Cristo ou Caifás?

“Em muitas partes do mundo, fazem falta caminhos de paz que levem a curar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com engenhosidade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro.”(Fratelli Tutti, 225)

Por Hermes Abreu

Em uma analogia primária, simples, podemos perceber o quanto é mais fácil destruir do que construir. Imaginemo-nos como operários na construção. O que leva mais tempo:  edificar uma parede, ou derrubá-la à marretadas?  Destruir é algo mais fácil, mas não nos traz valores. Não nos acrescenta. Ou vivemos em cidades, ou em ruínas.

É neste sentido que se faz nossa vida eclesial. Somos constantemente tentados a negar o diferente. A eleger inimigos e, na errônea crença de que querelamos em nome do Senhor, tendemos a dizimá-los. Alcunhas como hereges, excomungados, indignos, infiéis; tornaram-se lugar comum na Igreja. Fica-nos impossível encontrar o Cristo em discursos tão cheios de ódio. Também podemos perceber que todos se dão ao direito de fazer-se doutores da lei. Atribuindo-se a responsabilidade de defensores do magistério. Condenando a aqueles que não se encaixam em nossos conceitos. Creem-se ovelhas puras, dignas do céu. Há tantos que se impingem ideais de pureza e sã doutrina que, se assim mesmo o fosse, não mais precisaríamos de uma teologia escatológica. O céu está aqui. Anjos e santos habitam entre nós. Ledo engano.

Enquanto o Papa Francisco nos exorta, constantemente, a uma Cultura do Encontro, do Diálogo, da Tolerância; muitos de nós não abandonam as armas da Apologética. Não a Apologética dos Santos Padres, que tanto contribuiu para o Magistério da Igreja e, sim, aquela que todos se sentem preparados a abraçar, tomando de armas, de argumentos. Todavia, as motivações não advêm do Evangelho. A Pedagogia não é a da construção. Ao contrário, querem ferir, atacar, agredir, condenar. Pelo simples desejo de querelar. Uma Cultura de Paz parece ser intolerável. O canto dos pássaros não lhes parece aprazível, preferindo os estampidos dos disparos dos canhões.

Estes dias tem sido difíceis para toda a Igreja. Ao serem anunciadas as diretrizes para Campanha da Fraternidade, surgiu-se um burburinho ensurdecedor. Condenação, dedos apontados. Atacam a tudo. Sem nem mesmo se deixar ouvir. Criticam o texto base da CF por ter participação de protestantes, uma vez que, neste ano, a campanha da Fraternidade é Ecumênica. Qual o problema? Vão além: afirmam que o Texto Base está cheio de ideologia de gênero. O que é ideologia de gênero mesmo? Fizemos esta pergunta a um dos querelantes, mas este disse não saber o que seja exatamente. Porém, viu em um vídeo no YouTube, de gente de confiança, que tem propaganda de ideologia de gênero nas reflexões da CF. Neste sentido, é obra do Demônio. Nossa conclusão é que os que rejeitam a Campanha da Fraternidade, o fazem por querer rejeitar, sem – ao menos – saber ao certo porque o fazem.

Lutar, combater;  sem ao menos conhecer. Nem mesmo, estar certos dos porquês. Assim, tem sido. Querem ferir, por ferir. Quando lhes faltam argumentos, afirmam ser motivados pela defesa da Sã Doutrina Católica. Faz parte da Doutrina Verdadeira da Igreja ofensas? Condenação? Exclusão?

A caridade fraterna entre os pelejadores ideários deve estar, em primeiro lugar, concomitante com a Verdade que se defende. O orador que ironiza, agride, desmerece o pensar do outro; não respeita o pensamento deste e nem mesmo sua pessoa. Antes de vencer um debate de ideias, devemos pautar nossos argumentos em sentimentos primários, essenciais à Graça de Deus. Sobremaneira, a Caridade.

Há uma facilidade grande, pelas novas mídias, de se apregoar pensamentos. Com estes avanços tecnológicos, os apologetas também deram asas às mentes. O que era para ser instrumento da Graça, torna-se seu paradoxo, desgraça. Pessoas inflamadas por discursos de ódio. Causas que sobrepõem-se à dignidade humana. Esquecemos a solidão do calvário, com a qual devemos prioritariamente nos identificar, para abraçar o calor do debate do pretório, aliando-nos a Caifás e seu párias.

Quando nos sentirmos suscitados à defesa da fé, devemos – antes de mais nada – nos deixar seduzir pelo chamado primeiro de Jesus: Amar. Ou então, não seremos diferentes daqueles que gritaram no pretório: “Crucifiquem-no”! Tudo, em nome da lei.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: