O Sagrado na ótica feminina | Lina Boff

O presente artigo, publicado originalmente na Vida Pastoral em duas partes, é apresentado em nossa Página de forma íntegra, isto é, em uma única publicação.

Em tempos nos quais valorizar o feminino em relação à espiritualidade e caminhada pastoral é visto, por muitos, como ideologia de gênero; Lina Boff vem nos iluminar com esta reflexão bíblico-teológica sobre a importância do feminino em toda História da Salvação. Vale a pena beber destas fontes!

Boa Leitura!
Hermes de Abreu Fernandes

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Por Ir. Lina Boff, smr

Parte I

Na tentativa de fazer uma reflexão inclusiva, a ótica feminina foi o ponto de partida e de chegada da palavra que faz história, encarna-se por ser concebida à imagem e semelhança de Deus-Comunidade, relacionada pelos laços do amor. Esta reflexão — a ser desenvolvida neste e no próximo número de Vida Pastoral — foi pensada e pronunciada, com toda a evidência possível, como a palavra que verbaliza o fenômeno do sagrado e do religioso ao modo feminino, sem nunca exorcizar o modo masculino. Antes, tentou-se a assunção de uma proposta cristã inclusiva para uma humanidade reconciliada.

A nossa posição diante do fenômeno do sagrado e do religioso, sem entrar na urgente flexão do sacerdócio real em uma Igreja toda ministerial (cf. LG 10), tem como objetivo primeiro tirar do ostracismo plurissecular as mulheres de todas as raças, religiões e culturas. A história de silêncio e de sujeição das mulheres mostra que o feminino revelado nelas as torna sujeito lógico e dialógico pelo princípio “macho e fêmea os criou, à sua imagem os criou” (Gn 1,26). O feminino dessas mulheres traduz aquela analogia ao Verbo de Deus, à “imagem” do qual foram também criadas.

I. As mulheres e os homens refletem a partir do sagrado

No universo das intuições teológicas, as mulheres e os homens se entendem em referência a uma prática anunciadora/libertadora. A reflexão feita por grande parte das mulheres e dos homens que vivem sua fé, e com esta iluminam a realidade a partir da qual refletem, tem como centralidade anúncio libertador enquanto resposta aos desafios e às interpelações que lhes são feitos por esta mesma realidade. Se o anúncio é a Boa Notícia que chega ao povo a partir da realidade em que vive, este anúncio só pode ser libertador. Anúncio e libertação se dão ao mesmo tempo.

Em se tratando de América Latina e Caribe, e mais especificamente do Brasil, tal anúncio se plenifica quando a Vida trazida pelo Ressuscitado, que passa pela Paixão e Morte, atinge a satisfação universal das necessidades básicas físicas e espirituais de cada pessoa humana e de toda a criação, a qual vive e convive, nasce e evolui, cria e se recria com a raça humana do planeta Terra.

Em tal contexto, podemos nos perguntar: O que hoje é típico da sede do sagrado em relação a outros tempos? Que tipo de fé é alimentada por parte de quem busca o sagrado hoje? Como ler teológica e pastoralmente essa atmosfera espiritual dos nossos dias?

II. A compreensão do sagrado na vida dos povos

Para além da sua confissão de fé, os homens e as mulheres, em princípio, explicam o sagrado como um fenômeno humano. Veem no sagrado um pólo aglutinador de todas as religiões. Ele cria um centro a partir do qual os povos encontram o eixo central da vida que perderam. É um fenômeno de todas as grandes religiões. O sagrado é um ponto de referência vital. Por isso, a música e a participação gestual com o corpo e com todo o próprio ser, através da dança e dos gestos, criam um fascínio e um centro que aglutina as pessoas. O movimento do corpo magnetiza, atrai e reúne em torno de um sentido maior, superior, transcendente, povos e nações inteiras com suas respectivas culturas.

A diversidade das religiões e a multiplicidade das crenças, movimentos e seitas são um sinal de que as pessoas perderam o centro de sua vida e procuram buscá-lo no sagrado. Daí o fato de todas as grandes religiões terem o próprio fenômeno do sagrado. Este exerce sobre as pessoas e as multidões o encanto, o deslumbramento e a atração irresistível pelo transcendente, pelo inviolável e profundamente respeitado por todos os povos que cultuam seus deuses, suas deusas, ou o seu Deus.

Para Mircea Eliade, grande historiador das religiões, todo rito, todo mito, toda crença ou figura divina, refletem a experiência do sagrado, que é o elemento fundamental na estrutura da consciência humana.

III. A compreensão do sagrado na ótica femina

Para falarmos do encantamento que o nosso povo hoje manifesta publicamente em relação às coisas que dizem respeito ao espírito, à religião, às coisas sagradas, a Deus, aos santos, à Virgem Maria, e a tudo o que se refere às coisas divinas, é necessário empreender uma leitura mais atenta de alguns elementos do nosso destino histórico, des-velar as nossas “raízes”.

1. Elemento histórico-cultural

O respeito do povo brasileiro pelo sagrado nasce da fé cristã que perpassa toda a vida social e pervade, ou melhor, entra pela vida adentro do povo até o ponto de fazer dele um povo do coração exposto, isto é, um povo que pensa, fala, age como pessoa com o coração entre as duas mãos. O sagrado no povo brasileiro leva-o a criar sua religião e a praticá-la de forma espontânea e carregada de sentimento e criatividade, sem a preocupação de seguir normas ou leis que lhe dizem respeito.

Esse modo de agir significa para o nosso povo ter fé em Deus, nos santos, na Igreja constituída; desde que tudo isso seja expressão do seu universo cultural religioso; sobretudo expressão do gesto que parte do coração, dos próprios sentimentos e da mística que fazem parte integrante desta vida interior do brasileiro miscigenizado. Pode-se dizer que o povo brasileiro, dentro de sua sadia miscigenação, é um povo que se expressa, acolhe e trata com “corde”, com o coração. A pessoa torna-se assim uma identidade cordial e, ao mesmo tempo, religiosa porque cultua o sagrado dentro e fora de sua vida. Ela não separa da vida cotidiana o sagrado que lhe é intrínseco e radicial.

