Discipulado de mulheres: A mãe de Jesus

Por| Irmã Tea Frigério

Faz meses que o vinho está faltando, sua falta nos desafia.  Desafia-nos a doença, medo, insegurança, isolamento. Interpela-nos a pobreza crescente de quem morreu sozinho, de quem está abandonado, de quem perdeu o emprego e o salário, de quem não tem abrigo e comida. Talvez o testemunho das discípulas amadas nos dê luzes.

O Evangelho das discípulas amadas evidencia a figura do discipulado que fala de seguimento, que fala de testemunho, que aponta para o encontro, a relação pessoal com Jesus de Nazaré.

A memória da comunidade nos leva às margens do Rio Jordão onde João batizava, ao enxergar Jesus na fila do povo, proclama: “Eis …”. André e João ao ouvi-lo mudam de direção, seguem Jesus e perguntam: “Mestre onde moras?”. A resposta é um convite: “vinde e vedes!” (João 1,35-39).

Ir, ver, seguir, habitar, conhecer, testemunhar, amar: são os verbos que colocam em movimento o processo do discipulado. A experiência de ir e ver foi tão intensa, que a memória chega até nós e influencia nossa relação com Jesus, o Mestre amado.

As discípulas e discípulos de Jesus, nós hoje, somos elos da longa corrente de testemunhas: André e João, Pedro e Felipe, Natanael, a Samaritana, Marta e Maria, Lázaro, Maria Madalena…

Cada uma, cada um de nós poderia colocar nesta corrente os nomes que quem apontou o caminho. Vamos percorrer com elas, com eles, o caminho que nos torna discípulas, discípulos amados.

Neste caminhar a primeira discípula amada que encontramos é a Mãe de Jesus, a Mulher. A comunidade nos lembra esta antepassada em dois acontecimentos: nas Bodas de Canaã (João 2,1-12), aos pés da cruz (João 19,25-27).

Nas Bodas de Canaã, ela é presente com o filho. Seu olhar atento percebe que o vinho está acabando e com a falta do vinho a alegria vai virar tristeza, vai marcar esta aliança que está começando. A mãe, mulher, adverte a necessidade.  O filho, o homem, diz “Minha hora não chegou… tenho um programa, Mulher”. E a mãe-mulher antecipa a hora do filho, pronunciando uma frase: “Fazei tudo aquilo que ele vos disser”. São palavras de aliança, são palavras que fundamentam o seguimento de Jesus: a necessidade vem antes dos programas. São palavras que estabelecem circularidade entre a mãe-mulher, os serventes e o filho. São palavras que transformam os jarros de pedra dura morta, água de uma ritualidade que não é mais vinho de festa, de alegria, de novidade.

São palavras de aliança. Aliança firmada no Monte Sinai, geradora do Povo (Ex 19,6-8). Aliança a ser firmada aqui na festa de casamento que gera o novo Povo, a Comunidade.

Aliança, seguimento que pede olhar atento às necessidades. Seguimento que convida a escutar a voz da Mulher, a voz do Mestre. Voz que convida a escutar a voz, a ver os sinais, que é aprendizado: a necessidade vem antes dos programas, dos projetos; é voz que antecipa a hora; que é atenção e compreensão dos sinais que o Mestre realiza. Ver, ouvir, discernir os sinais que suscitam o crer, que suscitam vida nova.

Aos pés da cruz a Mãe-Mulher está presente, vive com o Filho seu ato de entrega, seu amor radical. A fidelidade ao Pai e aos últimos levou Jesus a assumir a morte na cruz. A fidelidade ao caminho do Filho levou a Mãe-Mulher a assumir a entrega do Filho como sua entrega. As fidelidades ao Pai, ao Filho, aos últimos, nesta hora de entregar o Filho, lhes pedem para acolher outro filho, filha. É a herança que Jesus lhe deixa: “Mulher, eis aí teu Filho”.

Aos pés da cruz está a Mãe de Jesus, com outras mulheres. Aos pés da cruz, na circularidade da dor, solidariedade, cumplicidade e amor fazem nascer a Comunidade no cuidado da Mulher, no testemunho de Mulheres. Igreja, comunidade dos discípulos e das discípulas amadas, que testemunha a circularidade do amor.

Maria mulher

mãe

mestra

discípula

testemunha

aberta à vida

antecipando os passos

seguindo o caminho do Filho

coração aberto que acolhe e derrama amor

Maria ensina-nos a ser contigo mulher, mãe, discípula amada.

Fonte: Portal das CEBs

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