Fontes Franciscanas – Legenda dos Três Companheiros: Capítulo III

Capítulo III

Como o Senhor visitou primeiro seu coração com admirável doçura, em virtude da qual começou a crescer pelo desprezo de si mesmo e de todas as vaidades, bem como pela oração, pelas esmolas e pelo amor à pobreza.

7.
1 Não muitos dias depois que voltou a Assis, certa noite foi escolhido como senhor pelos seus companheiros para fazer as despesas conforme a sua vontade.
2 Então mandou preparar um suntuoso banquete, como já tinha feito muitas vezes.
3 Após a refeição saíram de casa. Os companheiros iam juntos na frente cantando pela cidade, e ele ia um pouco atrás, levando um bastão como senhor, não cantando mas meditando diligentemente.
4 Eis que, de repente, foi visitado pelo Senhor, e seu coração ficou repleto de tanta doçura, que não podia nem falar, nem se mexer, e era incapaz de sentir ou de ouvir outra coisa, a não ser aquela doçura que de tal modo o alienara do sentido carnal, que, como ele mesmo disse depois, mesmo se naquele momento fosse cortado em pedaços, não poderia mover-se daquele lugar.
5 Quando os companheiros olharam para trás e o viram tão longe deles, voltaram e, aterrorizados, viram-no como que mudado em um outro homem.
6 E perguntaram-lhe: “Em que pensaste que não vieste conosco? Será que pensaste em te casar?”
7 Respondeu-lhes com viva voz: “Dissestes a verdade, eu estava pensando em receber a esposa mais nobre, mais rica e mais bela que jamais vistes”.
8 Zombaram dele. Mas ele disse isso não por si mesmo e sim inspirado por Deus; pois essa esposa era a verdadeira religião que abraçou, mais, nobre, mais rica e mais bela que as outras pela pobreza.

8.
1 Desde aquela hora começou a considerar-se de pouco valor e a desprezar as coisas que antes tinha amado; mas ainda não plenamente, porque ainda não se tinha desligado de uma vez das vaidades do século.
2 Aos poucos, porém, subtraindo-se ao tumulto do mundo, procurava guardar Jesus Cristo no seu interior, ia muitas vezes, quase todos os dias, fazer orações em lugar secreto, ocultando aos olhos dos iludidos a pérola preciosa que desejava comprar mesmo tendo que vender tudo.
3 Para isso era impelido a sair das praças e de outros lugares públicos para rezar, de certa forma urgido pelo antegozo da doçura que o visitava mais freqüentemente.
4 Embora no passado sempre tivesse sido benfeitor dos pobres, contudo, desde esse instante, propôs mais firmemente em seu coração que nunca mais negaria uma esmola a nenhum pobre que lhe pedisse por amor de Deus, mas que faria esmolas com maior boa vontade e em maior abundância do que costumava.
5 Por isso sempre dava dinheiro, se podia, a qualquer pobre que lhe pedisse esmola fora de casa.
6 Se estivesse sem dinheiro, dava-lhe o gorro ou o cinto, a fim de não mandá-lo embora vazio.
7 Se nem isto tivesse, ia a algum lugar oculto, tirava a camisa e a mandava para o pobre, para que a levasse por amor de Deus.
8 Comprava também utensílios necessários ao decoro das igrejas e os enviava ainda mais secretamente aos sacerdotes mais pobres.

9.
1 Quando o pai estava ausente e ele ficava em casa, mesmo que comesse sozinho com a mãe, enchia a mesa de pães como se a preparasse para toda uma família.
2 Quando a mãe lhe perguntava por que punha tantos pães à mesa, respondia que fazia isto para dar esmola aos pobres, porque havia prometido dar esmolas a todos que a pedissem por amor de Deus.
3 A mãe, que o amava mais que a todos os outros filhos, tolerava-o nessas coisas, observando o que era feito por ele e ficando muito admirada com isso em seu coração.
4 Pois como costumava antes ficar atento para ir atrás dos companheiros quando o chamavam, e estava tão preso a sua companhia que muitas vezes levantava-se da mesa mesmo que tivesse comido pouco, deixando os pais aflitos por essa saída desordenada,
5 agora seu coração estava atento para ver ou ouvir pobres a quem dar esmolas.

10.
1 Portanto, assim mudado pela graça de Deus, embora ainda estivesse em hábito secular, desejava estar em alguma cidade, onde, desconhecido, pudesse tirar as próprias roupas e vestir as roupas emprestadas de algum pobre, para experimentar pedir esmolas pelo amor de Deus.
2 Aconteceu que nesse tempo foi a Roma, por causa de uma peregrinação.
3 Entrando na Igreja de São Pedro, observou que as ofertas de certas pessoas eram pequenas e disse consigo mesmo: “Se o Príncipe dos Apóstolos deve ser honrado com magnificência, como é que essa gente faz ofertas tão mesquinhas na igreja onde repousa o seu corpo?”
4 Então pôs a mão na bolsa com muito fervor, tirou-a cheia de moedas e as jogou pela janela do altar, fazendo tanto barulho que todos os que estavam presentes ficaram muito admirados com a magnífica oferta.
5 Saindo à porta da igreja, onde muitos pobres estavam pedindo esmolas, emprestou secretamente os trapos de um homem pobrezinho e, tirando sua roupa, vestiu nele.
6 Em pé nos degraus da igreja com outros pobres, pedia esmola em francês, porque gostava de falar francês, apesar de não saber falá-la direito.
7 Depois, tirando os tais trapos e retomando sua roupa, voltou para Assis e começou a orar ao Senhor para que dirigisse seu caminho.
8 Mas não revelava seu segredo a ninguém e, sobre isto, a nenhuma pessoa pedia conselho, exceto a Deus que começara a orientar o seu caminho, e, algumas vezes, ao bispo de Assis, porque, naquele tempo, não existia em ninguém a verdadeira pobreza que ele desejava acima de tudo neste mundo, nela querendo viver e morrer.

Fonte: Capuchinhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s