Ora, o nosso velho catolicismo reformado e restaurado à luz do Concílio de Trento (1566-1572), trazido pelo processo colonizador, não oferecia nenhuma espécie de motivação ou estímulo aos sentidos e à imagem, ao universo simbólico e imaginário desta gente. Assim sendo, não proporcionava nenhum terreno de transição por onde o sagrado da religião católica pudesse passar pela vida das pessoas ou acomodar-se aos ideais cristãos concebidos na ótica e a partir do universo cultural deste povo. Ademais, a Igreja católica foi universalista. Houve um catolicismo que se relacionou com simpatia transigente e comunicativa com a gente desta terra. Sabia infundir em cada pessoa a expansão necessária para criar sua identidade “vivendo-nos-outros”, isto é, transpondo a própria identidade para “estar-nos-outros”.

Daí a acentuada sociabilidade que leva as pessoas a ter, nas relações sociais, certa intimidade no trato. Essa intimidade é transportada para o rito e o gesto do culto religioso, independente de qual seja a religião que a pessoa pratica. Tal intimidade tem como ponto de referência um aspecto importante da própria identidade cultural: é a identidade religiosa, à qual se expressa no magnetismo exercido sobre as pessoas pelo sagrado, representado no aparato eclesiástico, nas coisas e lugares que se referem ao sagrado. Cabe dizer aqui que, neste caso, o aparato eclesiástico tem a função de legitimar a prática religiosa concebida de acordo com o universo da nossa gente.

2. Elemento religioso-cristão

Esta compreensão do sagrado, sem dúvida, encontra suas raízes no cristianismo da colonização, e tem neste cristianismo suas expressões sincréticas sincrônicas. Sincréticas porque o cristianismo da colonização era declinado para uma prática capaz de responder à mística e ao sentimento religioso cultivados pelos povos afros e pelos povos das culturas dos nossos índios. Sincrônicas porque o cristianismo da colonização, em princípio, devia ser praticado pelos dois povos — os indígenas e os escravos que vinham da África — mesmo que só exteriormente. Essa prática devia ser feita no rigor das normas e leis ditadas pelos colonizadores da religião cristã.

Se olharmos para o comportamento de Jesus, nos escritos do Novo Testamento, vemos que ele respeita o sagrado, na medida em que este não impede o exercício da santidade, que a faz consistir prioritariamente no amor de Deus e ao próximo, do qual o sagrado é somente uma projeção sobre a terra. Nada separa Jesus do mundo ordinário, isto é, do cotidiano da sua gente. De acordo com a reflexão teológica feita a partir da teologia das religiões e das ciências sagradas da religião, são dois os motivos que fundamentam a prática de Jesus neste campo e o leva a considerar e a respeitar o sagrado, na medida em que possibilita viver a fé como opção fundamental da vida toda.

primeiro motivo é o de que o sagrado não pode substituir a revelação enquanto esta é compreendida como fatos, palavras e escritos referentes às intervenções de Deus na história dos povos; nem colocar em risco esta revelação, deixando num segundo plano o incomparável valor deste evento único e irrepetível. No sagrado é importante evitar o deslumbramento, o encantamento e a atração irresistível, polarizações que podem acontecer, deixando opaca a revelação de Deus aos povos e ao mundo que habitam. A revelação deve ser acentuada na sua proclamação e posta em evidência como atuação de Deus nos fatos da história humana, que é a história salvífica de todos os povos, a partir de sua cultura e crença.

segundo motivo que fundamenta a reflexão teológica que parte do sagrado é o de que o anúncio dado deve atender ao seu sentido mais profundo, que é o sentido salvífico. Este sentido deve ser claro e inteligível ao proclamar a livre e soberana iniciativa de Deus. A experiência do sagrado mesmo como fenômeno religioso será sempre mais do que o próprio sagrado. Daí a importância de considerá-la uma experiência introdutória (propedêutica) da experiência de fé no Deus revelado como Pai/Filho/Espírito Santo. Pode-se dizer que a experiência do sagrado é como um traço de união, como um ponto de contato com a revelação, sempre que o sagrado deixe lugar à palavra de Deus e à sua prática na história.

Cabe reforçar aqui que a revelação é entendida como iniciativa da Comunidade divina relacionada, e como graça e dom de Deus Pai/Filho/Espírito Santo. No contexto dó cristianismo, a experiência do sagrado pode chegar a uma experiência de fé que vem ligada a uma iniciativa divina, irredutível à ordem natural. Essa experiência se faz a partir da palavra de Deus revelada, a qual vê e interpreta os fatos do nosso tempo presente em vista do futuro definitivo. É uma experiência que julga tais fatos à luz da palavra, purifica a nossa vida na sacralidade cristã, que tem sua continuidade na Tradição, na Sagrada Escritura e na longa caminhada da Igreja.

Nesse processo, a experiência do sagrado, não só como fenômeno humano, mas também como experiência de fé cristã, leva cada pessoa a criar uma estrutura espiritual que lhe dá a coragem e a força de levar a cabo, na própria vida e na missão que realiza, uma prática anunciadora de vida, sem medo das consequências reais advindas de tal palavra e de tal testemunho.

IV. O sagrado e o feminino: um fenômeno humano

Como dissemos, o sagrado é um fenômeno humano que, a partir do seu próprio universo simbólico, leva a pessoa a projetar tudo aquilo que diz respeito a si própria, aquilo que é mais próximo a ela mesma e que, ao mesmo tempo, não sabe explicar. Por essa razão, o sagrado não lhe é disponível, isto é, a pessoa não sabe dispor de respostas para as questões que ele levanta, e a inquietam, como: o problema do nascimento, da vida e do sentido da vida, o mistério que envolve a morte e a vida que segue depois.

Diante de tais interrogações, a fisionomia do sagrado assume, para essas pessoas, qualquer símbolo integrante que, de modo temático ou atemático, lhes assegure uma orientação de fundo na vida que vá além da própria vida. Dentro desse universo a pessoa dá sentido ao ritmo da sua caminhada humana e encontra força para continuar na luta por um estágio de vida superior e menos rudimentar do que vive no presente.

Essa concepção dá base para que cada qual orquestre a música de sua própria vida a partir de um ponto de referência vital que dá a possibilidade de fazer uma leitura do cotidiano, sempre a partir de um ponto vital ou temático. Significa dizer que a pessoa tematiza a leitura feita a partir do cotidiano, dando-lhe um ponto de referência central, que pode ser um acontecimento da vida que marcou esta pessoa ou outro motivo de profunda significação.

