Comunidade: espaço de integração entre a espiritualidade, a fé e as expressões religiosas

Por Rosemary Fernandes da Costa

Viver em comunidade é nos darmos conta de que nosso jeito de ser, de pensar, de agir, enfim, nossa história e nosso caminhar pelo mundo, é todo construído em comunhão. Nessa comunhão vamos recebendo vidas, memórias, narrativas, visões de mundo, nas relações interpessoais. Nessa comunhão vamos recebendo alimentos, forças, místicas, terra, água, fogo e ar, nas relações com todo o Universo.

Assim é a dinâmica da Revelação, ela é essa abertura existencial, mesmo que nem sempre consciente, ao projeto divino que perpassa toda a vida. A esse dinamismo chamamos de espiritualidade. Sim, nem sempre consciente, pois nossa consciência é uma das muitas dimensões de nosso ser humano, que nos ajudam a nos religar uns aos outros, à Mãe Terra, aos povos que nos antecederam, à esperança que movimenta nossos dias e noites.

No entanto, somos convidados a colocar nossos pés nesse chão dinâmico-divino, agradecer e reverenciar os caminhos que já vivemos, mas também assumir conscientemente o caminho presente e nossa responsabilidade com os caminhos vindouros.

Pensemos em como compreendemos a relação entre fé e espiritualidade. Como concebemos a espiritualidade, a fé, as religiões? Este é um tema relevante para compreendermos a existência humana pois, participantes ou não de uma comunidade religiosa, a espiritualidade e a fé estão presentes em todos nós.

É comum relacionarmos a espiritualidade com as expressões religiosas, mas também é espiritualidade a sensibilidade, a contemplação, a empatia, a abertura e percepção de tudo que nos rodeia, com uma atitude de escuta, respeito e reverência ao sagrado que está no mundo.

E a fé? Ela é própria da condição humana. Desde que nascemos, vamos criando uma base de confiança nas relações com as pessoas e conosco mesmos. Na infância, a criança exercita suas primeiras experiências de entrega e de resposta. Essa é uma estrutura essencial para a sobrevivência e a construção da autoestima e da capacidade de nos relacionarmos. Podemos observar que encontramos situações diferenciadas de pessoa para pessoa: alguns mais autoconfiantes e disponíveis, outros com mais temores, desconfianças, insegurança pessoal e interrelacional.

Olhando para nós mesmos, e para nossas comunidades, vejamos como está essa base para a fé, a confiança, a capacidade de acolher e de receber acolhida, de cuidar e ser cuidado. Aqui também podemos sempre aprender. Aprendemos sobre nossas condições e, humildemente, descobrirmos como confiar, como olhar com carinho e cuidado, como acolher a diferença em cada pessoa e em nós mesmos, como perceber quando estamos com medo e inseguros e construirmos novos caminhos, conscientes e amorosos. Vamos descobrindo que a fé envolve riscos, o risco de amar, o risco de esperar, o risco de perdoar, o risco de compreender, o risco de ser diferente do que sua expectativa, o risco de rever, de recomeçar, o risco de julgar e de ser julgado. Mas, nada disso deve nos paralisar ou assustar, pois é assim a condição humana e nosso caminhar é pessoal e comunitário.

Além dessa fé, de cunho mais antropológico, estrutural, também sabemos que existe a fé religiosa, é a fé que se relaciona com o Mistério, com o transcendente, com o desconhecido. Algumas religiões nomearam como Deus, Yahweh, El, Atma, Olorum, Ala, Encantados – mas existem muitas outras formas de reconhecer o Mistério, em muitos outros caminhos de espiritualidade.

Na fé religiosa encontramos relações de entrega e de confiança, mas também medo e insegurança. Afinal, se temos dificuldades nas relações humanas, que dirá na relação com o Mistério, com esse Outro que nos atrai, nos seduz, mas também nos embaraça, interpela, por ser mais desconhecido do que conhecido?

O que muitas vezes acontece é que, em nosso desejo de entender o Mistério, vamos criando conceitos, qualificativos, de acordo com a nossa compreensão, parcial e limitada. Sabedores dessa limitação, só nos resta a reverência, ou seja, a acolhida do Mistério que se revela, que transborda de si mesmo e nos convida a caminhar passo a passo nessa revelação.

O que seria o contrário dessa postura? Seria a atitude de apreender o Mistério em alguma caixinha limitadora, o que gera, não apenas o distanciamento do Mistério, como atitudes de preconceito, discriminação, intolerância, diante de outras compreensões diferentes daquela delimitada.

Por isso tudo, retomamos a afirmação do início: vivemos em comunidade. A integração entre a fé, a espiritualidade e as expressões religiosas, se dá em comunidade. Essa não é uma questão dispensável, ela é fundamental.

As comunidades, atentas e abertas a todo esse dinamismo, nos ajudam a perceber os fios invisíveis que vão ligando coisas, fatos, pessoas, tempos, criaturas, espaços, como processos contínuos, permanentes, convocadores de nosso ser e estar mais profundos. São espaços de experimentar a mística e a interpretação dos sinais dos tempos. Para que tudo isso ocorra, cuidemos sempre de cultivar a abertura ao diálogo, os vínculos afetivos entre as pessoas, seus mundos e significados.

Fonte: Portal das CEBs

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