Apontamentos sobre a Fratelli Tutti – N° 143 – 145

O sabor local  (Fratelli Tutti 143 – 145)

Por| Frei Hermes Abreu

“143. A solução não é uma abertura que renuncie ao próprio tesouro. Tal como não há diálogo com o outro sem identidade pessoal, assim também não há abertura entre povos senão a partir do amor à terra, ao povo, aos próprios traços culturais. Não me encontro com o outro, se não possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico. Só posso acolher quem é diferente e perceber a sua contribuição original, se estiver firmemente ancorado ao meu povo com a sua cultura. Cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com o seu país, assim como deve amar e cuidar da própria casa para que não caia, ciente de que não o virão fazer os vizinhos. O próprio bem do mundo requer que cada um proteja e ame a sua própria terra; caso contrário, as consequências do desastre dum país repercutir-se-ão em todo o planeta. Isto baseia-se no sentido positivo do direito de propriedade: guardo e cultivo algo que possuo, a fim de que possa ser uma contribuição para o bem de todos.”

Antes de abordar as palavras do Papa Francisco, poderíamos nos lembrar da frase de Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Sócrates faz parte da filosofia clássica. Até mesmo é o primeiro a falar de filosofia. Os três mais importantes filósofos clássicos são Sócrates, Platão e Aristóteles.  Sócrates faz filosofia, Platão fala de filosofia, Aristóteles a sistematiza. Qual a importância disso? Muita. Se entendermos que tanto  Platão quanto Aristóteles vão influenciar a teologia na Patrística e na Escolástica.

Quando lembramos da frase de Sócrates “conhece-te a ti mesmo”, podemos entender que, se não nos conhecermos, termos uma boa leitura de nosso ser e pensar, nada poderemos ler da realidade que nos cerca. Claro que sabemos, historicamente, que este dito, “Conhece-te a ti mesmo”, não é uma frase de Sócrates. Está inserida em sua história.  Inscrita no templo de Apolo. Em Delfos. Outrossim, o Oráculo da Pitonisa, iria influenciar o pensar de Sócrates. Fazendo dessa frase um norte de seu método. Consequentemente, influenciaria os demais Platão e Aristóteles, sabendo que esses o seguem como que a uma escola evolutiva do pensamento.

O conhecimento de si mesmo se torna um caminho, uma provocação para se chegar ao verdadeiro discernimento. Não podemos nos deixar influenciar pelos reflexos do conhecimento que nos cercam, sem antes, olhar o que eles nos tocam. Ver a partir da superficialidade, é como ver por sombras ou reflexos. Os reflexos não são reais. São sempre alegóricos ou deturpados. Assim, devemos ver com nossos olhos, tomar opinião, experimentar. Mas aí já pularíamos na história. Entraríamos no empirismo.

Pensando que a realidade, sem análise e confronto com o eu, pode ser ilusória. Podemos nos lembrar do mito da Caverna. Ou alegoria da caverna. Esta, também conhecida como parábola da caverna,  ou prisioneiros da caverna; é uma alegoria de intenção filósofo-pedagógica, escrita pelo filósofo grego Platão. Encontra-se na obra intitulada A República (Livro VII), e pretende exemplificar como o ser humano pode se libertar da condição de escuridão, que o aprisiona, por meio da luz da verdade, em que o filósofo discute sobre teoria do conhecimento, linguagem, educação e sobre um estado hipotético. Lembramos que “A República” de Platão é um livro que se ocupa, junto com “O Banquete”, das questões relacionadas ao amor, da existência de um ser divino, do homem e a interrelação destes conceitos. Assim, se não nos olhamos, avaliarmos a nós mesmos e ao nosso meio, sempre nos deixaremos influenciar pela superficialidade.

O que isso tem de ligação com o Papa? Se, conforme ele, não podemos nos dispor ao diálogo sem uma intimidade pessoal, assim também como se não temos abertura a partir do amor aos povos, senão a partir da terra, estaremos em um processo de contextualização utópica. Quando não nos conhecemos, e ignoramos ao nosso meio, sem valorizar nossa cultura, nossa interação com a mesma, vemos o mundo por alegorias. Alegorias mentirosas como o consumismo. O desejo de ter para se realizar o ser. Daí voltamos ao “Conhece-te a ti mesmo”. Se temos consciência de nossa beleza existencial, nossas riquezas culturais e pessoais; o material, o consumo, não nos vem como realização e sim complemento de necessidade. Quem mais se conhece e ao seu meio, tem uma experiência essencial de existência. Sem se deixar levar pelo afã do materialismo utópico. Por isso, não me encontro com o outro. Estou ocupado demais realizando meus frustrados desejos. Esse conhecer-se é ter raízes. E, com elas, um contentamento inalienável. O ser em essência. Sem necessidade de alegorias. Sem vida em reflexos e, sim, realidade. Lembremo-nos aqui, mais uma vez, do mito da caverna. Esse conhecer-se e enraizar-se, torna possível e fecundo o doar-se. Tenho o que preciso pois valorizo e conheço o que sou. Assim, não me perco em realizações supérfluas de ter, possuir, apoderar. Neste sentido, o outro não me é estranho ou ameaçador, pois tendo ele suas riquezas existenciais, assim como eu as tenho, vem a somar; resultando em uma rede de cooperação e mútuo crescimento. Como disse o Papa, “cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com seu país, assim como deve amar e cuidar de sua própria casa para que não caia, ciente de que não o virão socorrer os vizinhos.” Aqui o Papa não faz uma apologia ao egoísmo. Não, mesmo! Convoca à responsabilidade. Cora Coralina, em sua sabedoria sertaneja, vai dizer:  ”quem tem boa cumeeira, pode dar guarida ao outro na chuva forte e surpresa.”

