Pandemia, fator multiplicador da discriminação anticristã

Em aumento as perseguições contra os “últimos da fila”, afirma Cristian Nani, diretor de Portas Abertas-Open Doors, também destacando ao Vatican News alguns sinais de esperança, como por exemplo, no Sudão.

Debora Donnini – Cidade do Vaticano

No Angelus na festa de Santo Estêvão, o primeiro mártir, o Papa Francisco pediu orações pelos cristãos perseguidos, sublinhando mais uma vez que “são mais numerosos que nos primeiros tempos”:

Rezemos hoje por aqueles que sofrem perseguição por causa do nome de Jesus. São muitos, infelizmente. São mais do que nos primeiros tempos da Igreja. Confiemos à Nossa Senhora esses nossos irmãos e irmãs, que respondem à opressão com a mansidão e, como verdadeiras testemunhas de Jesus, vencem o mal com o bem.

O primeiro mártir foi Santo Estêvão, recordado pela Igreja no dia 26 de dezembro. Mas o fenômeno da perseguição ao longo da história marcou o cristianismo, assumindo diferentes faces e formas. Mesmo com “luvas de pelica, deixados de lado, marginalizados”, como denunciou o Papa na Audiência Geral de 11 de dezembro de 2019.

Cristian Nani, diretor da Portas Abertas na Itália – a agência missionária cristã que ajuda os cristãos perseguidos por causa de sua fé em 60 países ao redor do mundo – fala ao Vatican News do aumento das perseguições em 2020 em comparação com o ano anterior – relembrando que os números do ano passado falavam de pelo menos 260 milhões de cristãos perseguidos no mundo e 2.983 cristãos mortos por causas relacionadas à sua fé. Em 13 de janeiro, será lançado o Relatório 2021 da Portas abertas – Open Doors sobre a liberdade dos cristãos, que examina o período de 1º de outubro de 2019 a 30 de setembro de 2020 e oferecerá dados bem precisos.

R.- A perseguição continua aumentando. Dados precisos para 2020 serão divulgados em 13 de janeiro de 2021 com o lançamento internacional da nova World Watch List, a lista dos 50 principais países onde os cristãos são mais perseguidos no mundo. Veremos, portanto, um aumento do número de cristãos perseguidos globalmente e, neste caso, dado que é de particular interesse para a nossa pesquisa, nos primeiros 50 países da lista. Em relação ao número de cristãos assassinados por motivos de fé, gostaria de enfatizar que se a violência se destaca na cobertura da mídia pelo caráter trágico do acontecimento em si, por outro lado é importante sublinhar o fator discriminação e pressão sobre os cristãos, capazes de tornar a vida uma verdadeiro “inferno”: dificuldades de acesso ao mundo do trabalho, à saúde, ao sistema de ensino, substancialmente, aos direitos fundamentais. Estes são apenas exemplos do que os cristãos vivenciam em países como Coreia do Norte, Afeganistão, Somália, Paquistão, etc. Nosso relatório analisa tanto o fator violência quanto o fator pressão/discriminação, analisando como esses dois fatores se materializam nas 5 esferas da vida do indivíduo que professa a fé cristã: privada, familiar, comunitária, nacional, eclesial.

Este 2020 foi um ano marcado pela pandemia que atingiu todo o mundo e certamente incidiu também sobre as perseguições. De que forma?

R.- Toda a nossa campanha de apoio aos perseguidos gravitou este ano em torno de um fato: a Covid-19 se somou à perseguição. A pandemia foi um multiplicador das discriminações contra os cristãos. Para citar um fato concreto, a grande maioria dos cristãos na Índia e em Bangladesh alcançados por nossos parceiros locais – até o Natal, teremos ajudado mais de 120.000 pessoas na Índia e mais de 24.000 em Bangladesh – a grande maioria dessas pessoas não teve acesso às ajudas fornecidas pelo Estado, na verdade eles foram sistematicamente discriminados enquanto cristãos na distribuição de bens de primeira necessidade, de máscaras e ajudas contra a Covid. Em uma de nossas campanhas de apoio a essas pessoas marginalizadas, nós os definimos como “os últimos da fila”, porque de fato são. Muitos deles também tiveram negado o acesso a cuidados médicos pelo mesmo motivo. Isso na Ásia. Deslocando-se para a África, na Somália, os cristãos às vezes são culpados pela disseminação da pandemia como infiéis, em uma mistura de islamismo radical e superstições animistas. Na África Subsaariana, especialmente em áreas particularmente radicalizadas como o norte da Nigéria e seus arredores, os lockdowns têm sido oportunidades para grupos terroristas, gangues criminosas e criadores Fulani para atacar comunidades cristãs, destruir, matar e sequestrar, como vimos relatado pela mídia.

