Quando nem todos são filhos de Deus – Cidadania e idolatria

Por Prof. Jung Mo Sung

1. Sonho de quase todos os brasileiros

Ruas arborizadas, um bom clima e uma casa grande e confortável, isolada da correria do trânsito e da violência que vai tomando conta da maioria das nossas cidades. Conforto e tranquilidade para “curtir” a família. Um carro importado na garagem. Eletrodomésticos de alta tecnologia para facilitar os trabalhos do dia a dia. Uma antena parabólica e uma TV a cabo, num aparelho de alta definição, para assistir às melhores programações do mundo. Um computador ligado aos melhores magazines dos Estados Unidos para poder comprar as últimas novidades do paraíso do consumo. E uma conta bancária suficientemente alta para manter este padrão de vida e consumo sem preocupações. Sonho de quase todos os brasileiros, só realizado por um pequeno grupo, que vive em luxuosos condomínios fechados ou em algum bairro ou cidade que, aos poucos, vão se tornando autênticos condomínios fechados, como, por exemplo, Campos do Jordão (SP), a “Suíça brasileira”.

É o sonho de pertencer ao Primeiro Mundo[1], ao mundo rico. No fundo, parece que temos vergonha de pertencer ao Terceiro Mundo e sonhamos em não ser o que somos. Desejamos ser reconhecidos e aceitos pelos “grandes”, e por isso queremos imitá-los. Consumir o que eles consomem, nos vestir como eles, ver o mundo como eles veem; em outras palavras, assumir a cultura deles. Parece que sentimos culpa de ser o que somos.

Quando se entra em uma casa de pessoas pobres é comum ouvir frases como esta: “me desculpe pela minha pobreza”. Parece que a pobreza é percebida como sinal ou prova da culpa do pobre. Não importa culpa do quê. O que importa é a existência desse sentimento de culpa associado à pobreza. E não somente à pobreza, mas a todas as formas de discriminação na sociedade. Por exemplo, não é muito difícil encontrar negros que parecem sentir-se culpados por serem negros e, por isso, não assumem a sua negritude e procuram “ser” brancos, seja por imitação, seja por outros sinais exteriores típicos de grupos de brancos ricos. Essa associação de sentimento de culpa e vergonha com o fato de não ser rico e branco “flutua” no ar da nossa sociedade. Não é explicitado, não é consciente. Mas é presença contínua por aí. Todos respiramos isso. Até mesmo os ricos brancos.

Ser rico, numa sociedade como a nossa, é mais importante do que ser branco. É claro que o bom para esta sociedade é ser rico, branco e homem. Mas entre um homem branco pobre e uma mulher negra e rica, a sociedade brasileira “respeita” mais a negra, porque é rica. Além disso, “ser rico” tem uma outra diferença em relação à etnia ou gênero (ser homem ou mulher). Riqueza é um conceito mais fluido e dinâmico. Uma pessoa é rica sempre em relação a alguém mais pobre. O que significa que um homem branco rico nunca está totalmente isento desse sentimento de culpa ou vergonha porque sempre haverá alguém mais rico do que ele. Ele nunca estará livre de sentir-se mais pobre numa relação com uma pessoa mais rica.

Assim, até mesmo os ricos sonham em não ser o que são. Sonham em ser o que outros mais ricos são. Desejam as coisas não porque eles precisam ou gostam, mas principalmente porque os outros mais ricos desejam. Parece que todos nós sonhamos em ser uma imitação de outros mais “bem vistos” na sociedade.

As pessoas e grupos sociais lutam por seus sonhos. Se queremos mudar o país e, para isso, motivar mais pessoas para essa luta, precisamos entender os seus sonhos e os mecanismos existentes para a realização desses sonhos.

2. Duas facetas de um sonho

Duas palavras-chave são apresentadas hoje como caminho para a realização do sonho acima descrito: modernização e mercado. A modernização da economia e do país e o livre mercado parecem resumir a “boa-nova” de hoje.

O que não é dito é que este binômio modernização e mercado é apenas um lado da moeda, a sua face “fascinante”. Há um outro lado da moeda, a sua face “oculta”, a apartação do mundo dos que participam da modernização e mercado do mundo dos que estão fora. A apartação social é o lado obscuro, não admitido, deste sonho. Vejamos com mais detalhes.

