Dai-lhes, vós mesmos de comer

Por Karina Moreti, ofs

Interpretar as Sagradas Escrituras sempre foi algo que fascinou muitas pessoas. Existem aqueles que as interpretam de forma fundamentalista. Outros, estudam toda a história para entender onde se encaixavam as palavras de Jesus, a ipsa verba Jesu, e o que realmente ele queria dizer. Existem ainda aqueles que pegam uma citação fora de contexto. Desvirtuando sua mensagem original, ou mesmo, o sentindo hermenêutico.

Hoje, em qualquer página que diz respeito à CNBB, pode-se observar muitas posições contrárias ao seu Magistério. Deslegitimando os Bispos do Brasil que falam sobre igualdade social, defendem o direito à saúde e à educação. São contrários a estes postulados da CNBB por afirmar que nada disso é papel da Igreja.  A obrigação dos bispos deveria ser apenas a de salvar almas. Afirmam que a salvação das almas é o único ministério da Igreja.

Proponho observar algumas passagens Bíblicas, onde esta afirmação não se encaixa.

Observando já o livro do Gênesis, Deus cria tudo e dá ao homem. No jardim existiam todas as formas de alimento que se poderia imaginar. Ou seja, Deus não deixou o homem passivo à fome. Preocupou-se com suas necessidades físicas. A graça se manifestou materialmente, não conferindo ao primeiro homem e à primeira mulher a condição angélica de existência. Como homem e mulher, a materialidade de sua condição física se fez presente, condicionada às necessidades pertinentes à humanidade. Importava não somente a alma destes, mas sua integralidade, enquanto espírito e corpo. Feito imagem e semelhança do Criador, deveria estar em comunhão com a criação. Dando nome ao que foi criado, alimentando-se do jardim, amando sua companheira, carne de sua própria carne.  Nada mais humano. Ao homem e à mulher, era primordial sua integralidade com a Criação e, sobremaneira, sua vocação à felicidade.

Caminhando um pouco conhecemos José, filho de Jacó. Entregue pelos próprios irmãos para ser escravo. No entanto, Javé tem um plano especial e o coloca como o mais poderoso do Egito, “salvando” a todos da fome.

No Êxodo, Javé vê seu povo cativo e escravizado no Egito. Suscita Moisés para ser o agente libertador desta opressão. Não se preocupa somente com as almas dos hebreus escravizados. Preocupa-se com toda a dimensão humana. Tanto que se vê obrigado a tomar partido. Escolhe libertar os hebreus, mesmo que – para isso – fosse preciso ferir aos Egípcios.  Começa uma epopeia em meio ao deserto em busca da Terra Prometida. Se Deus só quisesse salvar almas, por que enviou o maná, as codornizes, fez jorrar água da pedra e até mandou fazer uma serpente de bronze para salvar a VIDA do povo hebreu? Percebamos várias intervenções materiais, sociais e políticas na epopeia do Êxodo. Um Deus preocupado com as almas, não agiria assim. Bastava conceder vida eterna aos hebreus mortos. Mesmo que mortos pela opressão. Entretanto, Javé não aceita o sofrimento imposto ao ser humano. Sobretudo, como fruto de opressão.

Um pouco mais além no tempo, Sidrac, Misac e Abdênego, durante o exílio da Babilônia, poderiam ter sido mortos na fornalha, já que eram tementes a Deus e não precisariam mais ficar vivos para demonstrar seu amor a Ele (cf Dn 03, 8ss). Todavia, ficaram ilesos ao fogo. Obra admirável, considerando que, segundo o raciocínio de alguns, a preocupação de Deus restringe-se à alma humana. Ledo engano. Nem as chamas destruíram os corpos dos amados de Javé.

O próprio Daniel demonstrou a força do Deus da Vida ao permanecer vivo na cova dos leões (cf Dn 6, 17-25).

Em Zacarias, o profeta grita: “Não oprimais a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre” (Zc 7, 10a).

Javé é e sempre foi o Deus dos pobres. O Deus que deu seu Filho para salvar toda a sua criação. E nele, Jesus, tornam-se filhos de Deus. Continuando neste pensamento, lembremo-nos que o primeiro milagre de Jesus foi durante uma festa de casamento. Sua mãe diz aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Apesar de dizer não ser a sua hora, Jesus vai ao encontro do pedido de sua mãe e salva a alegria daquele casamento. Não nos esqueçamos do livro de Tobias. Parece que Javé se preocupa especialmente com casamentos. Pode parecer pueril esta minha afirmação. Outrossim, lembre-se do que disse acima:  para Deus importa nossa vocação primeira, a felicidade.

Outras passagens que mostram esta preocupação com a alimentação são as multiplicações dos pães. Em João 6,5b, Jesus pergunta aos discípulos: “Onde arranjaremos pão para eles comerem?” Se Jesus tivesse vindo apenas para salvar almas, não havia a necessidade de se preocupar com a barriga vazia.  Melhor ainda é a máxima em Mt 14,16: “Dai-lhes, vós mesmos, de comer”.

Até mesmo após sua ressurreição, Jesus continua a cuidar da alimentação de seus apóstolos. Em João 21, 9, vemos: “Quando saltaram por terra, viram brasas acesas, tendo por cima peixe e pão”.

Não é possível que alguém com fome possa tanto pregar como ouvir uma pregação. Não é possível salvar almas vendo irmãos fadados à  pobreza, à fome, à negação  da dignidade.

A Igreja de Jesus, aquela que segue à Sagrada Escritura, à Tradição e ao Magistério; deve lutar pela Casa Comum, pelo respeito mútuo, pelo pão, pela moradia, pela terra,  pelo trabalho. Os Documentos da Igreja nos são claros, nestas exortações. Lembremo-nos da Rerum Novarum, Laudato Si’, Fratelli Tutti, Querida Amazônia. Além dos Documentos de Puebla, Medelín, Santo Domingo, Aparecida. O Magistério nos impele a uma Igreja missionária, acolhedora; anunciando Jesus Cristo, à Luz da Evangélica Opção Preferencial pelos Pobres. Só é possível salvar almas quando todos tiverem comida na mesa. Só aqueles que reconheceram Jesus no irmão e agiram de misericórdia, terão suas almas salvas (Cf Mt 25,35-46).

Observando todas estas referências bíblicas, é impossível chamar a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil de herege. De infiel ao Magistério e à Tradição da Igreja. É vontade de Deus. É ensinamento de Jesus que a Igreja esteja ao lado dos pobres, marginalizados. Até porque, o próprio Papa Francisco quer uma Igreja Pobre, com os Pobres e para os Pobres. A CNBB está em comunhão com o Papa e em obediência à Palavra de Deus. Nada mais justo e santo.

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