Trata-se aqui de evidenciar a realidade concreta do feminino que marca o ritual do sagrado, pois este sagrado é real por excelência. Dentro desta concepção, a realidade do divino, do absoluto, do sentido maior, está constituída desde as suas origens, isto é, desde o universo religioso que envolve o feminino não só da mulher, mas do homem que a seu modo faz esta experiência. É como se fosse uma força sacramental considerada criadora do universo, força que deve ser cultuada e obedecida. O sagrado, então, pode-se apresentar envolvido numa aura intocável e inacessível, mas sempre na sua expressão autêntica e envolvente do feminino da mulher e do feminino latente no homem.

Esse aspecto é representado por um corpo de conhecimentos apreendidos e assimilados na própria vida. Essas pessoas aprenderam da vida a adquirir a verdadeira sabedoria a partir de um simbolismo subjacente à consciência humana. De modo especial nos nossos dias, o sagrado irrompe com exuberância e até mesmo com sedução, não só nos lugares considerados sagrados, mas também nos que superam a fronteira do sagrado e entram na esfera do chamado profano.

1. Do sagrado à experiência religiosa no cotidiano

O sagrado como fenômeno humano pode vir a ser uma experiência religiosa, que na mentalidade contemporânea assume função privilegiada e distinta; exprime, sim, a experiência de uma transcendência, mas sem nome. Essa transcendência nem sempre se põe em nível de relação madura de reciprocidade do eu-Tu, mas exprime antes o sentimento de potência e de onipresença latente e flutuante, da qual a pessoa faz a experiência na sua profundidade humana, sem contudo assumir e viver uma opção de fundo.

Percebe-se hoje que, no âmbito da experiência religiosa, as pessoas preferem uma aproximação ao sagrado, sem que este lhes faça exigências ou lhes apresente compromissos. Essas pessoas vivem fundamentalmente na indecisão diante da divindade, especialmente diante do Deus pessoal do cristianismo, que as interpela a partir da realidade. Pois a nossa é uma realidade que exige transformação para ser libertada: sabemos que a criação inteira (= realidade humana e cósmica) geme e sofre as dores de parto, e não somente ela, mas também nós gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo e de toda a criação (cf. Rm 8,18-23). Tal experiência é abrangente, profunda e pessoal, pois não basta a disponibilidade à divindade, torna-se urgente concretizar no dia a dia da vida, responder aos desafios que irrompem de uma experiência sagrada e religiosa ao mesmo tempo.

Desse modo, a relação instaurada do sagrado com a experiência religiosa é determinante para que o fascínio do sagrado não fique apenas no entusiasmo inicial, mas se torne vida robusta e vida que presta o verdadeiro culto à divindade, através do testemunho dado por uma prática libertadora das situações de morte em vista de melhores condições de vida humana. No âmbito do sagrado a experiência religiosa não pode permanecer separada ou ser conectada somente de maneira artificiosa, pois esta conexão é decisiva tanto para o sagrado quanto para a concepção da vida religiosa considerada na sua prática anunciadora/libertadora.

Para a relação fundamental do sagrado com a experiência religiosa é determinante o cultivo de uma prática libertadora, a qual desemboque na vida cotidiana com a bondade natural das coisas, bondade que é própria desta prática. Aquilo que celebramos no âmbito do sagrado se relaciona à vida cotidiana; e a conduta cotidiana se relaciona com a experiência do sagrado que se expressa no rito e no culto. Todas as obras de quem experimenta e vive o sagrado como dimensão religiosa devem tornar-se visíveis e tomar forma concreta na sociedade. Só assim tais obras apontam para a construção da dignidade da vida humana empapada de vida transcendental. A vida de cada pessoa pode ser uma ação ritual e cultual continuada. Através do sagrado, o rito e o culto remetem à contemplação e à mística com os olhos abertos para a realidade.

2. Do sagrado à experiência salvífica

Dentro do universo cultural cristão, o sagrado que povoa a consciência das multidões dos nossos dias parece apresentar certa desilusão com os mitos da ciência e da técnica. Essas multidões ficam desorientadas pelas propostas banais que lhes são feitas, sendo “empurradas” por uma necessidade nova de recuperar a integridade, a identidade e a centralidade vital de sua existência. Sentem a necessidade de buscar o transcendente, o absoluto que salva.

Mesmo dentro dessa compreensão, parece que o sagrado e a prática de uma religião permanecem ainda dimensões de um sagrado e de um religioso imanentes, isto é, uma sacralidade e uma religiosidade que está implícita nas coisas, nos mitos, nos ritos, nos símbolos, nos objetos, e são inseparáveis destes. Entra aqui a proposta que sustenta ser a fé uma exigência da mais profunda intimidade humana, embora não apreendida como dom, como graça vinda da iniciativa divina. Quando a experiência do sagrado e do religioso chega a ser uma experiência de fé, vem junto a um ideal de vida com exigências práticas. Essas práticas podem apresentar-se ofuscadas de absoluto, mas se manifestam como necessidade de ir sempre além da própria pessoa. Elas penetram sempre mais no próprio mistério humano até o ponto de a pessoa abrir-se para o grande Mistério divino.

Esta parece ser uma proposta verdadeiramente humana e integradora, porque engloba a dimensão espiritual, e, ao mesmo tempo, a dimensão salvífica. Tal proposta é embrionariamente transcendente porque supera a nossa condição de vida humana e religiosa para nos iniciar e nos desenvolver à vida do mistério de Deus, Comunidade divina, Mistério revelado e feito prática de vida em Jesus Cristo.

Em tal contexto, não é difícil descobrir muitas ambiguidades pelo fato de se registrar inumeráveis formas atuais de redescoberta e de retorno ao sagrado e ao religioso. O salvífico, de fato, poderia aparecer somente como uma desafeição global a respeito das condições da vida moderna. E o sagrado e o religioso poderiam ser buscados nas transgressões possíveis das condições da vida atual. Por isso não nos devemos admirar se a experiência do sagrado e do religioso, no curso da história, deu lugar a extremos opostos: por um lado criou as belas e grandes obras artísticas, uma das modalidades de expressão do sagrado e do religioso, por outro lado, gerou tremendos fanatismos.

3. Do sagrado à prática evangélica

Na perspectiva cristã, o fenômeno do sagrado é entendido como uma dimensão humana, mas que pode chegar ao estágio sobrenatural da vida, transcendendo-a. O fenômeno humano do sagrado exprime o sentimento de temor religioso, o respeito pela presença da divindade e o estupor com o qual é tomada a pessoa que entra em contato com o divino. Em uma rápida leitura feita hoje a partir das expressões de culto, de rito, de gestos, de danças e de vestes que caracterizam o fenômeno da sede do sagrado, não se pode ignorar o fato de que ele está sendo um centro que aglutina multidões, as quais pouco ou nunca frequentam a igreja, não participam da vida da paróquia ou de outra comunidade de fé. Tudo indica que essas pessoas, tomadas pela alegria exuberante, pelo deslumbramento e também pela redescoberta da fé, buscam entusiasmadas um espaço para darem sua mensagem cristã ou não cristã, através dos meios de comunicação.

Cabe lembrar que esse pode ser um bom início, mas não basta, nem é tudo para a vocação-missão da pessoa que se confessa cristã, e nem mesmo para o próprio cristianismo. Precisamos avançar na concretização da missão histórica que temos como chamado divino. Precisamos assumir o compromisso de realizar projetos concretos de transformação: da nossa miséria e exclusão em vida humana; do nosso empobrecimento e injustiça social e religiosa; da nossa frágil fé em obras que libertem o coração humano do egoísmo; das estruturas de pecado em infraestruturas de serviço solidário.

A partir dessa tomada de consciência, passa-se para um nível de integração da experiência do sagrado e do religioso, que se constituem em prática evangélica integradora, solidária e gratuita.

Não obstante os perigos e as ambiguidades a que se pode incorrer em tal processo não se quer desvalorizar ou subestimar o valor da experiência do sagrado. Mas como fenômeno profundamente antropológico e cultural que é, deve ser considerado um meio de crescimento na fé-vida e no compromisso que esta fé exige de cada pessoa e de toda a comunidade humana. E não só, mas deve levar-nos a fazer uma leitura mais profunda, abrangente e integradora deste fenômeno. Por ser profundamente radicado na consciência contemporânea, o sagrado que leva a uma experiência de fé comprometida, ainda se configura como a experiência de uma lacuna e de um vazio interior.

É urgente caminhar mais nessa direção e crescer numa experiência de Deus feita na gratuidade. O dom vem dele, e a iniciativa de chegar a cada um de nós cabe ao Senhor da Vida e da História. E disso pouco experimentamos na história que vivemos e que vemos retratada nos grandes meios de comunicação.

V. Proposta cristã inclusiva e o fascínio do sagrado

Falar de proposta cristã inclusiva é expressar-se de maneira a abranger na reflexão e na prática mulher e homem. Não só a mulher é responsável pela construção da história da salvação, nem só o homem. Mas homem e mulher caminham ombro a ombro na construção da história salvífica de todos os povos. Falar de proposta cristã inclusiva é falar de fé, é conscientizar o sentido que descobrimos na vida, é professar explicitamente a bondade natural das coisas, é aceitar que o sentido maior da vida humana como um todo se fez pequeno, se fez carne e armou sua tenda entre nós (cf. Jo 1,14).

A mulher e o homem que se aproximam deste Deus encarnado, adentram-se, de maneira consciente ou não, no mistério da relação do Deus humano com a sua mãe, penetram naquela relação global graças à qual uma pessoa entra em contato com os(as) outros(as). Em tal contexto relacional não só se dá a encarnação de Deus, mas descobre-se a seguir o contexto da Visitação (cf. Lc 1,39-45).

A proposta cristã nada acrescenta a esse grande evento da graça divina, da revelação do grande segredo do Pai desde os tempos mais remotos, evento que se realizou dentro da nossa condição de fraqueza humana. A partir desta condição, Jesus santifica toda a existência e nos presenteia com uma relação com seu Pai e de seu Pai para conosco, seja no lugar sacro, seja no lugar profano.

1. O encontro e o sagrado

A não visibilidade pública de Maria de Nazaré e de Isabel de Ain Karem — cidade natal de João Batista — é a condição das mulheres da época. As duas estão fazendo a experiência de serem mães. O que é válido para a dimensão espiritual, já o é na dimensão humana. Como toda criança concebida necessita de cuidados, igualmente Jesus precisa ser acarinhado, protegido e nutrido pelo sangue de sua mãe. Jesus entra em contato com o mundo e a criação a partir da relação que tem com sua mãe.

Isabel, por sua vez, também vive a experiência da maternidade, está consciente e sabe que a relação mais forte e íntima que o ser humano pode ter com um outro é o de ser mãe. Por isso pode alegrar-se profundamente da condição em que vive Maria. De fato, a primeira exclamação de Isabel é um louvor à maternidade de Maria. Este gerar a vida que a maternidade torna viável é sinal de um chamado universal a sermos mães e pais. Por parte de cada mulher e de cada homem é necessário reconciliar-se com a feminilidade, ou melhor, com o feminino que carrega dentro de si, sem temer desenvolver as dimensões maternas da psique, mas antes sentindo-se filhos de uma corrente humana que atinge mulher e homem através dos nossos pais, e em particular através da mãe, de quem se deve reconhecer um primado em relação à vida humana.

Para compreender o encontro dessas duas mulheres, torna-se necessário trazer à mente a iconografia cristã que representa a cena do encontro. Esses quadros indicam, por meio da simplicidade e da atmosfera da cotidianidade das formas, a experiência de um Deus presente, capaz de se fazer sentir e reconhecer na esfera ordinária do dia a dia das mulheres que visibilizam o seu feminino a partir da vida humana no recinto sagrado do doméstico.

Esse Deus que as duas visibilizam pela experiência do encontro fora da esfera do templo e do público é um Deus que chega às pessoas abertas sem a pompa do sagrado, sem os gestos ritualizados e sem as insígnias do poder real. A cena dessas mulheres guarda as formas simples da pureza e da laicidade como estilo de vida cristã para a grande maioria do nosso povo, sobretudo no ambiente em que predomina a pessoa empobrecida e excluída do sistema e da nossa realidade sociorreligiosa latino-americana e caribenha.

