Clericalismo – o vírus que mata as CEBs

Já faz em certo tempo que fui assessorar uma diocese numa Semana Teológica sobre “Leitura Popular da Bíblia e as CEBs”. Havia muita gente, entre leigos e padres, contando com a presença do bispo ao longo de toda a semana. No final, como sempre acontece quando há oportunidade, faço uma avaliação do encontro com o bispo. Ele foi muito positivo, animador e fez uma boa avaliação. Depois de muitas falas, parou um pouco e disse “mas…”. Mas é uma palavra meio perigosa, que deve ser dita com cuidado. Afinal, tudo o que é dito depois dela anula tudo o que foi dito antes dela. O bispo conclui assim a avaliação: “…mas você foi infeliz quando entrou na questão do clericalismo. Não precisava…”

O Concílio Vaticano II colocou como uma de suas grandes metas o protagonismo dos leigos e leigas. Ora, empoderar o laicato significa, obrigatoriamente, desempoderar o clero. Mas desde a Idade Média que o clero, em seus pronunciamentos, se ressente de qualquer iniciativa do laicato. Tais inciativas leigas sempre foram vistas como agressões incompreensíveis ao clero, frutos de uma má conduta por parte do rebanho. O papa Bonifácio VIII (1294-1303), numa bula reforçando o poder clerical chamada Clericis laicos, de 1296, foi bem claro: “Que os leigos sejam inimigos do clero, atesta-o em alto grau a Antiguidade e o ensinam claramente as experiências de hoje…”. Parece que ainda há bispos e padres que pensam assim.

Entende-se o clericalismo como uma ingerência excessiva do clero nos assuntos políticos de uma sociedade. Em sociedades marcadas pela Cristandade, como a nossa brasileira, é evidente o poder político exercido pelo clero católico e como este poder político teve uma nefasta influência nas relações entre clero e laicato dentro da Igreja. O domínio total do laicato garantia ao clero o poder político na sociedade. Com o fim da Cristandade, o clero buscou reforçar seu poder dentro das estruturas eclesiásticas, em detrimento da participação do laicato. As propostas eclesiais pós Vaticano II, inclusive as CEBs, deveriam clarear as responsabilidades dos leigos, uma responsabilidade apostólica fruto do batismo, nas definições pastorais, tanto numa Igreja particular quanto na Igreja universal.

Esta responsabilidade apostólica era bem evidente nas primeiras comunidades. O povo de Deus, surgido pelo batismo, sentia-se premiado por receber, inesperadamente, por pura sorte, uma “herança” (klerós). Este é o sentido quando, por exemplo, Matias é “sorteado” (kléron) para receber o lugar de Judas Iscariotes. Nesta visão, todas as comunidades de crentes se sentiam “clericais”, ou seja, afortunadas, premiadas ou sorteadas, porque se sentiam, inesperadamente, chamadas a compartilhar a “herança” (klêros) dos santos na Luz (cf. Cl 1,12). Era impensável, nestas comunidades, qualquer diferença hierárquica entre os batizados, já que toda a comunidade se sentia participante, em igualdade, deste povo premiado.

No entanto, com o crescimento e a organização ministerial dentro da Igreja, bem como as deficiências no setor de formação de catecúmenos, os detentores de determinados ministérios eclesiais começarão a exercer seus cargos dentro de uma visão nada evangélica. Entre a legalização da religião cristã e a declaração do cristianismo como religião oficial do Estado (de 313 até 397), as lideranças da Igreja começam a sentir o gosto pelo poder civil. O grande sinal da virada foi a eleição do bispo de Roma que deveria suceder ao papa Libério (366). Com o fim das perseguições, o imperador cumulou o bispo de Roma de honrarias e terras, dentro e fora da cidade. Com o aumento do patrimônio, o cargo começa a ser cobiçado. Um dos candidatos, o diácono Dâmaso, contrata um bando de assassinos para diminuir o eleitorado de seu oponente. Em três dias de massacre, cerca de 300 fiéis foram assassinados pelos milicianos a serviço do candidato. Só na atual basílica de Santa Maria Maior exatos 137 eleitores foram mortos. Dâmaso foi eleito e consagrado. Posteriormente, foi canonizado. A partir desta época, “clero” passa a significa outra coisa: agora são as lideranças eclesiásticas que exercem um poder dentro da cidade. Como ressalta González Faus, “passa-se – vejam que ironia – de um ‘povo afortunado’ para ‘os afortunados do povo’”.

Como matar este vírus? Na Evangelii Gaudium (EG 102), Francisco busca retomar as diretrizes do Vaticano II sobre a responsabilidade laical nas decisões da Igreja. O papa instrui as lideranças leigas sobre a vacina capaz de diminuir e, quem sabe?, até matar o vírus. Estes remédios são: os grupos de estudos bíblicos, as comunidades eclesiais de base e os conselhos pastorais (cf. Discurso de Francisco ao Conselho do CELAM durante a JMJ de 2013). Sobre estes remédios conversaremos futuramente.

Homenagem a um bom amigo

Enquanto escrevo esta Coluna me chega a triste notícia da partida de D. Juventino Kestering, bispo de Rondonópolis-Guiratinga, MT. Mais uma vítima da Covid-19.

Tive a alegria de trabalhar com D. Juventino por muitos anos na Comissão Pastoral Bíblico-catequética da CNBB. Creio que D. Juventino pode ser apontando com uma das maiores autoridades em Catequese da Igreja no Brasil. Seu grande legado é o Diretório Nacional de Catequese. Que nossas comunidades, fiéis a este legado, busquem sempre propor uma Catequese vivencial, fundamentada nas Escrituras.

RIP

Fonte: Portal das CEBs

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