A Árvore e a Teologia da Libertação

Por Hermes A. Fernandes

Este texto não pretende ser um ensaio sobre Teologia. Nem aspira algo tão profundo. Traz alguns pensamentos “pós jantar”. Aqueles que, após o cafezinho sagrado do brasileiro, podem ocorrer.

Nestes dias de polêmicas acerca da Campanha da Fraternidade, muitos foram os que a atacaram com acusações de estar impregnada ou à serviço da Teologia da Libertação. Como se uma Teologia fosse uma entidade supra-humana. Assombrando os apologetas da Sã Doutrina. Qualquer semelhança com filmes de fantasia, não é coincidência. É o absurdo destes radicais ultraconservadores, dos quais, foge à realidade.

Antes da teologia, pensemos em árvores. Algumas não se parecem tão belas. Nem mesmo, se percebe sua importância ao primeiro olhar. Entretanto, quem não sentiu um gozo quase divino ao sentar-se sob uma jabuticabeira e dela tirar, horas a fio, seu fruto a degustar? A jabuticabeira tem um tronco estranho. Malhado como gado mineiro. Ah, que delícia o fruto da malhadinha! Quem se privaria de seu fruto, por considerar a estranheza de sua aparência?

Onde entra a teologia nestes pensamentos? A Teologia da Libertação passou por sérias críticas. Como em todas coisas de real importância, sempre se faz necessário sentar-se após o caminhar e se avaliar o percurso. Tropeços, sempre os teremos. Importa que tenhamos destino. Que não sigamos a divagar.

Jabuticabeira Hibrida Anã com 150cm nome_loja]

Penso que a Teologia da Libertação pode ser comparada à jabuticabeira. Às vezes não nos inspira grande confiança. Pelos seus desenhos. Manchas. As polêmicas em torno desta Teologia, são como o malhado do tronco da jabuticabeira. E aquele emaranhado de ciscos junto aos frutos? Mais belos são os ipês, mas estes não nos fornecem frutos.

Muitos se lembram de avaliações da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação. Os livros que foram questionados. São as manchas no tronco. Os ciscos junto aos frutos. E o sabor de uma jabuticaba estourando, inundando nosso paladar? São muitos os que criticam a Teologia da Libertação, esquecendo-se da Igreja que se fez animar por ela. Que se extasiou com a doçura de seus frutos. As Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais sociais, o jeito novo (agora já amadurecido), de ser Igreja a partir dos pobres, dos excluídos. Além disso, a redescoberta dos ministérios é, inegavelmente, um mérito deste pensar a eclesialidade a partir do próprio Povo de Deus, não necessariamente tutelando-se à hierarquia piramidal. Algo que hoje se discute como diretriz essencial às comunidades, em tempos passados, foi novidade do Concílio Vaticano II e, também, atribuído à Teologia da Libertação. Ah, minha gente, não se pode negar que esta Teologia foi árvore de frutos doces! Extasiantes.

Não podemos nos esquecer dos mártires que esta Teologia nos ofereceu. Pe Ezequiel Ramin, Pe Josimo, Dorothy Stang, Santo Oscar Romero. Tantos outros! Estes foram rotulados de seguidores da Teologia da Libertação. Não obstante o erro no discurso, pois – os religiosos seguem a Jesus, não a uma Teologia – podemos concluir que o despojamento destes que derramaram seu sangue, deve-se – também – à Teologia da Libertação.

Neste sentido, meus irmãos e minhas irmãs, antes de acusarmos a Teologia da Libertação, taxando-a herética, infame; lembremo-nos de que se conhece uma árvore pelos seus frutos. A jabuticabeira não tem belo aspecto, mas quem não anseia pelo fim do ano para obter suas negras bolinhas de deleite? Se alguém discorda desta corrente teológica, que o faça com o mínimo de dignidade! Respeite os frutos! Estes, não são poucos. Respeite o sangue derramado por aqueles que amaram irmãos e irmãs até às últimas consequências. A Teologia da Libertação traz em si dois pilares que a justifica: Deus e os Pobres. E por estes, muitos fizeram um lindo caminho eclesial. Fecundado com fé, amor e, muitas vezes, com o próprio sangue.

4 comentários Adicione o seu

  1. Tenho saudades deste jeito de ser Igreja. Vivemos tempos difíceis onde uma fé intimista e puramente voltada para o céu não nos aproxima daqueles irmãos que mais precisam. Eu acredito em Religião Libertadora.

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  2. Val disse:

    Ótimo texto, obrigada!

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  3. Guilherme Augusto disse:

    Esse texto me lembra aquela frase de Brecht “que tempos são esses, onde falar sobre árvores implicar calar sobre tantas injustiças?” que foi traduzida de diferentes formas no poema “Aos que vierem depois de nós”.

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