Como se vê, essa relação não se dá apenas no lugar sagrado do templo, do monte santo ou em Jerusalém, mas em todo lugar e em todo tempo nos quais o coração humano se abre e se coloca diante de Deus.

2. A samaritana e a sede de água

Jesus libertou o lugar sagrado do templo e de seus limites quando diz claramente à mulher samaritana que é chegada a hora de adorar o Pai em espírito e verdade em todo lugar, pois pessoas assim são as que o Pai procura. Mulheres e homens devem adorar o Pai em espírito e verdade, sem que haja lugar específico para isso (cf. Jo 4,21-24). O verdadeiro templo é Jesus mesmo (cf. Jo 2,21) e cada um de nós pode ser templo do Jesus glorioso, pode ser templo de Deus (cf. lCor 3,16-17) pela força do Espírito Santo.

Com essa atitude Jesus liberta a raça humana das ambiguidades geradas pela nossa concepção de mulher e de homem, de tentação e de salvação, de bom e de mau, de sagrado e de profano, de santo e de pecador, de bem e de mal. Nessa nova atitude que nos é proposta, trata-se de deixar-nos transformar interiormente para que possamos testemunhar o verdadeiro “rosto” do Deus Comunidade de Amor e aguardar com jovialidade e alegria a iminência de sua intervenção salvadora, “rosto” revelado pelo feminino da mulher e pelo feminino do homem, reconciliados.

O encontro de Jesus com a samaritana é, por si mesmo, significativo pela novidade que apresenta: é o feminino de Jesus que se revela ao feminino da samaritana. Ela corre à cidade anunciando a todos que seria o Cristo o homem com quem havia falado e com essa sua notícia movimenta o povo para ir vê-lo. A samaritana faz do serviço óbvio da vida domestica, em um espaço tipicamente doméstico, um lugar sagrado, pois neste lugar anuncia o que tem de mais sagrado, a pessoa de Jesus, o Messias prometido. Ela torna-se assim o sujeito de um momento sagrado que busca neste sagrado a verdade não circunscrita ao templo de Jerusalém, nem mesmo aos templos dos samaritanos, mas busca a verdade que irrompe do seu íntimo, da sua razão e do seu sentimento mais profundo como pessoa humana que manifesta publicamente a dinâmica do seu feminino e do seu ser mulher.

Jesus, por sua vez, diz aos discípulos, os quais insistem para que ele se alimente, que tem um alimento diferente do oferecido por eles: fazer a vontade daquele que o enviou e consumar sua obra (cf. Jo 4,34). Não no templo, nem na sinagoga, mas junto àquela fonte Jesus faz a vontade do Pai, e a samaritana testemunha a “inauguração” desta vontade com a sua palavra; e desse modo os dois sacralizam o diálogo aberto e franco, a fonte e a água, o cântaro e o caminho percorrido, assim como o ambiente doméstico vivido por aquela população que acredita na palavra proclamada pela samaritana e na pessoa de Jesus sentado junto à fonte.

São pessoas como a samaritana as que acolhem a novidade do Messias: sempre a partir da exclusão em que vivem e fora dos jogos do prestígio humano, A samaritana torna-se aqui administradora inteligente de um segredo que Jesus ainda não havia revelado. Mas ela intui com a mente e o coração, e se associa imediatamente à obra evangelizadora. Aos olhos de Jesus e dessa mulher o aparato sacral é superado com a verdade de um Deus que se revela para além do sagrado. Parece um paradoxo que uma mulher possa logo perceber e receber o dom por meio do qual, através mesmo da de-sacralização que Jesus opera das coisas de Deus, é possível reconhecer a santidade do Messias esperado.

Parte II

VI. O sagrado e a santidade na Sagrada Escritura

Para introduzir a segunda parte deste artigo, iniciado em número passado desta revista (pp. 13-18), fazemos duas considerações. A primeira é referente ao espaço sagrado. Este é um espaço dedicado e consagrado ao sacro. É qualitativamente diferente dos demais espaços. Quando Moisés quis aproximar-se da sarça ardente, Javé o chamou e disse-lhe: “Não te aproximes daqui; tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (é lugar sagrado) (cf. Ex 3,5). Todo espaço no qual se dá uma irrupção do sagrado torna-se um espaço consagrado à divindade. O sonho de Jacó no qual viu a escada que se erguia da terra até o céu (cf. Gn 28,12-19), tem um simbolismo muito forte porque indica a sacralidade daquele lugar, que é consagrado a Javé por ser sagrado, lugar de passagem da terra para o céu.

A segunda consideração é referente à experiência religiosa da vida que tende a tornar-se cada vez mais concreta e mesclada com tudo aquilo que a pessoa pode sentir, ver, apalpar. E torna-se cada vez menos próxima da transcendência que ultrapassa a realidade concreta sem ofuscá-la ou encobri-la. No caso do povo hebreu, por exemplo, este dirigia-se a Javé só depois de haver sofrido sérias derrotas históricas (cf. 1Sm 12,10).

Tanto o povo hebreu como outros povos mais antigos, ao descobrirem a sacralidade da vida humana, deixaram-se arrastar por alienante e ingênuo entusiasmo, distanciando-se daquela sacralidade que transcendia suas necessidades imediatas e cotidianas. Consequentemente, distanciaram-se da origem do sagrado que nasce da santidade de Javé e que se dá na vida humana, sim, mas plenifica-se na aceitação de Deus e seu mistério, reconhecendo que este sagrado é impronunciável. Ver-se-á agora como a proposta cristã inclusiva se dá no Antigo e no Novo Testamento.

1. Antes de Jesus

Os escritos bíblicos do AT mostram que não existe uma noção abstrata do sagrado, nem uma teoria relativa ao sagrado. Este vem sempre colocado em relação com Javé, o Deus de Israel. Para os autores que, sob inspiração divina, escreveram os Livros que chamamos de Sagrada Escritura, acentuam-se alguns elementos sagrados, que, com o passar dos séculos e dos milênios, passam a ser considerados como elementos não só sagrados, mas santos, porque criam para as pessoas condições de santidade. Há nos escritos do AT certa abundância de determinações que distinguem a esfera sagrada da profana, sobretudo quando se fala dos sacerdotes do templo. Sabe-se que era função dos sacerdotes delimitar e proteger a esfera do sagrado. Na lei de santidade (Lv 17-26) encontramos claras determinações sobre o sacro. Por exemplo, todo o povo de Israel é sagrado (Lv 19,2), os sacerdotes, os sacrifícios e as festas são santos (Lv 17-23).

