Para onde vai a Ordem Franciscana Secular no Brasil?

Por| Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)

1. A OFS do Brasil realizou sua XXXII Assembléia Nacional ou Capítulo Eletivo em Manaus. Um novo governo assumiu o serviço da Fraternidade Nacional. Todos esperamos que o Irmão Ministro, Antônio Benedito de Jesus da Silva Bitencourt e seu Conselho possam prestar um belo serviço à OFS. Penso que ele e seus colaboradores imediatos haverão de revestir dos melhores propósitos de serviço e disponibilidade pela causa dos leigos e leigas que se consagram a Deus na OFS, através de uma promessa/profissão de seguir o Evangelho à maneira de Francisco no meio do mundo, secularmente. No início deste triênio temos o dever irrenunciável de olhar a realidade, examinar os passos dados, as atitudes tomadas e traçar um caminho de futuro, marcado pela sinceridade em seguir Cristo Jesus. Por isso, cabe esta pergunta: Para onde caminha, ou pode caminhar, a Ordem Franciscana Secular no Brasil?

2. Antes de mais nada, espera-se que o Conselho eleito seja constituído de pessoas profundamente boas, transparentes, frágeis, mas nitidamente buscadoras da santidade. Não é constituído de peritos na arte da burocracia, mas de irmãos e de irmãs humildes, simples, fraternos e nunca buscadores do poder e do prestigio. A Regra da OFS lembra sempre isto: “Nos diversos níveis, cada Fraternidade é animada e conduzida por um Conselho e um Ministro que são eleitos pelos professor de acordo com as Constituições. Seu serviço, que é temporário, é um cargo de disponibilidade e de responsabilidade em favor de cada membro e dos grupos” ( n. 21).

3. Parece necessário, no momento em que novos irmãos assumem o serviço no Conselho Nacional, que nos lembremos do espírito de Francisco: “ ‘Não vim para ser servido mas para servir’ (Mt 20,28), diz o Senhor. Os que estão constituídos sobre os outros não se vangloriem de sua superioridade mais do que se estivessem encarregados de lavar os pés aos irmãos. E se a privação do cargo de superior os perturba mais que a privação do encargo de lavar os pés, amontoam para si tanto mais riquezas com perigo para sua alma” ( Admoestação 4). Desnecessário dizer que os franciscanos que amam postos e cargos para mandar estão longe do espírito de Francisco e, com sua atitude, ferem gravemente o Evangelho.

4. A Ordem Franciscana Secular precisa formar leigos verdadeiramente conscientes de sua missão de cristãos no mundo. Não basta que alguns irmãos e irmãs se reúnam piedosamente algumas vezes por ano. Os franciscanos seculares precisam compreender e adotar o esquema do ver, julgar e agir. A OFS se aproxima daquele espírito da Ação Católica tão elogiado pelos Papas. À mão dos documentos da Igreja, os seculares franciscanos ajudarão nas tarefas intraeclesiais, mas serão restauradores da Igreja no meio do mundo: fermento na massa, sal da terra e luz do mundo. Se as Fraternidades não compreenderem de fato esta dimensão, que sentido têm esses grupos?

5. Aproveitando a comemoração dos 800 anos do carisma franciscano, a OFS não se limite a congressos, palestras e confraternizações. “Quando Francisco naquele certo dia encontrou-se com o Evangelho, este lhe soou como uma revelação e um convite: a exemplo de Jesus Cristo, tornar-se pequeno, menor despojado de poder e de riqueza e, ir, assim pelo mundo, anunciando o Reino de Deus e a conversão. Francisco e, em seguida Clara e os respectivos grupos, desencadearam um movimento evangélico-penitencial que, em boa parte, correspondia aos anseios do tempo” ( Reviver o sonho de Francisco e Clara de Assis no chão da América Latina , FFB, p.8).

6. A Ordem Franciscana Secular, com sua Regra e sua mística, corresponderia aos anseios de nosso tempo? Eis uma questão fundamental. Não basta repetir práticas, fazer capítulos, eleger novos ministros. Importa ter consciência clara que a OFS tem sentido. Há aqueles que não vêm na Ordem nada que responda aos anseios do tempo moderno. Outros grupos são mais atraentes, mais profundos, mais compromissados com o Evangelho. É o que costumamos ouvir. Só podemos fazer propaganda vocacional, sobretudo no meio dos jovens, se os ministros e seus conselhos, nos diferentes níveis estão convencidos de que temos algo a oferecer. O que de bem concreto podemos propor aos homens e mulheres de hoje.

