Vocabulário dos Sentimentos – primeiro verbete: Coração

Por Frei Edilson Rocha, OFM

O termo “coração” é utilizado, desde tempos muito remotos da Antiguidade (arriscaria afirmar: desde que o ser humano se humanizou), para expressar o centro dos sentimentos do ser humano, sua complexidade, seu mistério, suas atitudes, seus valores, suas virtudes. Expressar a interioridade humana, onde existe um abismo tão profundo, a cujo fundo dificilmente alguém pode tocar. Como as fossas abissais dos oceanos, onde reina a mais completa escuridão, exceto nas formas de vida que suprem sua própria luz, quais vagalumes das profundezas…  Coração tem a ver com estes abismos da interioridade humana. Tem a ver com o universo misterioso da alma, que só a Divindade pode atingir, se crê, quem crê. Talvez seja disso que falam as Sagradas Escrituras – a Bíblia – quando profetas falam em “rasgar os corações não as vestes”, falando da necessidade de conversão do coração e não apenas das aparências enganadoras e enganosas. Ou, ainda um profeta, quando empresta sua boca e sua voz para Deus dizer: “Tirarei do vosso peito este coração de pedra e no lugar colocarei um novo coração de carne”. Transformar o coração para ser bom, para ser um bom ser humano, para estabelecer relações amorosas com as outras pessoas e com as outras criaturas ao seu redor. Conversão é mudar a rota do coração, a direção da vida, buscando um caminho de unificação interior, de unidade exterior com o universo, de harmonia com tudo e com todos com quem se está em relação! Pelo menos novecentas e dezenove vezes o coração é citado na Bíblia… Pode ser bem mais.

Que força no universo pode penetrar o coração humano e transformá-lo a partir de suas profundezas misteriosas, quando este coração, por razões diversas, se petrificou e se fechou, fazendo circular de dentro de seu interior, toda a maldade que perversa o mundo? Quem tem o poder de aquietar o coração agitado, ansioso, belicoso e cobiçoso de tantos seres humanos, que nasceram bons, inocentes e puros, mas que foram maculados e pervertidos por alguma ou tantas feridas, que permanecem sangrando, enquanto este coração não consegue a cura? Santo Agostinho indica que o coração, se quisermos assim definir nossa interioridade, só se aquieta quando recebe nele a fonte da unidade e da paz. Aquele que é mais interior a nós do que nós mesmos. O caminho do coração nos levará a um encontro com a nossa verdade e com a Verdade que nos unifica e harmoniza a partir dos abismos misteriosos de nós mesmos. Quando reina o caos neste universo interior, tudo se desarmoniza com a superfície do nosso ser. Todas as relações se arruínam, ferem e causam dor. Há carência essencial de paz interior! Afinal, o inconsciente não se compara a um iceberg, cuja parte emergente, visível, constitui meros dez porcento da sua totalidade submersa? O coração humano é um iceberg…

“A boca fala daquilo de que o coração está cheio”. “Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração”. “Felizes os puros de coração…” Quantas vezes Jesus se refere ao coração com este mesmo sentido de fonte! Fonte de onde brota o que é bom – se o coração está repleto de Bem, de bom e de beleza, que são como que sinônimos. O que é bem é bom e é belo! Pode-se pensar o coração como um “castelo interior”. Um “lugar”, um espaço simbólico que não tem paredes, nem muros, nem limites, nem fronteiras…  Mas se configura como uma “morada”, uma casa, um castelo, um lugar de sonhos, uma fonte de sentimentos, os mais diversos. Bons ou ruins. Pode ser um jardim pleno de plantas, ervas, flores, cores e perfumes deliciosos. Pode ser uma biblioteca, rica de excelentes livros, onde estão registrados os mais belos contos, as mais edificantes lendas, as mais lindas histórias, os testemunhos mais belos da vida humana. Sede da inteligência e da sabedoria, o coração é revelado pelas riquezas e belezas das palavras e atitudes de alguém. O coração revela a grandeza ou a mesquinhez da pessoa. Grandes corações se celebrizaram e imortalizaram pelas riquezas que espalharam, pelas belezas que produziram, pelas artes que forjaram, deixando transbordar seus tesouros estéticos em formas e palavras. Tantas coisas belas e sublimes que o espírito humano é capaz de produzir. Tudo que é belo brota da fonte dos sentimentos. Tudo escorre do coração para as expressões do amor, que está na raiz de tudo o que é bom e belo. Corações plenos de tesouros tão necessários para enriquecer outros corações. Aqui pode valer o ditado popular, aplicado ao coração: “Diz-me com quem andas e te direi quem és”.  Corações puros contemplam tudo com olhos puros e transformam tudo, à luz da inocência original de todas as criaturas. Por isso são felizes, bem-aventurados! Vale lembrar que essa “pureza” nada tem a ver com os moralismos hipócritas de muitos discursos ditos “religiosos”, que frequentemente escondem interesses mesquinhos!

O coração, embora seja representado simbolicamente pelo formato do músculo que pulsa em nosso peito, às vezes apressado por alguma reação química do nosso organismo, irrigado por substâncias inteligentes que as glândulas do nosso maravilhoso organismo fazem jorrar nas veias, revelando o que sentimos, é muito mais do que este pequeno órgão vital. O coração é o todo de nós – ou o nosso ser, que transcende o corpo biológico – somos nós mesmos. O meu coração sou eu, na minha totalidade limitada de ser humano, pequenino, insignificante e ao mesmo tempo pleno de sentidos universais. Olho para o universo infinito e meu coração me sussurra que sou parte deste cosmo. Que tenho ligação com as estrelas que se me refletem nas retinas e iluminam o meu espaço interior. Porque cada ser humano – cada coração – é um universo de significados. De incalculável valor. Nada pode comprar a dignidade de uma pessoa humana. Cada ser humano é um coração, que nasceu dentro de outro coração e faz pulsar outros corações. Os elos do amor ligam e interligam os corações e como é gratificante escutar as pulsações de um coração que se ama!

Não por acaso, Blaise Pascal pensava que “o coração tem razões que a razão desconhece”.  E o pensador francês pensava assim num tempo de radical racionalismo: “Cogito ergo sum” – o “penso, logo existo” do pai do racionalismo, que colocava a fonte da razão no indivíduo. Grande conquista do pensamento humano e grande contribuição para o subjetivismo e individualismo modernos! Mas Pascal, um coração inquieto experimentará ter seu coração penetrado pela luz, e encontrará a paz que buscava, a unidade do ser a que aspirava com todas as fibras do coração! Seu coração iluminado descobre que há algo que transcende a razão. As razões do coração escapam ao controle da razão! E não é verdade?

Mas será que não entramos num tempo em que a humanidade vai ficando desprovida de coração e de sentimentos humanos? Despersonalização e desumanização indicam, nas expressões mais aberrantes de um mundo centrado no individuo, no sujeito, no ego, na mais absurda indiferença e egolatria, que coloca os interesses mesquinhos acima de qualquer possibilidade de empatia e solidariedade? Um mundo sem coração se torna um mundo desumano, perverso, cruel, iníquo…   Deixar de voltar os olhos do coração para o horizonte e para o céu poderá conduzir o ser humano ao caminho da involução.

Frei Edilson Rocha, é frade da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e presbítero. Atualmente é Ministro Custodial da Custódia Franciscana São Benedito da Amazônia.

Fonte: Entrelaços do Coração

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