“Proposta de instalação de Usina Nuclear em Itacuruba, ameaça aos povos originários e ao meio ambiente!” Entrevista com Padre Luciano Pereira Aguiar, Diocese de Floresta-PE

Há fumaça e barulho no ar. Mais uma vez, após frustrada tentativa em tempos de Governos Lula e Dilma, o atual governo, representado pela ONB – Organização Nuclear Brasileira, deseja construir e instalar uma usina nuclear em Pernambuco, na região da cidade de Itacuruba. Iniciativa esta que põe em risco a população local, não só em nível socioambiental, como também em nível antropológico; uma vez que para tal construção faz-se necessária a remoção da população local. Esta de origem étnica indígena e quilombola.

Faz-se oportuno salientar que a legislação do Estado de  Pernambuco proíbe a construção de usinas nucleares “enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia hidrelétrica e oriunda de outras fontes”. O Estado do Pernambuco foi um dos maiores produtores de energia eólica nos últimos anos. O esgotamento da produção de eletricidade, uma possível justificativa, também não parece estar perto de acontecer, pelo menos no setor de energias renováveis.

Sem mesmo o respaldo legal, pode-se ter certeza de que a iniciativa é motivada por interesses particulares e acordos políticos, não tendo em vista o Bem Estar da população. Vidas humanas geralmente não importam nas iniciativas de lucro e poder. É neste sentido que muitas organizações e movimentos sociais, entre elas a própria Igreja Católica, se levantam em oposição à construção da usina nuclear e em defesa dos povos originários, assim como, em proteção ao meio ambiente e a Integridade da Criação.

O Blog O Caminheiro do Reino conversou com Padre Luciano Pereira Aguiar, grande nome nesta luta. Desde já, esta página manifesta seu total apoio à luta em defesa do povo Pernambucano, vitimado das enganações dos poderosos pelo lucro e pelas pedagogias do poder. Repudiamos a ideia da construção desta Usina Nuclear. Postamo-nos ao lado dos pequenos, irmanados nesta luta.

É neste sentido, que convidamos ao leitor a, de forma atenta, acompanhar a entrevista concedida por Padre Luciano, na qual, denuncia esta atrocidade que desejam cometer contra os povos originários, contra nosso amado Rio São Francisco e contra a Casa Comum de todos.

Padre Luciano Pereira Aguiar – Diocese de Floresta – PE

Frei Hermes:  Padre Luciano, primeiramente, pediria que o senhor se apresentasse ao leitor do Blog O Caminheiro do Reino.

Padre Luciano: Sou Padre Luciano Pereira Aguiar, do clero da Diocese de Floresta-PE. Estou na articulação da Dimensão Sociotransformadora na Província Eclesiástica de Pernambuco da CNBB Nordeste-2, que compõem 10 dioceses. Também componho a Comissão Antinuclear do Sertão que vem trabalhando para inviabilizar a provável instalação de uma usina nuclear no Sertão de Pernambuco, mais precisamente na cidade de Itacuruba.

Frei Hermes: Fale-nos um pouco sobre essa iniciativa de usina nuclear, por favor.

Padre Luciano: Vou contextualizar um pouco como seguiu o início desta grande “Batalha de Davi e Golias”, assim parafraseando. Dos meados de 2009 a 2010, a Organização Nuclear Brasileira começou a pesquisar local de uma provável instalação de usina nuclear e foi vista a cidade de Itacuruba como sendo um provável lugar para se instalar uma usina, tendo em vista que a cidade tem poucos habitantes. Como é dito, só há quatro mil almas lá existentes. Seria fácil realojá-los, removê-los para outro lugar. Também se considerou a possibilidade por ser um lugar afastado de tudo e de todos. Um lugar praticamente deserto, às margens do Rio São Francisco. E a partir disso começou-se pesquisas e mais pesquisas. Tais inciativas gerou insegurança nos povos locais, assim como em instituições. A Igreja local de Floresta, juntamente com outras organizações como Rio São Francisco Vivo, CPT, CIME, entre tantas outras na época articuladas pela Coordenação da Cultura de Paz da Diocese, começou-se a criar mecanismos de defesa dos povos tradicionais daquela região. Dom Adriano Ciocca Vasino era o bispo. Com isso, foram mobilizados grandes encontros, grandes debates e uma caminhada que chamou-se a Caminhada pela Vida. Neste período houve bastante articulação da Igreja. Grande mobilização.  A Igreja do Sertão combatendo e assim fazendo com que naquela época, entre o governo Lula e Dilma, fosse inviabilizada esta obra que prejudicaria a região toda, principalmente o nosso Rio São Francisco, este que estava em sérias dificuldades. Sabemos que o rio está quase morto. Então essa luta vem se travando desde este período, até os dias de hoje. E a Igreja, como promotora e defensora da vida, se posiciona contrária à instalação de uma usina nuclear, pois não irá beneficiar, em nada, o povo da nossa região do sertão, já tão sofrido.

Frei Hermes: A Igreja teve grande participação na conscientização e mobilização do povo, certo?

Padre Luciano: A Igreja fez diversas reuniões, também promoveu romarias, entre outras iniciativas. Com isto, naquela época, o governo recuou. Agora o desejo de se instalar uma usina nuclear retorna ao cenário político. Com maior força. Principalmente, uma movimentação ao nível político de nossa região. Para que seja viabilizada essa usina nuclear e diante do contexto político e socioeconômico em que estamos. É de se preocupar.

Frei Hermes: Como se deu a retomada desta iniciativa de usina nuclear? E como se dá a resistência?

Padre Luciano: No ano 2019 fizemos uma grande marcha, a maior já feita para este tipo de luta, em esferas federais, que foi a Marcha Mirandiba-Baitacuruba.  Depois o grande encontro do regional Nordeste-2, promovido pela CNBB, articulação local, que aconteceu na diocese de Floresta, no qual, estive um pouco à frente, coordenando junto à outras organizações. Foi um belo evento em defesa da vida! Mas agora, nos recentes dias, aconteceu que estes que desejam a instalação da usina nuclear, retomaram com muita força esta questão, já dizendo que em 2021 ou 2022, estaria previsto o começo da realização desta obra no território de Itacuruba. Assim, está pegando fogo em nossa região. Fala-se muito sobre isto. Há quem defenda a iniciativa, como cientistas da Universidade Federal, que agem como lobistas desse projeto. Estão ganhando dinheiro para divulgar que isso é bom para a região. Com promessas. Como sempre a nossa região da diocese de Floresta, tem grandes obras impactantes do Governo Federal. Quer sejam as Hidrelétricas de Itaparica, quer seja a transposição do Rio São Francisco. E sempre com mesma promessa de que se vai beneficiar o povo. Afirmam que vai dar lucro e beneficiar a população local, enquanto o que se vê são “elefantes brancos” que não ajudam em nada ao povo. No começo destes processos, sempre beneficiam com verbas, depois estas somem.  Uma história que se repete, como nos contextos de hidrelétricas e etc. O povo continua na miséria. Por isto, vemos esta obra como a mesma coisa. Até porque, as promessas são empregos que tanto apregoam, nós duvidamos que aconteça. Em razão de que o pessoal desta cidade e região, não está qualificado a trabalhar em uma usina nuclear. Para tanto, necessita-se de mão de obra especializada.

Algo que nos chama a atenção nas propostas da ONB e dos político que a apoiam, é a promessa de se construir na região o melhor hospital para o Pernambuco. O que quer dizer isso? Construir o melhor hospital para o Pernambuco nesta cidade que só tem quatro mil e poucos habitantes? Quer dizer que é uma coisa perigosa, se não fosse perigosa, ninguém iria construir um hospital neste perfil. Sabemos que toda obra de engenharia tem seus perigos, por mais que digam que hoje é seguro. E a manipulação de material nuclear e a radioatividade? As garantias que nos apresentam causam profunda estranheza. Também o fato que nesta entrevista que foi dada recentemente pelo senhor Carlos Mariz, que está à frente desse grande empreendimento, vice-presidente desta Organização Nuclear Brasileira, disse claramente, participando de uma debate em Itacuruba, que a maioria das pessoas lá querem a usina nuclear. Uma grande mentira!

Frei Hermes: Este Vice-presidente, Carlos Mariz, tem apresentado propostas claras?

De forma alguma! Nem disposto ao debate ele se faz. A única conversa que aconteceu foi porque nós a quisemos. Questionamos e desmontamos seus argumentos. Em represália , disse que a única coisa que atrapalha a instalação da usina nuclear é que a Igreja fica fazendo bagunça, criando polêmica junto com os indígenas, gerando dificuldades para a instalação. Chega a nos rotular como arruaceiros. Insinuando que vivemos criando atritos e conflitos. Historicamente podemos afirmar que quando a Igreja se manifesta em relação a algo, é por ser de interesse do Povo a quem Deus lhe confiou. A missão da Igreja é promover e defender a Vida. Jamais iria se posicionar a favor de algo que fosse desfavorável ao povo. Por isso estamos certos ao afirmar que o Sr. Carlos Mariz engana nosso povo. Mente descaradamente. É uma falácia quando ele diz que a maioria da população é a favor da usina nuclear. A posição da população  não é a maioria favorável que ele afirma ter. Quem defende a ideia é porque tem interesses obscuros de lucro. São  políticos atrás de recursos para seus municípios, por exemplo.  Estes, sim,  defendem a instalação da usina nuclear e do descarte do lixo radioativo em determinadas cidades. E a Igreja jamais poderia concordar com um absurdo destes e por isso diz, sem nenhum receito, que é uma obra inviável para o sertão. Porque não promove vidas e causa impacto ambiental. E o Rio São Francisco já é tão sofrido! Este que leva o nome de um santo protetor do meio ambiente, ser agredido por algo tão nefasto para o Bem da Criação. É preciso seguir o Evangelho. Nele, Jesus diz: “Caminho, Verdade e Vida”. Nós não podemos mentir ou omitir, devemos promover a vida e caminhar junto com o Povo de Deus daquela comunidade. Vendo suas necessidades, cuidando, zelando da Casa Comum.

Frei Hermes: Os povos indígenas e quilombolas da região, como se manifestam?

Padre Luciano: Historicamente, os povos indígenas, assim como os de Matriz Africana desta região, são resistentes. Sempre lutaram por seus Direitos. Para estes importa a terra, sua família e uma Terra Mãe preservada. As etnias Tuxá e Pankará, assim como os Quilombolas de Poço do Cavalo; estão firmes nesta luta contra a instalação da usina nuclear. A Igreja age como apoiadora e irmanada. Caminhando junto. Não representa outros interesses que não os da população.

Frei Hermes: Quais as perspectivas de debate, de diálogo?

Padre Luciano: A CNBB, assim como organizações de resistência,  desafia o vice-presidente da ONB, Carlos Mariz, a um debate aberto. No qual, deve-se discutir a real situação da provável instalação da usina nuclear. Em contrapartida, eles fogem do debate. Um dos poucos debates que aconteceu foi em Itacuruba, pois eles não sabiam da possibilidade da presença dos grupos de resistência. Os grupos da comunidade, com a minha presença, se articularam em uma grande manifestação de protesto e oposição. Com danças da cultura indígena, entre outras manifestações em confirmação de nossa indignação face à proposta de instalação desta usina. O encontro acabou frustrado, sem a presença dos que os interessavam, pois só os que apoiam a instalação da usina são os funcionários da prefeitura, por promessas de renda de incentivo e compensação financeira a quem apoia a iniciativa. É neste sentido que a ONB tem apoio da política local. Envolve dinheiro. Não a preocupação com vidas, ou mesmo, o meio ambiente. Há também o deputado Alberto Feitosa que apoia a iniciativa da usina nuclear. Esperamos derrotá-lo na esfera da câmara estadual, assim como, na câmara federal. Há com este um diálogo. Ele é militar e defende estas estruturas do militarismo. Outrossim, não acreditamos nestas. São estruturas desumanas e maltratam o povo.

Frei Hermes: Padre Luciano, ficou-me uma dúvida: por que essa obsessão por uma usina nuclear? Historicamente sabemos que o Brasil frustrou várias tentativas. Internacionalmente, temos desastres exemplares. Por que uma usina nuclear, em meio a tanta desvantagem ecológica e medo que esta desperta?  

Padre Luciano: Hoje a questão é mais militar do que geração de energia. Dentro deste contexto, podemos lembrar que esta iniciativa de energia nuclear é um sonho da Marinha do Brasil. Desejam, no futuro, ter um submarino nuclear.  Quem tiver um submarino nuclear na Amarica do Sul, terá a supremacia armada. Pedagogia opressora em nível de nações. O sonho de supremacia militar americana, aculturando nossa política local. Com a instalação da usina e o beneficiamento do urânio, este desejo torna-se viável. Geologicamente, sabe-se que a região em que se interessa instalar a usina nuclear tem urânio. Assim como, também, no Ceará e  na Bahia.

Frei Hermes: Tecnologia nociva ao meio ambiente, nociva às culturas dos povos tradicionais, com fins de armamento e morte? Ideal doentio, não?

Padre Luciano: Certamente.

Frei Hermes: Quem está com você nesta luta, meu irmão?

Padre Luciano: Hoje nós temos o poio da CPT Nordeste-2, CIMI Nordeste-2, da Cartografia Social, da Associação Pro-Vida, da Diocese de Floresta, do Regional CNBB Nordeste-2, na qual os bispos também se mostraram contrários a estas iniciativas. Temos também o apoio dos Franciscanos da Ordem dos Frades Menores, presentes na região, representados pela Província Franciscana Santo Antônio, através da JUPIC, com a presença de Frei César. Podemos também lembrar Frei Lorrane, Viviam Santana, Dom Limacedo (a quem muito devemos por seus esforços), Diácono Jaime, Cláudia Leal (Provida), Valdeci (Liderança Quilombola), Cícera Cabral, Lucélia, Samuel, caciques e líderes quilombolas, Comissão sociotransformadora CNBB Nordeste-2, entre muitos companheiros e companheiras na fé e na vida. Há que se dar destaque a Dom Gabriel Marchesi, atual bispo de Floresta, que tem feito esforços hercúleos em defesa dos povos originários, em oposição ao projeto de construção desta usina nuclear.

Frei Hermes: Algo mais que gostaria de dizer sobre esta luta aos leitores do O Caminheiro do Reino?

Padre Luciano: Estamos em uma luta franca e aberta. Sempre no intuito de primeiro debater, por sincero e maduro diálogo. Seja na Assembleia Legislativa,  em audiências públicas, seja nas comunidades. Desejamos formar consciências em nosso meio. Apresentamos a exibição de um documentário sobre o desastre nuclear no Japão. Para que nosso povo saiba dos riscos que podemos correr com a instalação desta usina. Temos trabalhado debates, reuniões. Mas a ONB sempre se furta a estar presente. Em contrapartida, acusa nosso movimento de resistência infundada, emocional, sem argumentos científicos. Afirma que não agimos com a racionalidade científica. Mais uma falácia. Nosso movimento tem assessoria de especialistas na área, tais como Heitor Scalabrine Costa (Professor da UFPE), entre outros. Entretanto, continuam se negando ao diálogo. Ao embate público. Querem destruir nosso povo e sua terra, sem ao menos nos dar uma chance de defesa. Porém, na condição de Igreja de Jesus, não vamos desistir desta luta. Vamos até às últimas consequências. Quem nos motiva é o próprio Evangelho de Jesus. Este que veio para que todos tenham vida. E a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

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