Ser Igreja pobre

Por| Frei Marcos Sassatelli

“O Vaticano II faz-nos passar de uma Igreja-poder para uma Igreja pobre, despojada, peregrina” (Dom Aloísio Lorscheider).

Igreja pobre: é Igreja para os pobres, com os pobres e dos pobres; é Igreja que está do e ao lado dos pobres, caminhando juntos em busca da libertação e da vida; é Igreja simples, misericordiosa e solidária – a simplicidade, a misericórdia (a compaixão) e a solidariedade (a partilha) são o amor acontecendo; é Igreja de irmãos e irmãs, em comunhão entre si, com a Irmã Mãe Terra – nossa Casa Comum – e com Deus; é Igreja sinal visível (sacramento) da presença de Jesus de Nazaré no mundo; é Igreja que vive a pobreza-virtude e combate a pobreza-falta de condições por uma vida digna para todos e todas, que é uma violência institucionalizada, um mal social (sócio-econômico-político-ecológico-cultural e religioso): pecado estrutural, anti-Reino de Deus.

Todos e todas somos chamados e chamadas a fazer parte dessa Igreja pobre. “Para servir de apoio aos pobres, é fundamental viver pessoalmente a pobreza evangélica” (Papa Francisco. Mensagem para o IV Dia Mundial dos Pobres, 2020, 4).

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres” (Lc 4,18). “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). A Opção pelos Pobres não é “preferencial” (uma alternativa entre duas ou mais alternativas), mas exclusiva. É a Opção de Jesus de Nazaré, é o caminho que Ele fez e é o único caminho para quem quer segui-lo.

Sobre a Igreja pobre, meditemos os textos do Pacto das Catacumbas (16 de novembro de 1965) e do Pacto das Catacumbas pela Casa Comum (20 de outubro de 2019), em: http://www.ihu.unisinos.br/.

Igreja despojada: é Igreja pobre que, em sua caminhada de renovação – com avanços e recuos – se despojou de muitas influências negativas da sociedade imperial, feudal e capitalista, mas que tem ainda uma longa estrada a percorrer para voltar a ser hoje Igreja realmente evangélica. Vejamos! A Igreja precisa se despojar e libertar:

– do poder temporal (do Estado do Vaticano: Jesus de Nazaré nunca quis uma Igreja-Estado); do poder clerical hierárquico (por exemplo, das cátedras: Jesus e São Pedro nunca sentaram em cátedras, a não ser na “cátedra” da cruz); dos comportamentos diplomáticos (“diga apenas ‘sim’, quando é ‘sim’ e ‘não’, quando é ‘não’” – Mt 5,37);

 da construção de Santuários, Catedrais e Igrejas suntuosas (um exemplo histórico: a Igreja de S. Francisco de Assis – logo S. Francisco! – em Salvador – BA, com todo o interior coberto em ouro; um exemplo atual: o mirabolante e absurdo projeto do segundo Santuário novo do Divino Pai Eterno – o primeiro terminou há poucos anos – com o maior sino do mundo, em Trindade – GO; observação: a respeito das denúncias do Ministério Público de Goiás sobre o caso, veja o meu artigo: “A exploração dos pobres em nome da fé”, em: http://freimarcos.blogspot.com/);

– dos títulos honoríficos (‘Monsenhor’, ‘Sua Excelência ou Eminência Reverendíssima’, ‘Sua Santidade’ e outros); do barrete e das vestes cardinalícias de cor vermelho-púrpura (a farisaicamente chamada “sagrada púrpura”, um verdadeiro aparato imperial; hoje, os “cardeais” são os trabalhadores e trabalhadoras que representam legitimamente os “mártires da caminhada” e que – com fita vermelha no pescoço e boné vermelho na cabeça – organizam romarias e/ou celebrações em sua memória); das mitras dos bispos (outro aparato imperial, que não tem nada a ver com o Evangelho); das celebrações triunfalistas e cheias de pompa; dos paramentos e objetos litúrgicos luxuosos (por exemplo, um ostensório de ouro transportado em procissão, com Jesus – presente na pessoa dos pobres e descartados – assistindo deitado na calçada ao lado).

Igreja peregrina (romeira): é Igreja pobre e despojada “em saída” permanente, fazendo acontecer o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo (retomaremos o assunto no último artigo da série: “Ser Igreja-missão”).

Feliz Natal 2020 e Ano Novo 2021. Lembremos: “O Natal de Jesus tem lado”  (veja em: http://www.ihu.unisinos.br/ ou http://freimarcos.blogspot.com/).

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