Nossas comunidades sempre tecedoras da esperança

Por| Rosemary Fernandes da Costa

O verbo ‘esperançar’ vem ganhando lugar no centro de nossos corações, de nosso agir pessoal e comunitário. Ele retorna como água pura que quando bebemos sentimos o frescor e o alimento que renova a vida. É uma das lindas heranças que Paulo Freire deixou em nossas mãos.

Ele mesmo nos diz:

 “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” (Este texto está no livro Pedagogia da esperança, de 1992).

Apesar deste tema ter retornado em nosso momento histórico, no qual as narrativas de sentido parecem não ter mais lugar, se conhecemos o cotidiano do povo brasileiro veremos que a esperança é mola propulsora de vida, como nos lembra o pensador Ernst Bloch. A esperança não é uma virtude entre outras, é um princípio mobilizador, um princípio ativo, um eixo referencial em torno do qual todas as coisas ganham novo olhar e novas possibilidades. Ela nos permite ter sonhos, fazer sacrifícios, criar projetos e, quando derrotados, nos reerguermos.

Ao falar de esperança visitamos um outro conceito: a utopia. Não como lugar impossível de ser alcançado, mas como inspiração e convocação. É o que podemos perceber quando o encontro face a face acontece, quando a sensibilidade nos guia, quando a irmandade nos conduz. É o que já percebemos nas comunidades, nos encontros entre amigos, entre pessoas que se deixam guiar pelos corações que batem juntos.

Mas, como podemos tecer esperanças? Como podemos conjugar o verbo esperançar? Quais as fontes que podem nutrir a esperança?

As fontes que nutrem a esperança estão em torno de cada um de nós, basta olhar em volta, conectarmos com o lugar onde estamos, seja nossa casa, as pessoas que moram conosco, seja a comunidade mais próxima, seja conosco mesmos. A primeira fonte de esperança está no elemento de conexão, na ligação, no estabelecimento de vínculos, de laços, de cuidados concretos, de sintonia.

Uma outra forma de tecer esperança é criar uma rede de tecedores. Sim, isso mesmo. Viver em comunidade é como tecer juntos uma colcha de retalhos. Cada um traz sua narrativa, sua memória, sua preocupação, seus dons e gratidão, e vamos alinhavando um tecido com outro. Escutando atentamente, valorizando as palavras, nos identificando com as histórias e memórias, nos percebendo unidos nos sentimentos, tudo é linha dourada que vai reunindo os tecidos e, quando vemos, ali está a esperança. Ela brota de repente, não precisa ser intencional, pois ela surge justamente depois do trabalho de alinhavar as pequenas histórias e nos percebermos comum+unidade, comum+união, com+panheiros e com+panheiras.

Esperançar não é esperar passivamente, mas é criar as oportunidades das tessituras, é se dar conta de que caminhamos juntos na mesma estrada, ombro a ombro, coração a coração. Esperançar é não deixar ninguém sozinho, seja com sua alegria ou com sua dor. Esperançar é se descobrir sonhador que faz acontecer, que retira forças do próprio chão. Esperançar é se dar conta das estruturas sólidas firmadas nos muitos sinais já vivenciados por seus antepassados e na luta cotidiana de nosso povo.

Esperançar é olhar em volta e se perceber morador da comunidade coletiva, e ela se tornar sua base, sua matriz de percepção, de onde vemos e avaliamos cada situação.

Enfim, é o que nos faz humanos, é o que nos faz cidadãos do mundo, é o que nos faz habitantes da Casa Comum e, por isso mesmo, parceiros, corresponsáveis, amantes da vida para todos, para todas. A esperança que se torna atitude, ação, nos fala de que não há impossibilidades e sim situações, que podem ser modificadas, pois não são imutáveis.

Por isso, nos unimos à voz profética-terna-cuidadora de Paulo Freire, para nos conduzir através desse processo de encarnação do verbo esperançar. É nosso afirmar na solidez da comunidade, da comunhão. É nosso confirmar a importância do pensar juntos, pensar crítico, da construção de estratégias criativas. É nossa profissão de fé na existência humana que se faz e refaz na esperança.

Fonte: Portal das CEBs

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