Os escritores vétero-testamentários situam o sagrado no contexto da transcendência de Deus. Uma das expressões fortes dessa transcendência é encontrada no capítulo 6 do Livro de Isaías quando este fala de sua vocação, do chamado que Javé lhe faz. O profeta descreve a revelação da santidade de Deus por ele mesmo e pelo seu nome. Diz o profeta: “Vi o Senhor sentado sobre um trono e acima dele, em pé, os serafins que clamavam uns para os outros e diziam Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos, a sua glória enche toda a terra” (cf. Is 6,1-3). Compreende-se aqui que o verdadeiro sagrado é aquele que nós não somos capazes de pronunciar, e tudo o que era sagrado ao povo hebraico se relacionava com Javé. Por isso Javé é o Santo, Santo, Santo.

Encontramos críticas dos profetas às delimitações feitas entre o sagrado e o profano. Essas críticas são feitas em duas direções: a primeira expressa a esperança de que chegará o tempo em que o universo inteiro será sagrado. Zacarias prevê uma sacralização de todas as coisas em Israel: Algum dia serão santos não só o templo, mas também os objetos da vida cotidiana, e não haverá mais nenhum vendedor na casa de Javé (cf. Zc 14,21).

Os contemporâneos do tempo do profeta Amós acreditavam encontrar Deus nos santuários de Betel, Guilgal e Bersabeia. Fora dessa esfera sagrada não se preocupavam mais com nada que fosse referente à vontade de Javé. O profeta lhes grita: Procurai-me e vivereis! Não procureis Betel, não entreis em Guilgal e não passeis por Bersabeia. Procurai a Javé e vivereis (cf. Am 5,4-6). Buscar a Deus não significa obrigatoriamente imergir na esfera do sagrado, mas praticar o bem e evitar a injustiça que é o mal. Trata-se de seguir com fidelidade os ensinamentos de Javé e não esquecê-los, mas viver de acordo com o pacto feito com ele, pois a vontade de Javé se encontra em todas as partes.

A segunda crítica que os profetas fazem afirma que a santidade é encontrada só em Deus e considera tudo o resto como profano. Jeremias combate seus contemporâneos criticando a autossegurança com que proclamam a presença de Javé no templo, embora depois, fora dele, esquecessem dos preceitos do Senhor. Diz Jeremias: “Não vos fieis em palavras mentirosas proclamando: ‘Este é o Templo de Javé, Templo de Javé, Templo de Javé!’” (Jr 7,14). A vontade do Senhor se encontra em todas as partes, também na esfera profana. Toda a vida deve ser sagrada e santa, não somente para algumas pessoas, lugares, objetos e templos. Como o AT, o NT também afirma que só Deus é santo, mas as suas criaturas e toda a criação são santificadas por ele.

A “lei de santidade”, já referida, pede: “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2). Não quer dizer que a santidade de Deus seja comparada à nossa. Fala-se de Deus que é santo; as pessoas humanas devem tornar-se santas. A partir do dia em que cada um de nós alcançar o temor de Deus, recebendo dele a doutrina, pondo a nossa liberdade entre as suas mãos, e o tivermos feito com sinceridade, todos seremos santos. Mas precisa reconhecer que somos pessoas santas santificadas. Porque só Deus é verdadeiramente sempre santo.

Como se vê, o AT afirma a revelação da santidade de Deus. Depois da Aliança, esta santidade é compartilhada com o povo eleito. A Arca da Aliança é o sinal tangível disso. Essa compreensão é vivida pelos autores do NT que fazem uma opção pela palavra SANTO. Com essa palavra qualificam Deus Pai, Jesus Filho e o Espírito Santo; qualificam os bens messiânicos, a Igreja-Povo, o culto, os cristãos. A palavra santo (em hebraico qados, traduzida para o grego hágios), não pode ser confundida com a palavra sagrado (em grego hierós). O fundamento que realiza a unidade do Pai-Filho/Espírito Santo é a SANTIDADE, que qualifica a Igreja-Povo e os fiéis imersos na santidade realizada pela mediação de Cristo. O sagrado cristão, portanto, neste caso, é o sagrado do Deus vivente que se faz presente nesta única e irrepetível mediação, a de Jesus Cristo, o Messias revelador do Pai e do seu Projeto.

Como antes de Jesus, no tempo dele e depois dele os escritos sagrados afirmam que só Deus é SANTO. E as suas criaturas, como toda a criação, são santificadas por Deus em Jesus Cristo no derramamento do Espírito Santo.

2. Depois de Jesus

Se passarmos a considerar um pouco mais detalhadamente o ambiente neotestamentário, salta imediatamente aos olhos que só raramente Deus é definido como SANTO. Como tudo aquilo que se relaciona com Deus é santo, por ser ele o santo por excelência, Jesus é o santo de Deus, o qual lhe pertence por filiação divina e por sua eleição messiânica. O Messias tem a missão de redimir e de santificar. É dessa missão messiânica que deriva o sagrado cultual. Este se coloca em estreita relação com o sagrado transcendente, que estabelece um equilíbrio entre o mistério de Jesus Cristo e o seu profundo sentido, entre o sagrado e os símbolos sem domesticar o sagrado cultual. Pode-se atestar tal afirmação percorrendo rapidamente os textos principais de alguns autores do NT. Aqui encontramos a palavra sagrado sempre colocada em relação com Deus que se revela em Jesus Cristo pelo Espírito Santo.

Os escritores do NT apresentam Jesus comportando-se com liberdade de espírito diante das coisas e das pessoas consideradas sagradas pelos rabinos daquele tempo. A divisão entre o sagrado e o profano era e continua sendo uma concepção humana. Jesus vai além disso, como fez com o sagrado do templo, das pessoas, das prescrições alimentares, e nada o separa deste mundo ordinário. Ele coloca o sagrado em relação com Deus e acentua nele a presença do Deus santo (gr. hágios). Todas as delimitações entre sagrado e profano são transitórias.