2.1. Modernização e mercado: boa-nova para os consumidores

Modernizar é submeter a economia e a políti­ca do país ao critério da eficiência, da racionalidade. Racionalidade é entendido aqui como técnica para se obter a maximização da produção com o menor custo econômico. Não está em discussão se o objetivo de buscar o aumento da produtividade a qualquer custo social é ou não desejável, ou até mesmo racional. A modernidade capitalista criou um conceito particular de racionalidade, diferente dos tempos antigos, quando havia uma discussão racional também sobre a validade dos nossos objetivos.

O progresso da tecnologia (o saber científico aplicado à produção) é apresentado como o único caminho possível para a realização dos sonhos. A revolução tecnológica que estamos vivendo hoje (uma revolução do conhecimento aplicado ao processo produtivo e gerencial)[2], que possibilita o consumo de bens antes inimagináveis, é visto como a comprovação de que não há outro caminho para a realização dos sonhos humanos a não ser o da modernização capitalista.

Sendo assim, a solução dos problemas sociais e humanos não estaria mais no campo político, no campo das opções em torno de objetivos e caminhos possíveis, mas somente no campo técnico. Esse assunto seria da competência exclusiva dos técnicos (por exemplo, economistas, empresários, cientistas), e não da população em geral. As pessoas não técnicas não teriam uma responsabilidade política, nem direito de participar da determinação do futuro da nação. Mais ainda, o desejo e ação de participar da vida política, em nome da cidadania, seria uma pretensão que atrapalharia a eficácia da modernização.

A modernização, segundo esse tipo de pensamento, vem sempre acompanhada de liberalização do mercado, por dois motivos. Segundo eles, o sistema de mercado é o melhor e o único sistema que possibilita a maximização da produção. Isso porque o sistema de mercado é um sistema baseado na concorrência entre os seus participantes. Uma relação baseada na concorrência produz como resultado necessário a vitória do mais competente (o mais forte) e, portanto, a derrota e a exclusão dos mais fracos. Com isso só os mais competentes permaneceriam e conduziriam de uma forma mais eficaz o progresso tecnológico e o aumento da produtividade.

O segundo motivo é que só com a liberalização total da economia (a abertura da economia para o comércio internacional, a privatização das empresas estatais e a saída do Estado da economia) os consumidores terão acesso aos bens produzidos no mundo inteiro, e todos os recursos da economia serão dirigidos em função da eficácia. Não haveria mais a intervenção do Estado na economia, nem o “desperdício” do dinheiro público com programas sociais. Essas duas ações têm, ou deveriam ter, como objetivo a melhoria da vida dos que estão sendo alijados no processo de concorrência do mercado, isto é, os pobres, os desempregados e os setores menos eficientes da economia.

Com a diminuição ou a extinção da ineficiência, da corrupção dos políticos (como se não houvesse a corrupção entre empresários!), da interferência do Estado na economia, do desperdício da verba pública com os “inúteis” e incompetentes da sociedade, haveria muito mais recursos para a criação de novas riquezas e consumo de bens de última geração. É claro que cada um deve se esforçar muito para se manter entre os “sobreviventes” da luta no mercado para poder usufruir da boa casa, do carro importado, da segurança de um condomínio fechado…

A ansiedade, que vem da concorrência sem fim e do desejo nunca satisfeito de consumir tudo, é compensada pela realização do sonho. Mesmo que essa realização seja sempre parcial e provisória. Além disso, existe o importante sentimento de não ser como “eles”, como aqueles que estão fora desse mundo desejado por tantos. O gosto indescritível de ser superior.

2.2. O lado obscuro do sonho

O que não é apresentado à nação é o lado obscuro desse sonho. Aliás, o lado obscuro de um sonho não é mais um sonho (no sentido do desejado), mas sim um pesadelo. E pesadelos preferimos esquecer, ou fazer de conta que não existem.

O primeiro ponto de que precisamos sempre nos lembrar é algo bem óbvio: a sociedade brasileira é maior (muito maior) do que o mercado brasileiro. Calcula-se que em torno de 50 a 60 por cento da população brasileira está fora do mercado consumidor e do mercado de trabalho formal. A condição sine qua non para entrar no mercado, para ser consumidor, é ter dinheiro para consumir. Se levarmos em conta que no capitalismo todos os bens necessários para viver e para satisfazer desejos são vendidos no mercado, estar fora do mercado significa não ter condições para viver (seja dignamente, seja no sentido literal de se manter vivo), muito menos a satisfação dos desejos.