7. Pessoalmente estou convencido de que precisamos famílias evangelicamente franciscanas, trabalhadores franciscanos, políticos franciscanos, orantes franciscanos, cuidadores da natureza franciscanos, cristãos humildes e bons franciscanos. Se vivermos a Regra da OFS temos propostas belíssimas a serem feitas. Cabe, bem concretamente, neste contexto, elencar as grandes propostas evangélico-franciscanas-clarianas que temos a oferecer aos homens e mulheres da provisoriedade, do individualismo, do hedonismo e do consumismo, o perfume do Evangelho que nossos predecessores ofereceram a tantos e tantas. Nessa direção deve ir a Ordem Franciscana Secular se quiser viver e ser fiel ao carisma. Será que a OFS está sabendo tirar frutos nesse tempo de comemoração dos 800 anos do carisma? O que o Nacional e os Regionais andam propondo?

8. Não somos orantes espalhafatosos. Os franciscanos, também os seculares, gostamos do deserto, das grutas, do silêncio. Temos saudades dos Carceri e do La Verna. Nosso Pai nos ensinou que devíamos rezar o Ofício como manda a Mãe Igreja. Rahner dizia que os cristãos dos tempos novos ou seriam místicos ou não seriam nada. Entendamos por místicos aqueles que têm contatos regulares, saborosos e densos com o Senhor. Os membros da OFS rezam de verdade. Quando deixamos a oração, a missa quase que diária somos facilmente presas do inimigo que nos oferece o fruto do poder, da vaidade e, depois, ficamos com vergonha de Deus e não podemos mais olhar em seus olhos. Quisemos ser como deuses e Deus nos abandonou.

9. Os orantes franciscanos não se fixam. São sempre peregrinos, forasteiros. Espera-se que muitos irmãos e irmãs das fraterndades seculares se disponham a ser missionários, quem sabe, até em lugares mais distantes. A palavra mágica é missão. Os franciscanos são missionários pela palavra e pela vida, missionários da família, missionários na paróquia, missionários de verdade. Se as fraternidades seculares não colocarem em suas agendas o trabalho missionário, aqueles que não do nossos, tomarão nosso lugar.

10. Não se pode imaginar uma Fraternidade Franciscana Secular aburguesada, contente com seu conforto, satisfeita com a repetição de ritos. Todos os corações retos que poderiam querer fazer parte dos nossos desejam nos ver envolvidos com o mundo dos pobres. O amanhã de nossas Fraternidades passa pelo trabalho e a dedicação aos mais pobres. Todas as Fraternidades precisam ir ao encontro desses pobres que são os idosos mal cheirosos, as mães de filhos encarcerados e drogados, os doentes sem visitas e os jovens sem lenço, sem documento e sem esperança. Insisto na palavra pobre. Quando queremos responder à pergunta título desta reflexão inegavelmente a resposta aponta na direção dos pobres. Faço duas citações de Frei José Rodriguez Carballo, Ministro Geral dos Menores. Ele se refere aos frades. Mutatis mutandis os leigos também podem ser atingidos por estes pensamentos. O Ministro escreve aos frades a respeito de fraternidades inseridas em ambientes pobres. “Tudo isso levou-nos a tomar consciência do fato de não podermos escolher arbitrariamente os lugares onde morar, mas é necessário deixar-nos seduzir pelos claustros esquecidos, pelos claustros inumanos onde a beleza e a dignidade da pessoa são continuamente ofuscadas. Assim, aproximamo-nos um pouco mais dos pobres, primeiros destinatários da missão de Jesus para nós fazermos misericórdia com eles (Com lucidez e audácia em tempos de refundação, n. 74). Mais ainda: “Tendo presente nossa forma de vida, é também evidente que não se pode separar nossa obra evangelizadora de nossa vocação para a minoridade, pobreza e solidariedade. Por sermos menores, somos servos de todos, renunciando a exercer qualquer tipo de poder ou domínio sobre os outros; por sermos pobres, deixamo-nos evangelizar pelos pobres; por sermos solidários, alargamos nossa tenda para fazer nossas as alegrias e tristezas dos mais pobres e daqueles que mais sofrem” ( Idem,n.75). Os franciscanos sentem-se bem entre os pequenos. Na medida em que os irmãos e irmãs vão vivendo esse espírito, pode-se esperar que as eleições em nossos Capítulos tenham a característica de aceitar um fardo para servir e uma honra e um benefício em prol de seu ego.

11. A OFS cuidará de modo especial da vida em fraternidade. Os Capitulares escolheram como prioridade o revigoramento e renovação das reuniões da fraternidade.

(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Assistente Nacional da OFS pela OFM e Assistente Regional do Sudeste III

Fonte: Província Franciscana Imaculada Conceição

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