Penso que podemos sintetizar  este parágrafo, ou número 143, assim: devemos nos conhecer. A nós, enquanto pessoa, e ao nosso meio. Amar o que somos e temos, como processo de interação e mútuo conhecimento. Só assim, poderemos estender nosso bem querer ao outro. Às diferentes culturas. Assim como, socorrer outros quando as tempestades da vida se nos surpreender.

“144. Além disso, é um pressuposto para intercâmbios sadios e enriquecedores. A base adquirida a partir da experiência da vida transcorrida num certo lugar e numa determinada cultura é o que torna uma pessoa capaz de apreender aspectos da realidade que não conseguem entender tão facilmente quantos não possuem essa experiência. O universal não deve ser o domínio homogeneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante, que perderá as cores do poliedro e ficará enfadonha. É a tentação manifestada na antiga narração da Torre de Babel: a construção daquela torre que chegasse até ao céu não expressava a unidade entre vários povos capazes de comunicar segundo a própria diversidade; antes pelo contrário, foi uma tentativa, nascida do orgulho e da ambição humana, que visava criar uma unidade diferente da desejada por Deus no seu plano providencial para as nações (cf. Gn 11, 1-11).”

No 144 da Fratelli Tutti, o Papa continua a reflexão do número anterior. Sobre conhecimento de um horizonte particular, para compreensão do outro. Para se bem viver as interrelações, é preciso ter entendimento de nossos valores. “É um pressuposto para intercâmbios sadios e enriquecedores. A base adquirida a partir da experiência da vida transcorrida num certo lugar e numa determinada cultura é o que torna uma pessoa capaz de apreender aspectos da realidade que não conseguem entender tão facilmente quantos não possuem essa experiência.”  Este pensamento é consequente do pensamento anterior. Ter raízes, compreender sua origem, como referenciamento para a acolhida do outro. “O universal não deve ser o domínio homogêneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante, que perderá as cores do poliedro e ficará enfadonha. É a tentação manifestada na antiga narração da Torre de Babel: a construção daquela torre que chegasse até ao céu não expressava a unidade entre vários povos capazes de comunicar segundo a própria diversidade; antes pelo contrário, foi uma tentativa, nascida do orgulho e da ambição humana, que visava criar uma unidade diferente da desejada por Deus no seu plano providencial para as nações (cf. Gn 11, 1-11).”

A tentativa de se abraçar uma universalidade é nociva, pois sempre é ascendente. Como a torre de Babel. O que é vertical, anula o planífero, o horizontal. Fazendo com que se gere uma aculturação. Reprimindo, sempre, as minorias.

Neste sentido, em continuidade ao pensamento do número anterior, o Papa Francisco, neste número 144, vem nos alertar do perigo da universalidade. Levantamos os olhos ao alto. Deixando de nos enxergar, à nossa cultura e aos que nos cercam. O maior erro da Torre de Babel foi apontar para o alto e não para os irmãos.

“145. Existe uma falsa abertura ao universal, que deriva da superficialidade vazia de quem não é capaz de compreender até ao fundo a sua pátria, ou de quem lida com um ressentimento não resolvido face ao seu povo. Em todo o caso, «é preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. É necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio lugar, que é um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está próximo, mas com uma perspectiva mais ampla. (…) Não é a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza».[125] É o poliedro, onde ao mesmo tempo que cada um é respeitado no seu valor, o todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas.”

Assim o Papa conclui o subtítulo do Capítulo IV da Fratelli Tutti, sob o nome “O Sabor Local”. Uma reflexão, recheada de exortações ao conhecimento pessoal e local, levando ao respeito do outro. Um texto edificante e provocador. Atentos às palavras do Papa Francisco, poderemos entender mais nossa inquietação humana e, no respeito à diversidade, vivermos de forma mais plena, em fraternidade e amizade social.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: