Canta, Francisco, Canta!

Por| Hermes Abreu

Na biografia do pobrezinho de Assis, São Francisco, podemos ver sua íntima relação com a música. Marcou grande parte de sua vida. Até em seu trânsito, sua Páscoa Definitiva, esta esteve presente. O Cântico de Irmão Sol chegou ao seu termo, com o “Louvado seja, meu Senhor, pela irmã morte corporal…” Poesia e canto, em uma vida de radicalidade evangélica, de comprometimento com os valores perenes, com a construção do Reino de Deus. Mais que um seguidor de Jesus, tornou-se Alter Christus. Muita força, em ternos gestos. Em ternas palavras. Tempestade em brisa leve.

Em nossos dias, nós que nos sentimos inspirados pelo Sol de Assis, somos repetidores destes valores. Desejamos ser ternos e fraternos, servos e menores. Gente de Deus, gente do povo. Militantes nas pelejas. Na busca por iniciativas sanativas de tanto penar. Sem perder o tino poético, em meio a tanta aridez, tentamos – como Francisco de Assis – ver luz em meio às trevas. Esperança em meio a tanto desespero. Franciscanamente, buscar o impossível; fazendo um pouquinho de cada vez. E como tem sido difícil nestes tempos tão sombrios!

Ah, como tem sido difícil! Mesmo com o ardor da franciscanidade em nosso peito. É luto demais. É desesperança que se difunde. Onde encontrar refúgio? Javé, onde está que não responde o pranto de seu povo? O medo nos assombra. Como nos tem sido difícil louvar à irmã morte, em meio a tantos de nossos amados tombado, perdendo a vida. Não só por um vírus. Mais que a Pandemia, o desprezo pela vida tem sido a pior ferida a sangrar.

Ao nos deparar com os noticiários, temos sempre dois movimentos: a luta pela vida daqueles que são mais frágeis face à peste que nos assola, e a avalanche de incoerências dos que nos governam. Não estamos carentes só de vacina, saúde pública, estrutura. Estamos empobrecidos de Verdade. Esta, tornou-se mítica. Atributo ao eterno Delfos. Onde cada um entende a verdade ao seu prazer, em detrimento do bem do outro. Há morte por não se ter oxigênio em hospitais, enquanto não se justifica gastos públicos com banquetes dantescos. Sim, só na alegoria de Alighieri podemos expressar o inferno em que vivemos. Onde vidas valem menos que chiclete, que leite condensado. Aos pobres, aos necessitados; sempre a carestia. Dos privilegiados com o voto dos inconsequentes, a mentira deslavada, abusiva, mortífera.

Em meio a tão desesperadas lembranças, a figura de São Francisco nos calha. Este que esteve ao lado dos leprosos, dos miseráveis; nos exorta acerca de qual lado devemos estar. Postar-se junto aos que morrem, sem o zelo dos que nos governam. Postar-se ao lado dos injustiçados, dos abandonados. Os que se sentem chamados a seguir Jesus, ao exemplo de São Francisco, nada mais podem escolher do que estar – em resposta à sua consagração – ao lado destes que são os últimos, escarnecidos pelo poder.

Quando esta dor passar, quando finalmente nos advir o pós pandemia; ficarão corações enlutados. Neste tempo de recomeçar, que possamos ter a certeza de que tudo fizemos pelos prediletos de Jesus, os que sofrem. O contrário disso, é estar fora do Projeto dele. Fora das realidades do Reino.

Um dia, poderemos cantar em ação de graças o fim de todo sofrimento. Com Francisco cantaremos louvores ao Sol, à Lua. À vida. Será festa na Casa de Deus. Que esse tempo não tarde. Canta, Francisco, canta!

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