A) Nos sinóticos

Para a concepção de santidade do ponto de vista dos sinóticos, é preferível o emprego da expressão Espírito Santo, o dom da era messiânica, sempre nos referindo à santidade de Deus, o santo por excelência, e a Jesus, o santo de Deus por filiação divina. Por isso, o campo específico do sagrado e do religioso, no NT, não é o culto, mas o profetismo. O sagrado não está mais nas coisas ou em determinados lugares e ritos, está nas manifestações produzidas pelo Espírito. Como a profecia não se aplica bem às exigências de uma consciência unitária, mais tarde se recorre à ideia de sacerdócio santo, o sacerdócio real de todos os santos, isto é, dos cristãos, homens e mulheres que vivem sua fé. Assiste-se, assim, já na antiga Igreja, a certa retomada do conceito de santidade sacro-cultual.

• Em Marcos

Encontra-se no evangelista Marcos a citação 1,24 no contexto do ministério de Jesus na Galileia, mais especificamente em Cafarnaum. Jesus está ensinando naquela sinagoga e, diante de seus ouvintes, cura um homem tomado pelo demônio, que se apresenta a ele. O espírito impuro que habita esse homem, vendo-se superado pela ordem de Jesus, sacode o pobre e grita contra Jesus: “Sei quem tu és: o Santo de Deus” (cf. Mc 1,24). O espírito impuro representava, para os cristãos do século I do cristianismo, os demônios e as forças misteriosas e hostis ao bem, isto é, a Deus.

Esta é a primeira ação poderosa de Jesus, pois ele não só fala com autoridade, mas também age com poder (cf. Mc 1,22). O poder de Jesus enfrenta a astúcia e o desafio do demônio, que tenta impedir a missão do Filho de Deus. A sua palavra é sumamente mais eficaz do que o mal: o espírito impuro sai derrotado na sua tentativa e o homem se liberta porque a palavra e a santidade de Jesus realizam aquilo que, no seu mistério profundo, são de fato.

• Em Mateus e Lucas

Dentre as várias e paralelas citações apresentadas por estes dois evangelistas, Mateus e Lucas, preferimos considerar apenas algumas, com o intuito de ilustrar brevemente o ensinamento e os gestos libertadores de Jesus, no contexto sagrado de seu tempo e de seus contemporâneos. Cabe esclarecer que Lucas terá uma apresentação pouco mais extensa pelo fato de levar em conta o evangelho da infância, no qual a atuação do Espírito de Deus que santifica é colocado com maior destaque.

No contexto da Anunciação do Senhor a Maria de Nazaré, a mulher do povo da pequena cidade do interior da Galileia, o evangelista coloca na boca do Anjo Gabriel — a teofania de Deus ou a manifestação de Deus, em diálogo com a jovem Maria —, estas palavras: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra; por isso, o SANTO que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). A palavra SANTO designa seja o Espírito Santo, seja o futuro filho de Maria. A santidade de Deus está presente como essência no Filho que nascerá. Ele é o Santo de Deus (cf. Lc 4,3-4).

Ainda em Lucas, Jesus Cristo é constituído pelo Espírito Santo, na sua função de Messias e o constatamos quando o evangelista põe na boca de Jesus as seguintes palavras de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque ele me ungiu” (cf. Is 61,1; Lc 4,18), palavras que apresentam ao povo que se encontrava na sinagoga de Nazaré o seu Projeto messiânico. O Santo é sempre uma força que santifica. O sentido desta palavra em Lucas é particularmente carregado de significação, palavra mediante a qual o evangelista se opõe ao espírito natural e ao espírito demoníaco.

Na única oração de súplica ensinada por Jesus, a conhecida Oração do Senhor ou o Pai-nosso, mais do que informar Deus de alguma situação, expressa nossa dependência e nossa fé. Essa oração mostra que o nome divino revela a santidade sob um aspecto pessoal: Deus manifesta a sua santidade por meio do seu nome. “Pai-nosso que estás nos céus, santificado seja o teu Nome” (Mt 6,9). É uma oração que mostra como se deve rezar ao Deus três vezes SANTO, conforme o triságio do profeta Isaías (cf. Is 6,1-3).

A versão de Lucas, talvez, seja a mais antiga e a mais curta, e o seu contexto é marcado por um tempo de oração. Precedem os episódios da oração do bom samaritano ao fundo do templo (cf. Lc 10,25-37), e a contemplação de Maria aos pés de Jesus na casa de Marta (cf. Lc 10,38-42). Segue-se, então, Jesus ensinando aos discípulos a rezar (cf. Lc 11,1-13). O objetivo é destacar o versículo seguinte: “Pai, santificado seja o teu Nome; venha o teu Reino” (Lc 11,2). As duas citações mostram que o nome divino revela a santidade divina a que somos chamados.

Existe uma relação direta entre a santidade e a filiação divina da qual participamos por meio da humanidade e da santidade de Jesus, o Senhor que nos doou o Espírito Santo, ou melhor, o Espírito que nos impulsiona a fazer passo a passo o caminho da santidade, a mesma santidade de Jesus, porque Jesus é o SANTO.

B) No evangelho de João

O evangelista João, quando relata a última oração de Jesus pouco antes de sua paixão e morte, coloca-lhe na boca esta súplica, na qual sublinha a santidade de seu Pai: “Já não estou no mundo; mas eles permanecem no mundo e eu volto a ti. Pai santo, guarda-os em teu nome que me deste, para que sejam um como nós” (Jo 17,11).

Jesus se dirige ao Pai chamando-o de Pai santo. Ele aqui quer falar da essência mais essencial de Deus, seu Pai e nosso Pai. Ele quer designar a própria essência de Deus e coloca como fundamento desta essência a santidade que une o Pai com o Filho pela força do Espírito. É desta santidade que todos os batizados participam e nela se encontra o fundamento da santificação de todas as pessoas chamadas por Deus na construção do seu Projeto salvífico.

C) Nos Atos dos Apóstolos

Encontra-se aqui a atuação de Jesus na linha messiânica. Tais textos insistem mais sobre a missão de Jesus como Redentor que sobre a sua origem divina. É dessa missão messiânica que deriva o sagrado cultual, que permanece em estreita relação com o sagrado transcendente. As citações que seguem abrem as nossas consciências para a compreensão verdadeira e célere dessa missão messiânica de Jesus.

