Jesus, o Exorcista

Por| Prof. Dr. Frei Jacir de Freitas Faria (ISTA)*

O evangelho de nossa reflexão hoje é Mc 1,21-28, no qual Jesus aparece como exorcista. Você já deve estar se perguntando: como, Jesus exorcista? Começo explicando o motivo da aplicação dessa terminologia a Jesus. A prática do exorcismo acontecia não somente na Palestina, a terra de Jesus, mas também fora dela. O exorcismo faz parte do ser religioso da condição humana.

Acontece quando uma pessoa está possuída pelo demônio, o qual age por ela. Entra em cena alguém que faz uma disputa com o demônio e o vence, fazendo uso de palavras ou rituais de exorcismos. Nos evangelhos há uma aproximação entre a cura e o exorcismo. Até mesmo o fato de Jesus acalmar o mar (Mc 1,25;4,39), isto é, suas forças demoníacas, é visto como um ato de exorcismo.

O ambiente que propiciou o surgimento da prática do exorcismo no tempo de Jesus está relacionado com o fim dos tempos, bem como com a certeza de que Deus, de forma apocalíptica, iria interferir na história, vencendo as forças do mal para inaugurar um novo tempo na história. Não podemos também nos esquecer da tão esperada vinda do Messias que tem relação com a prática do exorcismo. E é nesse contexto messiânico que Jesus agiu como exorcista no relato de Mc 1,21-28. Ele era o Messias e, como tal, haveria de ter práticas exorcistas, o que responde ao fato de que demônios reconhecessem, facilmente, Jesus como Filho de Deus e Messias (Mc1,34), ao contrário do povo e dos discípulos que não eram capazes de reconhecer e fazer esse tipo de declaração pública.

O exorcista é aquele que age em nome de uma força divina, restabelecendo a ligação com o Sagrado. Em Mc 1,21-28, o exorcismo exercido por Jesus é descrito com vários elementos, a saber: 1. Jesus entra na cidade de Cafarnaum, em dia de sábado, na sinagoga; 2. ensina com autoridade; 3) um espírito mau o reconhece como Santo de Deus e o desafia; 4) Jesus ordena que o espírito saia daquele homem; 5) o espírito mau sacode o possuído, e, obedecendo a Jesus, sai dele. Trata-se, portanto, nessa passagem, de uma cena típica de exorcismo.

Passemos, agora, a interpretar alguns elementos em Mc 1,21-28.

a)     Cafarnaum, ou aldeia de Nahum, que significa ‘lugar do conforto’, onde Jesus estava, era situada na via do mar, a estrada comercial que ligava Damasco ao mediterrâneo. Jesus a adotou como sendo a sua cidade natal (Mt 4,13).

b)    Sinagoga, espaço importante de convívio social em Cafarnaum, era o lugar oficial de o judaísmo se impor como religião a partir dos ensinamentos de escribas e fariseus.

c)     Jesus entra na sinagoga com a autoridade superior à dos líderes judaicos, num dia de sábado, dia em que era proibido curar impuros, muito menos na sinagoga. Jesus subverte as leis judaicas.

d)    O ‘cala-te’ de Jesus dito ao possuído significou amordaçar o demônio que gritava como um animal ferido de morte. A atitude exorcista de Jesus demonstrou o seu querer libertar a terra de Israel do poder dominador dos romanos e das autoridades religiosas judaicas, os quais oprimiam o povo por meio da política, economia e religião.

e)     O espírito impuro/mau era o sinal de um povo dominado pela ideologia das lideranças judaicas.

f)     A admiração do povo não é por Jesus, mas pela autoridade de sua Palavra.

Para finalizar, vejamos o que isso significa para nós hoje. Jesus vai à sinagoga. O certo seria o contrário, pois Ele era o Filho de Deus e Messias. A sinagoga é que deveria ir onde ele estivesse. O Papa Francisco iniciou o seu pontificado pedindo para a Igreja, o clero, sair da sacristia e ir até o povo. Essa é a grande mensagem dessa passagem: ir até o povo e falar com autoridade, que é diferente de poder. Quem usa do poder faz o outro obedecer, pois esse é o seu desejo. Quem age com autoridade faz o outro crescer, explicando-lhe o motivo da sua ordem. Jesus agiu com a autoridade de exorcista que liberta o outro da escravidão e o faz caminhar com liberdade de Filho de Deus. Essa é a nossa missão, ser exorcista, ou melhor, exorcizar todas as formas de injustiças e domínios maléficos que não deixam ser humanos íntegros. 

***

* Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Últimos livros: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Coautor de: A releitura do Deuteronômio nos evangelhos. In: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida. (Org.). Deuteronômio: Escuta, Israel. 1ed.São Paulo: Paulinas, 2020, v. 1, p. 187-230. Inscreva-se no nosso canal: https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

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