Quando há um agravamento das condições de vida, as minorias são as primeiras a sair perdendo, principalmente mulheres e crianças, mesmo por meio de abuso sexual ou estupro. Essa forma de violência foi forte novamente este ano?

R.- Onde há perseguição, as mulheres cristãs, em países por exemplo como Índia e Paquistão, tornam-se alvos fáceis de agressões sexuais e violência. Em contextos em que os direitos das mulheres já são por si só pouco desenvolvidos, a perseguição e a discriminação contra as mulheres são atividades de baixo risco para o perpetrador. Nos últimos anos, Portas Abertas tem aperfeiçoado a pesquisa nessa área, produzindo um relatório todos os anos no final de fevereiro que examina a perseguição baseada no sexo e estamos apenas tocando a ponta do iceberg dessa violência doméstica.

Mas gostaria de acrescentar outro detalhe importante: as mulheres convertidas ao cristianismo são ainda mais vulneráveis. Imagine uma mulher muçulmana que se converte à fé cristã em um país islâmico e que, portanto, sofre o assédio de sua família. Agora soma-se o lockdown e pensar nessa pobre mulher trancada em casa, às vezes, com aqueles que são seus perseguidores, talvez frustrada com a pandemia e seus danos econômicos. O coquetel de elementos é explosivo. Mas isto também se aplica a um jovem muçulmano convertido à fé cristã: esperamos um aumento deste tipo de violência, conscientes de que os dados não declarados, especialmente em 2020, serão incalculáveis.

Para dar uma visão geral, quais dos 100 países que vocês analisam são aqueles onde há maior violência? Quais são as novidades e possivelmente alguns sinais de esperança?

R. – O lugar onde os cristãos são mais perseguidos até agora é a Coreia do Norte. Reitero que a perseguição não fala apenas a linguagem da violência física, antes pelo contrário, usa muito mais a da discriminação, do assédio contínuo, da negação dos direitos fundamentais. Dito isso, os países onde o Relatório do ano passado registrou a maior violência são a Nigéria e as nações vizinhas, como Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, mas também Mali e Burkina Faso, como muitos hão de lembrar. Mas o próprio Paquistão tem um elevado nível de violência anticristã, assim como a Índia e, infelizmente, o vizinho Egito. Um sinal de esperança certamente nos chega do Sudão, uma nação que passou por uma mudança histórica: um regime caiu, a lei da apostasia foi abolida e outras leis que limitavam a liberdade religiosa também foram revogadas. Este é um passo em frente e um sinal de esperança.

O tema da fraternidade foi fortemente colocado no centro neste tempo pelo Papa Francisco, que lhe dedicou a Encíclica Fratelli Tutti. Quão importante é essa sensibilização, também para combater a violência que na realidade instrumentaliza a religião?

R. – Cada exercício que redescubra, valorize e fortaleça o conceito de amor ao próximo é de vital importância para a construção de um mundo melhor: estamos diante de uma abordagem da vida que melhora indiscutivelmente a sociedade. Do ponto de vista dos cristãos, trata-se de “propor uma forma de vida ao sabor do Evangelho”, para usar as palavras da Encíclica, e para que isso aconteça no quotidiano do cristão, duas ações intencionais são para mim essenciais: conhecer o Evangelho e conhecer o próximo. Estou persuadido – porque tentei em minha vida – de que quanto mais conheço intimamente o Deus falado no Evangelho, mais crescerá em mim o amor por Ele, que encontrará uma via natural na vida do meu próximo, e isso inevitavelmente me levará a conhecê-lo melhor, para poder amá-lo com o amor que recebi do Pai. É um ciclo da graça divina, mais um dom que Deus nos concede: se o aceitamos, se o vivemos, redimimos o mundo que nos rodeia!

E se há uma maravilha que arrancou lágrimas até dos olhos mais gelados em 2020, é como muitos diante da Covid escolheram doar-se, estou pensando, por exemplo, nos médicos, enfermeiras, trabalhadores de saúde em lares de idosos e assim por diante. Doando-se como um antídoto à Covid! O homem ainda se maravilha com o bem: ele sabe que não existe alternativa ao bem.

Fonte: Vatican News

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