Reflexão bíblica – Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma: “A história de José: uma novela de morte. Qual é a sua relação com os ‘Josés” de hoje?”

Reflexão bíblica – Sexta-feira da 2ª Semana da Quaresma (05/03/21)
Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)


***

Gn 37, 3-4.12-13a.17b-28
Israel amava mais a José do que a todos os outros filhos, porque lhe tinha nascido na velhice. E por isso mandou fazer para ele uma túnica de mangas longas. 4Vendo os irmãos que o pai o amava mais do que a todos eles, odiavam-no e já não lhe podiam falar pacificamente. 12Ora, como os irmãos de José tinham ido apascentar o rebanho do pai em Siquém, 13adisse Israel a José: ‘Teus irmãos devem estar com os rebanhos em Siquém. Vem, vou enviar-te a eles’. 17bPartiu, pois, José atrás de seus irmãos e encontrou-os em Dotaim. 18Eles, porém, tendo-o visto ao longe, antes que se aproximasse, tramaram a sua morte. 19Disseram entre si: ‘Aí vem o sonhador! 20Vamos matá-lo e lança-lo numa cisterna, depois diremos que um animal feroz o devorou. Assim veremos de que lhe servem os sonhos’. 21Rúben, porém, ouvindo isto, disse-lhes: 22’Não lhe tiremos a vida’! E acrescentou: ‘Não derrameis sangue, mas lançai-o naquela cisterna do deserto, e não o toqueis com as vossas mãos’. Dizia isto, porque queria livrá-lo das mãos deles e devolvê-lo ao pai. 23Assim que José chegou perto dos irmãos, estes despojaram-no da túnica de mangas longas, pegaram nele 24e lançaram-no numa cisterna que não tinha água. 25Depois, sentaram-se para comer. Levantando os olhos, avistaram uma caravana de ismaelitas, que se aproximava, proveniente de Galaad. Os camelos iam carregados de especiarias, bálsamo e resina, que transportavam para o Egito. 26E Judá disse aos irmãos: ‘Que proveito teríamos em matar nosso irmão e ocultar o seu sangue? 27É melhor vendê-lo a esses ismaelitas e não manchar nossas mãos, pois ele é nosso irmão e nossa carne’. Concordaram os irmãos com o que dizia. 28Ao passarem os comerciantes madianitas, tiraram José da cisterna, e por vinte moedas de prata o venderam aos ismaelitas: e estes o levaram para o Egito.

O Grupo de Reflexão Bíblica São Jerônimo é uma iniciativa de professores de Bíblia, cuja proposta é oferecer um nutrimento bíblico-espiritual, uma palavra de conforto e esperança a partir do texto sagrado. Inscreva-se em nossas redes sociais e não perca nenhuma reflexão!! Acesse: https://www.linktree.com.br/grbsaojer…

Fonte: Grupo de Reflexão São Jerônimo

JOSÉ DO EGITO: UMA NOVELA/POLÍTICA DE MORTE (GN 37–50)

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

O texto sobre o qual vamos refletir hoje faz parte da conhecida história de José do Egito, narrada nos capítulos 37 a 50 do livro do Gênesis. Uma verdadeira novela bíblica. Não há como analisar Gn 37,3-28 sem compreender o sentido da história desse ilustre personagem de Israel no seu contexto. Vou usar o recurso da leitura sociológica e depois atualizá-la.

Comecemos. Quem era José? Filho mais novo de Raquel, a esposa amada do patriarca Jacó. Ainda criança, ele ganhou do pai uma túnica ornada, igual à dos membros da corte real. Quando adolescente, José sonhou duas vezes com feixes de trigo, sol, lua, estrelas que lhe faziam reverência, significando que, mais tarde, seu pai e irmãos o reverenciariam e obedeceriam ao seu comando. No entanto, seus irmãos lhe armam uma cilada. Eles querem matá-lo, jogá-lo numa cisterna, e enviar ao pai a túnica embebedada de sangue de animal. No entanto, o irmão mais velho, Judá, que daria o nome à tribo dos reis Davi e Salomão, salva-o, propondo a sua venda como escravo para uma caravana de madianitas que seguiam para o próspero país do Egito. E assim fizeram. Jacó lamentou a morte do filho.

No Egito, José é vendido para um eunuco do Faraó, chamado Putifar. Eunuco aqui tem o sentido de oficial, capitão da guarda do Faraó, aquele que se dedica aos trabalhos da corte, e não um castrado que se ocupa do harém do Faráo. Na corte, José faz amizades e se destaca pela sua beleza física, inteligência e integridade. A mulher de Putifar, que não tem nome e recebe a culpa de sedutora, arma uma cilada contra ele, de modo que ele pudesse dormir com ela. Como ele não aceitou, ela o caluniou e fez com que o marido o levasse para a prisão. Ela o acusa de seduzi-la.  

Na prisão, José, pela força divina, interpreta os sonhos de seus dois colegas. Um deles é libertado. Dois anos depois, assim como José, o Faraó também sonha duas vezes com sete vacas magras que devoravam sete vacas gordas; sete espigas mirradas que devoravam sete espigas granadas. José é chamado à corte, para decifrar os sonhos do Faraó. José foi incisivo, quando disse ao Faraó que os sonhos diziam respeito à política de abastecimento em tempos de crise e que o Faraó deveria, nos sete anos de abundância, tomar um quinto da produção dos egípcios e recolhê-lo em celeiros para ser utilizado nos sete anos de fome que viriam. Esse era o plano de Deus para o Egito. Com a sua interpretação, José foi constituído como conselheiro do Rei.

Acossados pela fome, os seus irmãos descem ao Egito. São reconhecidos por José, mas eles não o reconhecem. Ao acolhê-los, José arma uma cilada para castigá-los, colocando ouro nos sacos de alimentos que levavam para o pai em Canaã. Eles retornam. Diante dos irmãos, José se manifesta como irmão e pede para transmitir ao pai o convite do Faraó, de vir morar no Egito. Jacó leva toda sua família, é acolhido por José e recebido pelo Faraó nas melhores terras do Egito. Desse modo, o povo de Deus estava salvo pelo opressor. O patriarca Israel abençoa o Faraó.

Como Primeiro-Ministro, José organiza a política agrária do Faraó. Vende alimentos aos habitantes do Egito e de Canaã, até acabar o dinheiro deles. Troca alimentos pelos rebanhos. Quando os rebanhos se esgotam, ele cede os alimentos em troca de terra. Finalmente, passa a fornecer sementes e a receber do povo um quinto de toda a produção (47,13-26). O Egito se torna poderoso.

Quais são os objetivos dessa novela bíblica no seu contexto? Vejamos: 1) Mostrar a rivalidade entre irmãos, os quais representam as doze tribos de Israel do período dos juízes, duzentos de vida igualitária vivida pelo povo. 2) Jacó, ao presentear o filho com uma túnica de mangas largas, quer mantê-lo a seu lado, longe do trabalho pastoril dos irmãos. 3) O “irmão”, vendido como escravo, “salva” os irmãos e egípcios, mas os reduz, pela fome, à escravidão. 4) José era um membro do povo hebreu, ligado ao Faraó. Foi perseguido, mas foi por causa dele que o Faraó se enriqueceu, o povo empobreceu e se tornou escravo do Faraó. 5) A história de José serviu para legitimar a monarquia de Salomão, que explorava o povo. 6) Os irmãos, quer dizer, as tribos, se rebelam contra o irmão-Rei, contra a Monarquia, mas sem sucesso. 

Como atualizar a história de José? Vivemos numa sociedade pluralista, dividida socialmente, política e economicamente. Há os que defendem projetos que continuam explorando os pobres, monarquias faraônicas que impedem que a vida seja prioridade. Que Deus nos livre desses Faraós! O desejo igualitário das tribos de Israel continua vivo no sonho e na esperança de novos tempos. A política de José e dos “Josés” do nosso tempo não está aí para ser imitadas. 

Termino com as palavras do Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti: “A sociedade globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. O avanço do globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, mas procura dissolver as identidades dos mais frágeis e pobres, tornando-os mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema divide e reinarás” (Fratelli Tutti, 12b). Qualquer relação das palavras de Francisco com a história de José é mera coincidência.  

[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Últimos livros: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Coautor de: A releitura do Deuteronômio nos evangelhos. In: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida. (Org.). Deuteronômio: Escuta, Israel. 1ed.São Paulo: Paulinas, 2020, v. 1, p. 187-230. Inscreva-se no nosso canal: https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s