A Igreja de Jesus ou igreja de Constantino?

Por| Karina Moreti,*

Logo após a prisão de Jesus, iniciou a perseguição aos seus seguidores. A começar, o próprio Pedro sentiu medo e negou Jesus três vezes, mesmo antes de Cristo ser crucificado.

Voltemos um pouco mais no tempo. Nas bodas de Caná, quando Maria pediu ao seu filho que fizesse algo pelo vinho no casamento, ele respondeu: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4). Mas depois que João Batista foi preso, Jesus retorna à Galileia e começa a pregar: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Desta feita, Jesus começa sua missão. Convida Simão e André, Tiago, João a serem pescadores de homens. Vai acolhendo. Proclamando o Reino. Convidando e preparando seus discípulos.

O tempo passa. Jesus é preso, morto, ressuscita. Inicia-se a perseguição. Uma perseguição que vinha de todos os lados. Os próprios judeus não aceitavam os cristãos no Templo. A perseguição de Roma era fortíssima. Foram muitos mártires. As pessoas que se convertiam ao cristianismo, sabiam todos os perigos que corriam. Mesmo assim, se preparavam durante dois anos para o catecumenato, a Iniciação à Vida Cristã.

Ser cristão era rebelar-se contra todo um sistema, tanto religioso, quanto político. Os encontros ocorriam nas catacumbas. Se fossem pegos, pregando sobre o Nazareno; era morte certa.

Foram vários os imperadores que perseguiram os cristãos.

A primeira grande perseguição aconteceu em 64, ordenada pelo imperador Nero. É a perseguição mais conhecida, vitimando os apóstolos Pedro e Paulo, entre outros. Mais tarde, Domiciano e depois Trajano, perseguiram a nova religião, pois acreditavam que ela oferecia perigo ao império.

Houve ainda Décio, onde as coisas ficaram ainda piores. As graves crises econômicas e a pressão dos bárbaros nas fronteiras do Império, fizeram com que o imperador procurasse uma forma de unir os romanos. Era preciso um símbolo. E o imperador buscou na religião tradicional, o paganismo, como melhor instrumento para alcançar o objetivo.

Décio se apresentou como um restaurador dos costumes antigos e das virtudes tradicionais de Roma. Segundo ele, era necessário o retorno ao passado glorioso para enfrentar e ganhar os mortais desafios do presente.

O Édito de Décio, de 250, ordenou que todos os cidadãos do Império fizessem um sacrifício público para os deuses, chamado supplicatio, e que fizessem oferendas, assim receberiam o libellum, certificado que atestava o sacrifício. Claro que isso expôs ainda mais os cristãos. Inicia-se a primeira verdadeira perseguição geral, porque atingiu todos os membros da comunidade cristã, dos chefes aos mais humildes, em todos os cantos do Império, não somente em Roma.

A perseguição de Décio foi seguida pela do imperador Valeriano (253-260 d.C.), que foi particularmente dura contra os chefes das comunidades, sequestrando os bens dos cristãos para tentar amenizar a situação catastrófica das finanças públicas romanas.

O objetivo de Valeriano era desestruturar de vez o cristianismo, com a destruição das Igrejas, a entrega e a destruição dos livros sagrados e a morte de muitos bispos e sacerdotes. Os políticos romanos acreditavam que eliminando os chefes das comunidades cristãs os fiéis acabariam se dispersando.

O imperador Galiano (253-268 d.C.), filho de Décio, imediatamente após a morte do pai, emitiu um édito de tolerância que garantiria 40 anos de tranquilidade aos cristãos. Diocleciano (284-305 d.C.), ao contrário, provocou a Grande Perseguição, entre 303 e 311, que acabou sendo a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial do cristianismo a ser implementada pelo Império.

Durante todo este período os cristão mantiveram-se fiéis aos mandamentos de Jesus. “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum” (At 2,44).

Em 13 de junho de 313 através do Édito de Milão ou Mediolano (em latim: Edictum mediolanense) o então imperador Constantino acaba com as perseguições.

Este documento determinava que o Império Romano tornara-se neutro em relação ao credo religioso. Oficialmente acabara toda perseguição, especialmente aos cristãos. A Igreja foi equiparada às demais religiões do Império e os cristãos ganham liberdade para professar e praticar livremente a sua religião. Mais tarde, em 395, o cristianismo foi oficializado como a única religião permitida no império, e a situação muda totalmente.

Com estas mudanças a Igreja passou por uma grande transformação. A organização do império foi sendo, aos poucos, assumida pela Igreja e a liturgia cristã assumiu todo o cerimonial da corte. Logo, os bispos que deveriam ser escolhidos inicialmente pela comunidade, passam a ser escolhidos pelos Imperadores. “Escolhei-vos, pois, bispos e diáconos dignos do Senhor, homens dóceis, desprendidos (altruístas), verazes e firmes, pois eles também exercerão entre vós a Liturgia dos profetas e doutores” (Didaqué XV, 1). Chegou ao ponto de até os concílios serem invocados pelos líderes de Roma.

Com todas estas mudanças, a Igreja do Nazareno foi perdendo sua identidade e tornando-se a igreja de Constantino. Igreja esta que acabou por muitas vezes assassinando a Igreja de Jesus. Perdendo seu aspecto mistagógico e profético. Aliando-se aos poderes constituídos, sucumbindo sua identidade. De oprimida pelo poder, para opressora para o poder. Entre a intuição e a instituição, a crise: sua essência e sua identidade!

E hoje, de qual Igreja queremos fazer parte? Daquela que tem seus altares cheios de imagens de barro, cheiro e incenso, pastores com as melhores roupas, carros do ano? Ou aquela Igreja onde muitos até hoje dão seu testemunho e sangue pelo Menino que nasceu em uma manjedoura? Uma Igreja da Cruz, ou da Glória? Uma Igreja de Constantino ou do Nazareno? Fica-nos o ensinamento de Paulo, Apóstolo. Não há Glória sem Cruz (cf Gl 6,14).

*Karina Moreti de Camargo é Jornalista. Bacharelanda em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco. Animadora Litúrgica da Diocese de Lins, SP.

2 comentários em “A Igreja de Jesus ou igreja de Constantino?

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  1. Bom dia Carina, paz e bem! Muito boa sua reflexão. Momento em que nós cristãos e franciscanos, devemos nos decidir a qual igreja devemos seguir. A Igreja de Jesus Cristo que se compromete com os pobres ou a Igreja de Constantino que continua presente defendendo o sistema de morte.

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