O Vértice e o Horizonte

Por Frei Hermes Abreu

É cruz. Não uma escada – ou mesmo – uma estaca, um “pau de sebo das festas de interior”. O caminho de seguimento de Jesus é muitas vezes confundido com uma escalada. Há Cristãos que se esforçam por um assemelhamento com figuras angélicas, tornando indesejado tudo o que é humano, terreno, secular; alegando ser impuro, pecaminoso. A realidade terrena é entendida como um processo de transdescendência, impedindo a transcendência, como caminho para o céu. O que é o Céu? E, mais importante, o que é Reino de Deus? Estas perguntas nos são feitas, meio que inibidas; porém, relevantes. O equívoco mais comum em nossa sociedade e nas religiões da pós-modernidade, é a busca pelo céu, rompendo com a terra. Almejam a vida em santidade. Muito certo o desejo de ser santo. Outrossim, confunde-se o caminho para este estado de vida – de graça – com a negação da humanidade inerente a cada homem e mulher. Vive-se uma vida em vértice, esquecendo-se do horizonte. Assim, entendem que é uma escalada. Não uma vivência integral. Querem o céu, esquecendo-se do Reino de Deus.

Na história dos santos e santas, temos exemplos claros daqueles que transformaram seu meio. O mundo em que se acercavam. Foram homens e mulheres que almejaram a santidade, buscando-a na transformação da realidade daqueles que estavam ao seu redor. Ao fazer profunda experiência de Deus, abraçaram o humano. Muitas vezes, lutando por dignidade plena desta humanidade. Homens como São Vicente de Paulo, São Francisco de Assis, São João Bosco, Santo Oscar Romero, São João de Deus. E por que não lembrar de santas mulheres? Santa Inês, Santa Tereza de Calcutá, Santa Dulce dos Pobres. Tantos são os santos e santas de Deus que, ao contemplar a grandeza do Mistério, foram ao encontro dos homens. Uma verdade se faz na teologia espiritual: não se chega ao altar de Deus, sem passar pelo altar do seu Povo. A Palavra de Deus nos diz, por meio de João, que não se pode amar Deus que não se vê, se não se ama ao irmão e à irmã que se pode ver (cf. 1Jo 4,20-21). O amor ao irmão gera compromisso e, por vezes, sacrifício. Chegando a demandar a própria vida, (cf Jo 15,13). Um amor de cruz. A união do vértice com o horizonte.

Em nossos dias, vemos movimentos dentro e fora de nossa Igreja que apregoam um rompimento desta dimensão do encontro. Encontro do vértice com o horizonte. Toda Ação Pastoral e Missionária que deseja promover a vida e o cuidado para com nossos irmãos empobrecidos e marginalizados, é chamada de ideais de esquerda. Comunismo. Absurdo quando nos esquecemos dos Evangelhos, no desejo de pregar a pureza espiritual. Existe cristianismo sem Cristo? Jesus nos envia a curar os corações feridos, anunciar uma Boa Notícia aos Pobres, liberdade aos cativos (cf Lc 4, 18). Em contrapartida, na busca de uma sã doutrina, dizem que devemos nos dedicar às almas, à salvação, não às questões sociais. Teríamos nós uma revelação diferente deles? O Cristo que nos foi anunciado não seria aquele mesmo filho de Maria, o Nazareno? Este nosso Senhor e Salvador nos manda amar, perdoar, acolher, cuidar; enquanto o Jesus que eles anunciam só ordena à moral, – cheirando a moralismo – à condenação, à exclusão. Querem purificar os escolhidos de Deus, para que possam adentrar em seu santuário, mas se esquecem que Jesus nos pede que chamemos os coxos, aleijados, mendigos (cf Lc 14,20-24). A Casa de Deus é habitada pelos rejeitados pela casa humana. Se cuidar dos excluídos é causa comunista, devemos rever a história. Ensinaram-nos errado nas escolas. Deveríamos ter estudado Jesus nas aulas de Sociologia. Marx faz-se desnecessário. Deveria ser um plagiador. Desculpem a ironia, mesmo que necessária face à ignorância de muitos que não querem ver a Cruz na história de Jesus. Ele não nos ordena a separar as ovelhas, mas a ir atrás das que andam perdidas. Joio é aquele que, como sepulcro caiado, esconde sua podridão, em uma aparência de beleza. Falsa beleza. Beleza de jazigo.

Que nessa Quaresma voltemos os olhos ao Reino de Deus, esquecendo-nos deste céu dualista que nos apresentam. Este, sim, cheira à heresia. Um caminho Cristão sem solidariedade, compromisso com os excluídos, sem misericórdia; é insensato caminhar. Não é Comunidade de Jesus, pois este amou os sofredores, os pequenos. E amou-os até o fim (cf Jo 13,1). Uma religião que detém-se no vértice, esquecendo-se do horizonte. Um Cristianismo sem Cruz. Um Cristianismo sem Cristo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: