2º Domingo da Páscoa – 11 de abril

Por Marcus Mareano

Cheios de alegria por ver o Senhor

I. INTRODUÇÃO GERAL

Imaginemos como os discípulos se encontravam após a morte do mestre Jesus! Eles tinham aprendido de Jesus, convivido, testemunhado muitas coisas e, de repente, tudo parecia terminar com uma morte de cruz: expectativas, sonhos, projetos etc. Entretanto, a morte é vencida e Jesus surpreende seus amigos em uma visita inusitada.

Os “ecos” da celebração da Vigília Pascal continuam. A proclamação da ressurreição acontece neste domingo com a cena do encontro de Jesus com os discípulos, quando estavam reunidos com portas fechadas por medo dos judeus. Faz-nos pensar nos tantos fechamentos internos que possuímos, nos medos obscuros que nos atormentam e nas ameaças que imaginamos. A visita do Senhor transforma os receios em alegria indescritível.

Se já não podemos tocar o Senhor na materialidade, como os discípulos foram convidados a fazer, podemos tocá-lo na experiência de fé por meio da liturgia. A oração ultrapassa o espaço e o tempo e, assim, participamos do mistério que ouvimos na Palavra de Deus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 4,32-35)

A primeira leitura traz o segundo dos três relatos (2,42-47; 5,12-16) do ideal da vida cristã no princípio da nossa era, o qual ainda serve de parâmetro para nós, na atualidade. Esses textos apresentam-se como “sumários”, na narrativa de Atos dos Apóstolos, para demonstrar o crescimento e a identidade dos cristãos, os quais, naquele período, eram um grupo minoritário no Império Romano.

A assiduidade no ensinamento apostólico, a comunhão fraterna, a partilha do pão e a oração em comum caracterizavam a quem seguia Jesus Cristo. A vivência da fé em Cristo provocava nova maneira de viver, diferente da dos grupos religiosos já existentes. A mensagem de Jesus atraía mais pelo entusiasmo com o qual era vivida do que por força da oratória e da argumentação. Por esse testemunho, o número dos que se convertiam aumentava e era destaque no relato de Lucas (At 2,47; 4,4; 5,14; 6,1.7; 9,31; 11,21.24; 12,24; 13,48-49; 16,5; 19,20).

Da mesma forma, séculos depois, o sonho da fraternidade universal e da partilha de bens devem permanecer como distintivo cristão na sociedade. Enfrentamos outros desafios e vivemos em outro contexto, diferentes dos do século I, porém essa leitura ensina como viver melhor a relação com as pessoas e com as coisas. Trata-se de ensinamento cristão que pode ultrapassar os âmbitos da confissão de fé e chegar a pessoas de outras religiões, para um ideal de vida comum no nosso planeta tão ameaçado.

2. II leitura (1Jo 5,1-6)

Neste e nos próximos domingos, acompanharemos, na segunda leitura, trechos da primeira carta de João, um escrito do Novo Testamento com poucas características de uma carta e mais parecido com uma meditação, destinada aos cristãos que se sentiam inseguros na relação de comunhão com Deus.

Os primeiros destinatários desse texto enfrentavam desafios para professarem a fé em Jesus e para viverem o amor fraterno. A comunidade cristã é chamada a “vencer”, por meio da fé, o mundo (representação das adversidades). A vitória se realiza no amor a Deus e ao próximo.

Quem acredita que Jesus é o Filho gerado por Deus deve amar aqueles que foram gerados por ele (irmãos). O amor a Deus se torna visível no amor ao próximo (cf. 4,21; Mt 22,37-40; Jo 14,15.21; 15,17). E o critério concreto de que amamos os filhos de Deus é que, procurando amar a Deus, observamos seus preceitos, pois Deus deu orientações precisas para amar os outros em correspondência a seu amor por nós. Assim como o Senhor nos ama, nós devemos amar.

A carta ainda recorda em que consiste o amor: “guardar os mandamentos” (v. 3), os quais, como disse Moisés a respeito dos preceitos da Antiga Aliança, “não são difíceis” (Dt 30,11). Por essa razão, quem foi gerado por Deus já venceu o mundo, e a vitória é a fé em Deus.

O texto da leitura se encerra de forma semelhante a como se iniciou: “Quem é que vence o mundo senão o que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (v. 5). Os versículos 1 e 5 formam uma “moldura” da passagem e expressam os dois termos da fé que João quis reforçar com seu Evangelho: fé em Jesus como “Messias” e “Filho de Deus” (Jo 20,31).

3. Evangelho (Jo 20,19-31)

No Evangelho deste domingo, lemos um dos tantos relatos das chamadas “aparições” do Ressuscitado à comunidade. O v. 19 descreve um pouco o estado do grupo de Jesus: eles estavam reunidos com portas fechadas por medo dos judeus – situação aguardada e comum para um grupo cujo líder foi crucificado.

Jesus vai aos discípulos e se coloca no meio deles, desejando-lhes a paz e apresentando suas mãos e seu lado como sinal de acolhida e prova de sua identidade. Aquele que fora abandonado regressa para aqueles que o abandonaram. Ele, que caminhou com os discípulos por tantas estradas, encontra-os fechados e quietos naquela sala.

Os discípulos se enchem de alegria por verem o Senhor (v. 20). A situação conflituosa e perturbadora é convertida em profunda alegria, entusiasmo, ânimo e coragem. O inverso daquilo que os discípulos sentiam, antes desse encontro com o Ressuscitado. A experiência da ressurreição de Jesus é transformadora, empolgante e arranca o ser humano da própria angústia, abrindo-o à felicidade plena e ao sentido da vida.

Ainda falando, Jesus acrescenta: “Como o Pai me enviou, também vos envio” (v. 21). Os discípulos têm a tarefa de anunciar e testemunhar aquela experiência de paz que lhes converteu o coração. Doravante, a intrepidez, a ousadia e o destemor devem caracterizar a nova postura de vida e a proclamação da ressurreição de Jesus, que apresenta também suas chagas glorificadas como sua identificação e registro de sua entrega amorosa a Deus e à humanidade. Tamanha graça aquela que os discípulos tinham, que não podiam retê-la para si mesmos. Eles são enviados para transmiti-la, a fim de também converterem os medos e as mortes em destemor e vida nova.

Para isso, os discípulos recebem o Espírito Santo, continuando a missão de Jesus Cristo, proclamando e realizando o que foi sua missão: o perdão dos pecados (v. 23). Testemunhar o Ressuscitado significa viver impelido pelo Espírito de Deus, que foi soprado sobre todos, dando-nos vida nova, plena e em comunhão definitiva com Deus.

A segunda parte do Evangelho deste dia apresenta a experiência de Tomé (v. 24-28), representação de quem quer acreditar na ressurreição de Jesus. Ele não estava com o grupo por ocasião do encontro entre Jesus e os outros discípulos (v. 24), apenas ouve o testemunho deles: “Nós vimos o Senhor” (v. 25). Tomé anseia pelo mesmo encontro e, além disso, quer colocar os dedos nas marcas do prego e a mão no lado aberto – demanda de quem escuta uma notícia a respeito de um evento imprevisível.

João narra novamente um encontro de Jesus com seus discípulos no primeiro dia da semana, desta vez com a presença de Tomé (v. 19.26). O desejo de paz de Jesus para seu grupo continua (v. 26). Em seguida, ele convida Tomé a pôr o dedo na ferida e estender a mão para colocá-la no seu lado. Um convite à experiência de fé e à aproximação do mistério da ressurreição.

A reação de Tomé foi de reverência e reconhecimento daquele diante do qual ele estava. Não era um fantasma ou um desvario dos outros discípulos. Era Jesus crucificado, ressuscitado por Deus, trazendo as marcas da paixão e a glória da ressurreição. Uma situação não se dissocia da outra: o crucificado-glorificado é o Ressuscitado com suas chagas.

O trecho do Evangelho se conclui com a menção de que Jesus realizou muitos sinais além dos relatados e conhecidos por nós. Ele continua a agir em nossa história humana. O que lemos e ouvimos sobre o Senhor é um apelo à fé, para que tenhamos vida no nome dele.

II. PISTAS PARA REFLEXÃO

Essas leituras nos impulsionam à relação com o Ressuscitado. Aquele que pode transformar nossos sentimentos diversos em paz e alegria para testemunhá-lo. Para isso, ele sopra sobre nós seu Espírito, para vivermos o perdão dos pecados.

Outras “chagas” se apresentam diante de nós no mundo contemporâneo. Os pobres, doentes e excluídos de nosso mundo representam novos rostos com os quais podemos praticar a experiência de Tomé. Tocar essas feridas de hoje implica ser presença solidária, acompanhar, contribuir, apoiar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles que clamam por justiça e por uma presença consoladora, carregada de ternura e compaixão.

A experiência de encontro com o Senhor ressuscitado não é delírio dos primeiros discípulos ou ideia infundada da comunidade primitiva. A mudança de vida confirma o que o Espírito Santo gera naqueles que se dispõem a ele. Assim, que nossas liturgias nos ajudem a viver o compromisso do perdão e do amor, a exemplo de Jesus.

Marcus Mareano

é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará. Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica. Professor de Teologia na PUC-MG, também colabora com disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador paroquial da Paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: marcusmareano@gmail.com

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