Os Atos nos mostram ainda a comunidade de Jerusalém transbordando de Espírito Santo. É a imagem do povo radicado na santidade de Deus, povo fundado por Cristo e animado pelo Espírito Santo. É o povo santo, a raça eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo da particular propriedade de Deus (cf. 1Pd 2,9). O primeiro papa da Igreja fala aqui de um novo sacerdócio. Os apóstolos e os discípulos insistem na santidade e no sagrado. O sagrado, neste caso, não é nem tabu (aquilo que tem caráter supostamente “sagrado”), nem proibição, mas provém da presença atuante de Deus, da revelação que Jesus faz do Pai e seu Projeto, e do gesto de Jesus Cristo, que realiza as obras de misericórdia no Espírito Santo.

Graças à presença do Espírito, não existe mais nem sagrado nem profano, como não existe mais judeu nem grego: todos os que creem são santos no Cristo Jesus. Tudo, portanto, pode se tornar santo (gr. hágios).

D) No Livro do Apocalipse

Para os povos cristãos, o Livro do Apocalipse fala que Deus é proclamado, dia e noite sem parar, como Santo, Santo, Santo, Senhor, Deus todo-poderoso, “Aquele-que-era, Aquele-que-é e Aquele-que-vem” (cf. Ap 4,8). O sagrado aparece como a natureza de Deus e a atribuição da sua potência e eternidade. É o canto da transcendência de Deus enquanto Comunidade divina que se relaciona com as pessoas identificadas com a santidade que nasce do contato profundo de um eu com o TU eterno e verdadeiro. E com esses qualificativos que os primeiros mártires, imolados por causa da Palavra de Deus e do testemunho que dela prestam, clamam por Deus: “Até quando, Ó Senhor santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?” (Ap 6,11), No Apocalipse o sagrado cultual está presente em tudo, e a santidade é vista numa ótica escatológica.

Trata-se de caminhar pelo caminho feito por Jesus sem opor o sagrado ao profano. Nesse sagrado que é messiânico temos, antes de tudo, o sagrado substancial que é o corpo do Cristo, corpo eucarístico, corpo místico. A seguir temos o sagrado dos sinais, o qual participa do sagrado substancial que são os sacramentos, sinais eficazes da economia da salvação. Pode-se falar também do sagrado pedagógico constituído de um conjunto de sinais que permitem a realização do processo da história da salvação em uma relação de reciprocidade que se dá entre a Comunidade divina e a pessoa humana. São elementos desse sagrado as palavras, os gestos, os lugares, os tempos e as festas.

VII. Conclusão

1. Tentativa de uma leitura teológico-pastoral

A experiência verdadeira do sagrado exige uma vida coerente. A norma social e a justiça social não são separáveis do louvor devido a Deus. O estudo etimológico da palavra sagrado demonstra que o seu significado tem origem nos aspectos da vida prática. Aquilo que se vem percebendo hoje é que, quanto mais o evangelho penetra na linguagem cotidiana, mais esse conceito vai progressivamente se restringindo, até o ponto de reduzir-se ao âmbito puramente “eclesiástico”, separado do mundo.

Em se tomando consciência dessa situação, é inderrogável para a Igreja cristã o dever de resgatar a forma de vida inspirada na fé. Não na fé-gueto em que era e continua sendo confinada. Mas recuperá-la de forma que possa ter sua expressão própria e inteligível, por meio da qual se possa compreender que esta fé não pode se reduzir a um comportamento religioso limitado à oração e à observância de costumes cultuais. Trata-se de fé compromissada com as exigências do Reino. Deve antes aparecer claro que o evangelho exige que sejamos testemunhas dentro das dimensões concretas da vida, mediante as práticas deste mundo, para atestar a presença do Espírito Santo, lá onde as pessoas estão comprometidas com as grandes e pequenas decisões de cada dia. Resumindo: ultrapassar o “dito” profano para entrar na esfera do Deus revelado como Comunidade de Amor, seja no templo como fora deste.

2. A necessidade do sagrado hoje

A necessidade de oferecer a imagem de um sagrado inculturado em um mundo em tantas dimensões desumanas e pagãs não pode reduzir-se a uma simples abertura a este mundo do jeito que ele é e se apresenta, a um puro amoldamento ou “aggiornamento” de conceitos e palavras; nem limitar-se a conhecer os meios de comunicação, sobretudo quando se trata de dar o anúncio libertador, em meio aos desafios da nossa realidade representada pelo clamor das massas oprimidas e pelos gemidos prolongados das massas excluídas. Mas este sagrado que é o santo e a santidade da vida e de toda criação, deve concretizar-se na solidariedade que participa da vida e do sofrimento dos outros, carrega o peso que acabrunha tantos dos nossos irmãos e irmãs, e neutraliza tanta violência, tanto escândalo de corrupção pública, tanta política vergonhosa e mesquinha.

O discipulado não se subtrai às amarras com o seu tempo, mas, imerso nele — sempre que a sua fé traga fruto —, tornará visível a todos que quem segue a Cristo conhece outro fundamento e outra orientação, a de conseguir a liberdade das leis, aparentemente imutáveis, e desmantelar as forças sociais e estruturais que oprimem e empobrecem dois terços da humanidade. A pessoa que experimenta o sagrado na fé cristã tem uma pátria, tem raízes, pensa de maneira histórica, não é vítima do momento efêmero, vê as conexões que têm que ver com a vida e o mundo e acredita nos processos históricos que evoluem para a construção do Reino, na miscigenação da história humana.

3. A profecia feminina

Para a mulher de fé, o fascínio do sagrado na ótica feminina não é visto nem interpretado fora de uma proposta transcendente que o fundamenta. Se tal fascínio começa como fenômeno humano, a profecia referente à mulher é a da reciprocidade lógica, a da alteridade humana e a do encontro interpessoal. Tudo isso implica a superação da conflitualidade relacional, desafio nodal e irrenunciável na transição cultural de hoje. Esta tentativa de resposta se dá na diversidade reconciliada e pode tornar-se o paradigma projetual antropológico, sociopolítico e eclesial.

Fonte: I Parte: Vida Pastoral – II Parte: Vida Pastoral

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