Isso significa que o Brasil tem uma multidão de pessoas não consumidoras que vão formando um cinturão em volta do mercado, às margens do mercado, olhando para dentro, desejando entrar e sendo barrados por falta de passaporte necessário: dinheiro. Como no capitalismo neoliberal a vida não é possível fora do mercado, não resta outra alternativa senão buscar formas legais ou ilegais de encontrar uma brecha para entrar. As formas ilegais são já conhecidas: roubos, assaltos, prostituição… que possibilitam aos marginais  do mercado (os que estão à margem do mercado) terem acesso aos bens materiais necessários para satisfazer as necessidades e desejos.

Uma forma legal é procurar um emprego com um salário digno que os torne participantes do mercado, mesmo que de modo muito secundário. Assim, os desempregados começam a viajar em busca de melhores condições de vida. E, com razão, buscam as cidades mais ricas. Só que estas cidades, que têm melhores condições de vida, não querem a entrada desses indesejados, desses pecadores incompetentes. Assim, cidades como Campos do Jordão, Campinas, Ribeirão Preto, Gramado e outras têm ou tentaram criar meca­nismos para barrar a entrada dos pobres. Recentemente os jornais e as TVs mostraram como a cidade de Campos do Jordão criou uma barreira na cidade para impedir a entrada de pobres. O responsável por esse programa de controle da “fronteira” disse que o que eles querem é evitar que os problemas sociais de outras cidades cheguem até eles. Campos do Jordão, como muitas outras cidades, não quer ser uma cidade brasileira. Quer ser uma cidade onde nem todos os brasileiros são cidadãos, não podendo ir e vir livremente.

Infelizmente, nem todos os brasileiros são tratados como cidadãos ou, numa linguagem religiosa, nem todos são tratados como filhos de Deus. A condição para a cidadania é ser consumidor, ter dinheiro, estar no mercado. E a cidadania aqui é entendida como direito de participar das benesses do mercado e participar da política para defender o mercado contra os que procuram defender os interesses dos pobres, dos “não competitivos”. O mercado é considerado anterior à cidadania, como a fonte da cidadania para indivíduos. Antes se alguns diziam: “fora da Igreja não há salvação” ou “só os batizados são filhos de Deus”; hoje se diz: “fora do mercado não há salvação”, “só os consumidores são cidadãos”.

É interessante notar que o artigo primeiro da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa, dizia algo bem diferente: “Os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem ter fundamento na utilidade comum”. Isso significa que nenhuma instituição humana é anterior ao ser humano, aos seus direitos e à sua dignidade. Todos são cidadãos, independentemente da sua condição social. Parece que o capitalismo contemporâneo perdeu de vista as grandes contribuições do liberalismo à história da humanidade e só ficou com seus aspectos perversos.

Mas para onde, então, irão estes “não-cidadãos-incompetentes”? Bem, esse não é um problema para os que assumiram o espírito da modernização do mercado. Na visão deles, preocupar-se com esse tipo de problema e se deixar ser levado pela tentação de ser solidário com os pobres, significa ir contra o espírito do mercado, o espírito da concorrência, da defesa do interesse próprio contra os interesses do outro. Para a lógica do mercado, não se pode ser solidário com os menos competentes (os pobres) porque isso diminui a eficácia do sistema. E, como já vimos acima, a maximização da eficácia é apresentada como único caminho para o paraíso, a realização dos sonhos. Por isso, Roberto Campos, grande defensor do neoliberalismo, disse que “a modernização pressupõe uma mística cruel do desempenho e do culto da eficiência”[3]. Uma mística que deve substituir a mística cristã da solidariedade.

O problema é que só se pode realizar o sonho do consumo infinito e do sentir-se superior assumindo este “culto da eficiência” e a “mística cruel”. Não se pode viver num condomínio fechado sem se apartar dos que estão à margem do mercado. Esse é o lado obscuro do sonho. A realização desse sonho — por parte de uma minoria — implica, ao mesmo tempo, apartação e negação da vida dos pobres.

