3º Domingo do Tempo Comum – 24 de janeiro

Por | Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos

I. INTRODUÇÃO GERAL

Na liturgia deste domingo, Jesus chama os quatro primeiros discípulos, e estes o seguem imediatamente. A primeira leitura enfatiza que também os ninivitas imediatamente se arrependeram e fizeram penitência após a pregação de Jonas. Naquele tempo, o povo de Israel pensava ser o único povo de Deus. A narrativa, contudo, mostra que os pagãos já eram sedentos de Deus no coração. Era necessário apenas que alguém lhes falasse sobre o Deus de Israel, para que se tornassem verdadeiros adoradores do único Deus. E Jonas, o escolhido do Senhor para essa missão, é um servo rebelde. Apesar de Jonas ter dificultado bastante o anúncio da mensagem divina aos ninivitas, estes, imediatamente, mostraram sinais de conversão após a pregação do profeta rebelde. Os ninivitas se prepararam para o julgamento de Deus, desejaram receber o perdão dos pecados. Esse tema retorna na segunda leitura: Paulo acreditava, como quase todos os cristãos daquela época, que Jesus voltaria glorioso a qualquer instante e tudo iria mudar. Então o apóstolo incentivou os cristãos a se prepararem para aquele momento.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mc 1,14-20)

Após narrar o ministério de João Batista (1,2-8), o batismo de Jesus (1,9-11) e a tentação no deserto (1,12-13), Marcos se dedica ao relato sobre o chamado dos primeiros discípulos, episódio que deu início ao ministério de Jesus. O evangelista, porém, esclarece que Jesus somente começou seu ministério depois que João Batista havia sido preso.

Jesus começou seu ministério anunciando o Reino de Deus. Reino, aqui, não é um território geográfico ou um lugar sobre o qual um rei exerce seu poder, mas significa que o Pai, Criador de tudo, é soberano na vida das pessoas e na história. Essa proclamação de Jesus não ficou clara para as pessoas da época, porque pensavam no Reino de Deus como uma restauração do poder político que Israel desfrutara durante o reinado de Davi e de Salomão. Quando ouviam a expressão “Reino de Deus”, pensavam em Deus governando sobre todas as nações por meio do povo de Israel. Jesus, contudo, falava sobre um tipo muito diferente de reino.

No anúncio de Jesus, a resposta apropriada para a vinda do Reino é dupla: 1) arrepender-se; 2) acreditar na Boa-nova. O arrependimento não é um sentimento de culpa, mas uma mudança de mente ou de direção; significa ver as coisas de uma perspectiva diferente. Acreditar, por sua vez, é estar convencido de que algo é verdadeiro e confiar nisso. A fé possibilita que as pessoas vivam com confiança em meio às dificuldades; permite dar um passo à frente na escuridão, confiantes de que Deus providenciará uma base segura, sobre a qual se podem dar passos firmes.

Por que os discípulos seguiram Jesus? Nada no texto responde a essa pergunta. Aparentemente, os quatro homens viram algo impactante em Jesus, algo que os fez renunciar a um estilo de vida e a coisas importantes para segui-lo. Para Simão e André, o sacrifício era deixar suas redes de pesca. Para Tiago e João, era deixar o pai e os barcos.

A iniciativa não foi daqueles quatro homens. Eles não se apresentaram a Jesus, pedindo que os aceitasse como discípulos. André e Simão estavam com a atenção voltada para a tarefa que estavam realizando – lançar as redes, na esperança de boa captura de peixes. O texto mostra que a iniciativa foi de Jesus. Isso é típico dos relatos de vocação: foi assim com Abraão, Moisés, Samuel, Isaías etc.

O chamado é pessoal. É um convite para seguir Jesus, não para se juntar a uma causa qualquer. Em contraste, os rabinos esperavam que os aspirantes a discípulos pedissem para segui-los. Além de tomar a iniciativa de chamar seus discípulos, Jesus tinha um objetivo diferente, porque os chamou não para ensiná-los a interpretar a Lei de Moisés, mas para aprenderem com a vida dele, com a convivência com ele, a discernir a vontade de Deus e realizá-la.

Jesus os chamou a trilhar um caminho que será mostrado aos poucos, um caminho não definido de antemão, o qual os discípulos não compreenderão até que tenham caminhado. É isto que o discipulado envolve: a fé para entrar no desconhecido, confiando em Cristo e se deixando conduzir por ele.

O detalhe sobre Zebedeu permanecer no barco com os empregados ilustra a rapidez com que Tiago e João tomaram a decisão de seguir Jesus. A razão de sua partida rápida é a natureza convincente do chamado de Jesus e a urgência do Reino de Deus.

2. I leitura (Jn 3,1-5.10)

A primeira leitura destaca a missão de Jonas e a resposta que os ninivitas deram ao anúncio que o profeta lhes fez. Aparentemente, o sucesso fácil da missão em Nínive é uma ironia a tudo que foi narrado anteriormente a respeito das atitudes de Jonas.

Quando se trata de Jonas, a maioria das pessoas pensa imediatamente na baleia que o engoliu. Essa é uma forma muito superficial de considerar a história. O Senhor havia chamado Jonas para ir a Nínive, uma cidade pagã, inimiga de Israel, para profetizar contra os pecados de seus habitantes. Jonas, possivelmente com medo e duvidando que o povo de Nínive acreditaria nele, tomou um navio e fugiu para a direção oposta ao destino que lhe fora indicado por Deus. Uma terrível tempestade ameaçou o navio, e os que estavam a bordo, pensando que Deus estava castigando Jonas, o jogaram no mar para que os demais pudessem se safar.

