC: “No dia dito do Sol, todos aqueles dos nossos que habitam as cidades ou os campos, se reúnem num mesmo lugar. Lêem-se as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas… Quando a oração está terminada, são trazidos pão, vinho e água… Nós nos reunimos todos no dia do sol, porque é o primeiro dia, aquele em que Deus transformou as trevas e a matéria para criar o mundo e, também, porque Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos neste dia mesmo” (I Apologia 67,3.7).

Nesta apologia, São Justino atesta a celebração da Eucaristia no domingo. Chama-o Dia do Sol porque se dirige aos pagãos. Faz questão de elucidar que tal designação é alheia à doutrina cristã, mas aqui, oportuna em sua catequese. “No dia dito do sol” é uma referência ao edito do imperador Constantino, de 321 dC. Vemos aqui que a celebração no domingo nada tem de concessão ao dia pagão do sol, mas é nitidamente inspirada por motivos bíblicos do Primeiro e Segundo Testamentos. O fato de o Imperador Constantino ter preceituado certo repouso “no venerável dia do sol” não quer dizer que ele tenha introduzido a observância do Dia do Senhor entre os cristãos. Esta observância, como vimos, data da época dos apóstolos, tendo sido – apenas – patrocinada por Constantino, desde que se tornou Cristão.

O louvor e o júbilo ao Senhor em dia de domingo, é a certeza de que, com o Ressuscitado, entramos todos em uma nova realidade. O Projeto Salvífico de Deus chega à sua plenitude. A Vida venceu a morte. O Sol é o próprio Cristo a iluminar a Casa Humana. Em Cristo, somos libertos de nossa imanência, sendo herdeiros de sua transcendência. O Dia do Senhor é o memorial de nossa Páscoa. Das cadeias da morte à liberdade de filhos e filhas de Deus. Em Cristo, vida plena e vida em abundância: o Reino de Deus (cf Jo 10,10).

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