Está comprovado que não é possível a realização desse sonho para todos. Se isso acontecesse, os problemas ecológicos e com os recursos naturais não renováveis tornariam impossível a vida na terra. Numa economia como a brasileira, a realização desse sonho só é possível para uma minoria, à medida que é mantido o atual modelo econômico de concentração de renda. A realização desse sonho por parte de uma minoria pressupõe negar os direitos da maioria de ter uma vida digna. No fundo, pressupõe assumir que nem todos são cidadãos, ou pelo menos que a grande parte da população é constituída de “cidadãos de segunda categoria”.

Mas como manter uma consciência tranquila diante dessa realidade cruel? Acreditando na “mística cruel”. E só tem sentido falar em “mística cruel” quando se elimina totalmente a subjetividade (a intencionalidade, liberdade de determinar o objetivo, a ação consciente e intencional visando o fim) da economia e da política, e, portanto, quando se elimina também a ética. Pois não há mais distinção entre solidariedade (boa intenção) e egoísmo. Ou melhor, o egoísmo — com sua “mística cruel” — é apresentado como único caminho para a solidariedade. Só a ação egoísta produziria o bem comum (o objetivo da solidariedade) pela intervenção supra-humana da “mão invisível”, do mercado.

Direitos e responsabilidades políticas e subjetividade humana são pontos fundamentais da noção de cidadania. Pontos que a ideologia do mercado nega. Não é à toa que os defensores do capitalismo são os que menos falam em cidadania, e que os opositores do atual capitalismo são os que mais defendem a cidadania para todos.

3. Idolatria e “filhos de Deus”

No tempo de Jesus não se discutia o problema da cidadania, pelo menos com esse termo. Mas também havia a separação entre as pessoas, e havia pessoas de “segunda classe”: os impuros e os pecadores. Não podiam frequentar o templo ou a sinagoga, nem círculos de pessoas respeitadas na sociedade. Na experiência cotidiana, bem como teológica e sociologicamente, essas pessoas eram “não pessoas”. Sem dúvida esse problema esteve no centro da vida pública de Jesus.

O contato com os leprosos, com as prostitutas, com os publicanos e outros pecadores públicos foi uma constância na vida de Jesus, e um dos motivos de sua luta com o sistema do templo. Com a sua prática e o seu ensinamento, Jesus quis mostrar que o seu Deus “não faz acepção de pessoas” (Rm 2,11), como fazem o sistema do templo de Jerusalém ou o sistema de mercado.

A tradição cristã nos ensina que todos os seres humanos são filhos e filhas de Deus, independentemente de sua condição social, sexual ou moral. Sociedades opressivas costumam criar diferenças qualitativas entre pessoas em nome de “rótulos” sociais, como “doutor”, “branco”, “rico” etc. Mas nenhum título, por mais importante que seja, é superior ao título de “filho ou filha de Deus”. Isso significa que ninguém pode ter sua dignidade negada ou ser marginalizado. Significa que todos, sem exceção, têm direito à vida e, portanto, às condições materiais que lhes permitam viver dignamente.

A tradição bíblica sempre criticou como idólatras as sociedades que, em nome da promessa da realização de sonhos, exigem sacrifícios de vidas humanas. Essas sociedades são idólatras porque cultuam ídolos fabricados pelas mãos humanas (como imagens da antiguidade que representavam o sistema vigente) ou porque cultuam instituições produzidas pelas relações sociais, como o mercado e o seu critério de eficiência. Divinizam obras de mãos humanas. E, ao divinizá-las, toda a dominação e opressão deixam de ser vistas como tais, visto agora serem feitas em cumprimento a ordens divinas (idolátricas). Assim, os idólatras matam e excluem com a consciência tranquila.

Defender a cidadania de todos é outra forma de dizer que todos os seres humanos são filhos de Deus. É outra maneira de desmascarar a idolatria do mercado e do capital[4] que fundamenta a consciência social insensível e cínica dos nossos tempos.

Não se pode anunciar hoje o Deus de Jesus — que nos chama a seguir as práticas de Jesus, que nos ensina a querer misericórdia, e não sacrifícios (cf. Mt 9,13) e nos infunde esperança num futuro melhor — sem denunciar o sistema de mercado neoliberal, que nega a subjetividade humana, a esperança num mundo mais humano e exige sacrifícios de vidas humanas. Não se pode ser cristão hoje sem assumir a luta pela cidadania de todos.