A narrativa, todavia, afirma que Deus salvou a vida de Jonas e o enviou, pela segunda vez, a Nínive para proclamar a necessidade de arrependimento dos pecados. Então os ninivitas imediatamente demonstraram arrependimento, mediante gestos concretos de penitência. Assim, Jonas ficou zangado, porque Nínive se arrependeu e Deus não destruiu a cidade.

O livro de Jonas foi escrito após o exílio na Babilônia. Na ocasião, muitos judeus se fecharam no nacionalismo extremo e se sentiam superiores às outras nações. Semelhantes a Jonas, também desejavam que Deus destruísse as nações consideradas inimigas de Israel. O objetivo do relato é que os judeus da época percebam sua falta de misericórdia e se conscientizem de que Deus ama e ajuda todos os tipos de pessoas. Os chamados por Deus, os escolhidos para uma missão, não são privilegiados ou amados de modo diferenciado por ele. Deus chama as pessoas em vista de uma missão, e os escolhidos são seus colaboradores. Os vocacionados são intermediários pelos quais Deus chega até aqueles a quem tanto ama, a saber, os destinatários da missão. Jonas é escolhido não porque é melhor ou mais amado que os outros, e sim porque Deus ama os ninivitas, apesar de serem pecadores. É para que se arrependam e mudem de vida que Deus envia Jonas até eles.

Jonas estava equivocado quando pensou que Deus queria destruir os ninivitas. Ele é um antiprofeta, porque proclamou aos ninivitas uma mensagem de vingança, afirmando que a cidade seria destruída como castigo por seus pecados. Tinha preconceito contra os ninivitas e não queria a conversão deles, por isso, desde o início, se recusou a abraçar a missão. Seu descaso foi tão grande, que, mesmo depois de aceitá-la, levou apenas um dia para atravessar a cidade, que precisava de três dias para ser percorrida. Jonas correu com a tarefa que Deus lhe havia dado. Fez de qualquer jeito, só por fazer, só para cumprir uma obrigação.

Mesmo assim, todo o povo de Nínive se arrependeu, “todos eles, grandes e pequenos”. Da parte de Deus, sua resposta aos ninivitas foi a misericórdia. A salvação chegou até eles, todos foram poupados, até plantas e animais. E tudo isso foi realizado apesar de o missionário negligenciar sua missão.

3. II leitura (1Cor 7,29-31)

Houve variadas razões pelas quais São Paulo teve de ser muito enfático e detalhista em seus ensinamentos aos cristãos de Corinto. Entre elas, estão:

• Corinto era uma cidade portuária com muitos visitantes, e nos locais de hospedagem havia todo tipo de vícios;

• embora Corinto não fosse Atenas, era um importante centro de filosofia e de religião; ideias novas e estranhas eram constantemente divulgadas ali. Portanto, a mensagem cristã se espalhou rapidamente;

• o cristianismo ainda não era considerado uma nova religião, mas um desenvolvimento do judaísmo, com muitas e inquietantes questões ainda sem respostas;

• os cristãos acreditavam que Jesus voltaria em breve e então o fim do mundo aconteceria. Sendo assim, não valia a pena planejar o futuro nem fazer mudanças radicais.

Por todas essas razões, Paulo dedicou esse texto importante aos temas do casamento e da moral sexual. Suas orientações aos casados, aos que estão de luto, aos que estão alegres e aos compradores têm por objetivo esclarecer que, quando o Cristo retornar, tudo irá mudar. Viver em prontidão durante a espera da vinda de Cristo faz parte da identidade cristã.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Visto que Jesus fez do Reino de Deus o centro de sua pregação, seus discípulos precisam fazer o mesmo. A Igreja, entretanto, é sempre tentada a deixar que outras coisas substituam a proclamação do Reino. Estamos sendo infiéis ao projeto de Jesus quando permitimos que isso aconteça. Tudo o que pensamos ser mais importante do que a proclamação do Reino de Deus torna-se um ídolo e não pode ser bom nem para a Igreja nem para a sociedade. O Reino é nosso objetivo, nosso horizonte e nosso maior bem, diante do qual tudo o mais se torna relativo.

É por causa do Reino que Deus nos chama e nos envia em missão, para poder alcançar todas as pessoas. Somos apenas instrumentos do Reino. Não sejamos rebeldes ao chamado de Deus, como foi Jonas.

Talvez algumas questões nos ajudem a refletir mais profundamente sobre as leituras. Consideremos, primeiramente, que o chamado é para cada um. Todos são vocacionados, as vocações é que são diferentes. Estou pronto(a) para responder ao chamado? Para seguir Jesus? Quais são minhas “redes”, isto é, o que está limitando minha liberdade de seguir Jesus? O que está dificultando meu caminhar até as pessoas às quais sou enviado(a)? Quais ambições egocêntricas me impedem de me doar?

Nada do que temos, sejam coisas ou apegos pessoais, é permanente. Tudo pode desaparecer a qualquer momento. Nada dura para sempre, senão os valores fundamentais do Reino de Deus – a verdade e o amor, a liberdade e a justiça. É o que somos, não o que temos, que conta, afinal.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

graduada em Filosofia e em Teologia, cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. E-mail: aylanj@gmail.com

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