4. Igreja: testemunha de um sonho mais humano

Dissemos acima que as pessoas e grupos sociais lutam por seus sonhos. Se esses sonhos são perversos ou desumanos, as suas práticas cotidianas e lutas também serão desumanizantes. Se queremos mudar as práticas das pessoas, precisamos mudar os seus sonhos. Precisamos apresentar um sonho mais humano, alternativo ao sonho do consumo infinito.

A Igreja (a comunidade mais ampla de todos os cristãos) precisa ser testemunha de um sonho diferente. Não um sonho de um condomínio fechado no seu luxo, mas o sonho de uma sociedade que não precise de condomínios para sentir-se segura. Uma sociedade em que a qualidade de vida não seja confundida com quantidade de consumo. Em que as pessoas não precisem ser violentas para garantir sua sobrevivência, nem sejam julgadas por sua aparência ou preferência. Uma sociedade mais igualitária, sem tanto luxo contrastando com a miséria, sem tanta ansiedade ou medo. Um mundo onde a solidariedade volte a ser um valor importante, talvez o central.

Não é fácil ser esse tipo de testemunha numa sociedade que vive concretamente a exclusão, o medo e a violência de todos os tipos. Também, se fosse fácil, não precisaríamos da fé cristã, nem da graça de Deus. Coragem não quer dizer loucura, nem prudência pode ser uma máscara para a nossa covardia.

Concluo com uma provocação (no sentido positivo). Sociologicamente, as igrejas são sinais mais visíveis da Igreja. Onde e como são construídas e mantidas as igrejas revelam o modo da comunidade ou de seus responsáveis pensar a sua missão. Acredito que essas comunidades visíveis têm um papel importante na sociedade, seja na legitimação da exclusão ou na sua crítica.

Infelizmente começa a se tornar cada vez mais visível o fenômeno das grades que cercam as escadarias e os pátios das igrejas. Sou da opinião que os responsáveis devem zelar pela segurança do patrimônio das comunidades. Muitas vezes podem ser necessárias grades nas janelas e reforços na segurança das portas. Mas escadarias e pátios em frente às igrejas não precisam ser protegidos contra os ladrões. Parece que essas grades têm a função de proibir os mendigos de dormir nesses lugares. É como se eles não fossem também filhos e filhas de Deus. Nem sequer às portas da “casa de Deus” têm lugar “onde reclinar a cabeça” (cf. Lc 9,58). Sendo assim, será que não estamos reforçando — mesmo inconscientemente — a lógica dos muros dos condomínios fechados, dos clubes particulares, das fiscalizações nas entradas das cidades?

Felizmente esses casos são minoria. A maior parte das comunidades periféricas e das igrejas dos bairros centrais estão abertas aos pobres. Muitas pastorais estão comprometidas com a vida dos pobres, sendo testemunhas de um outro sonho, mostrando outra maneira de ser Igreja. Igreja que não faz distinção de pessoas, anunciando que todos são igualmente filhos e filhas de Deus, até as pessoas mais pobres e marginalizadas.


[1] Com a queda do Bloco Comunista (o Segundo Mundo), não há mais sentido falar em Primeiro e Terceiro Mundo. Mas como esse binômio ainda é usado por muitos para designar os países capitalistas ricos e os pobres, resolvemos mantê-lo neste artigo.

[2] Para uma visão mais ampla da atual revolução tecnológica e as consequências para a economia e para a vida dos trabalhadores, vide Jung Mo Sung, Deus numa economia sem coração, Ed. Paulinas, São Paulo, 1992, cap. 2.

[3] Campos, Roberto, Além do cotidiano, Record, Rio de Janeiro, 2ª ed., 1985, p. 54.

[4] Sobre a idolatria do mercado e do capital, vide H. Assmann e F. Hinkelammert, Idolatria do mercado, Vozes, Petrópolis, 1991; J. M. Sung, A idolatria do capital e a morte dos pobres, 2ª ed., Ed. Paulinas, São Paulo, 1991; J. M. Sung, Deus numa economia sem coração, Ed. Paulinas, São Paulo, 1992; H. Assmann, Crítica à lógica da exclusão, Paulus, São Paulo, 1994.

Prof. Jung Mo Sung

Fonte: Vida Pastoral

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