Quando vão retirar o Discurso Político da Igreja?

“O espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar todos os aflitos, os aflitos de Sião, para transformar sua cinza em coroa, seu luto em perfume de festa, seu abatimento em roupa de gala.” (Is 61,1-3 ||Lc 4,18ss)

Por| Fr. Hermes Abreu

Muitos são os que insistem com a queixa de que a Igreja Católica está cheia de discursos políticos. Exortam que a mesma deve se ocupar da salvação das almas, do céu. Em contrapartida, a Palavra de Deus, assim como o Magistério da Igreja, nos impelem a olhar ao redor. Ao fazê-lo, vemos a multidão de miseráveis que nos cerca. É muita dor. Deve a Igreja ignorar? As Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil dizem:

“Evangelizar no Brasil cada vez mais urbano,
pelo anúncio da Palavra de Deus,
formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo,
em comunidades eclesiais missionárias,
à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,
cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude.”

Falando-se de Opção Preferencial pelos Pobres, Casa Comum, Plenitude; não se pode ignorar o intrínseco diálogo com os problemas que afetam a sociedade e a economia. É do viés da Economia a pobreza. Assim como, só se pode tratar das iniciativas sanativas das fraturas sociais, trazendo à baila, políticas públicas. Evangelizar neste contexto, conforme as diretrizes da CNBB grifadas acima, é estar em atenta sensibilidade à dor dos empobrecidos, em constante militância quando Direitos Fundamentais são negados, em participação ativa na construção de uma cultura de Paz e Direitos. “Quero ver o direito brotar e correr a justiça qual riacho que não seca.” (cf. Am 5, 24) Da Profecia de Amós nos vem o imperativo.

Amós está incluído no grupo dos “mensageiros da aliança”, e a maior parte de suas declarações são fragmentos de atividades judiciais da aliança, nos quais Javé, nos papéis de promotor e juiz, faz as acusações e condena a liderança do povo por violar a aliança e deixar de “observar os princípios básicos da política social expressa no decálogo”, explorando os fracos e pobres (Am 2,4-7). Provavelmente, Amós profetizou entre os anos 760 e 755 a.C., durante o reinado de Jeroboão II, no reino do Norte (793-753 a.C.), pondo ênfase na questão social e econômica ao denunciar o luxo excessivo às custas da exploração da população comum. Uma realidade não muito diferente da que vivemos hoje.

Só em citar Amós, já podemos ter a certeza que questões relacionadas a governo e justiça são da pertinência de Deus. Enquanto os abastados e funcionários do Estado viviam na comodidade, usufruindo do conforto concedido pela situação, os camponeses eram obrigados a bancar, com muito sofrimento, os planos de expansão comercial e militar de Jeroboão II. O rei impôs um aumento na tributação e colocou o serviço religioso como o centro arrecadador, usando as festas e rituais para incentivar a produção e, consequentemente, aumentar a arrecadação. Amós era contra essa religiosidade que de divina não tinha nada! A classe dominante de Israel “multiplica as transgressões”, subjugando e empobrecendo o povo, usando até a força bruta para conseguir seus intentos (cf. Am 3,9-10; 4,1; 8,4). A necessidade que o Estado tinha de criar riquezas, forçando os camponeses com a tributação, surgiu graças aos altos custos do aparato militar, da elite administrativa, da expansão do comércio internacional e do consumo dos produtos de luxo importados. Tudo isso bancado pelo povo (cf. Am 4,1), que era pisado (cf. Am 2,7), aterrorizado (cf. Am 3,9), esmagado (cf. Am 4,1) e destruído (cf. Am 8,4) pela tributação estatal. Amós deixa bem claro que a classe dominante em Israel se encontrava em uma situação confortável, segura e sem problemas. Viviam com a confiança de que o mal nunca se aproximaria deles. Agradeciam a Deus pela prosperidade, mas não se preocupavam nem se “afligiam com a ruína de Israel”. A religiosidade dos abastados era de uma espiritualidade equivocada, já que achavam que Deus estava ao lado deles, abençoando-os, enquanto oprimiam os pobres e necessitados. Paradoxalmente, Deus desceu para onde está o escravo, o sofredor, o oprimido. Ele nunca se encontra no lugar que é ocupado pelos opressores, pois nesses lugares existe a tendência de arrastar Deus para o seu lado com o objetivo de legitimar o esquema opressor. Javé sempre olhou pelos pobres e necessitados e nunca irá abençoar qualquer sistema que use de opressão para manter-se. Uma questão de fé. Uma questão política.

Devemos concordar que a opção partidária – como forma de expressão política – quer seja para ministros ordenados, quer para todo o povo de Deus, é algo melindroso para nossos dias. Há que se reconhecer que aqueles que hoje confiamos, na esfera política, não se furtam de nos decepcionar tempos depois, dados envolvimentos nos esquemas de corrupção que tornaram-se reincidentes na história nacional. Neste sentido, homilias não são palanques para propaganda eleitoral. Outrossim, a necessidade de uma evangelização e uma ação pastoral que tomem como caminho a transformação da sociedade, é inegável. Já em tempos do Papa Leão XIII, por meio da Rerum Novarum, publicada em 1891, questões sobre Igreja e Sociedade, são abordadas dando início ao que entendemos como Doutrina Social da Igreja. É nesta Doutrina que se sustenta toda ação evangelizadora, na qual, temas políticos – tais como – desigualdade social, sucateamento dos serviços públicos de educação e saúde, desrespeito aos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana e Direitos Ecológicos; venham ao pensar e agir. Tudo aquilo que põe em risco a vida e sua dignidade é do horizonte, quer teológico, quer pastoral. Bem nos ensinou o saudoso D. Pedro Casaldáliga: “Não faço pastoral para os anjos, mas para os homens e mulheres. Homem e mulher índio, camponês, sofredor, caminheiro. Construir o Reino de Deus é colocar-se ao lado destes que sofrem e só têm em Jesus alento e esperança.”

Voltemos a pergunta inicial: Quando vão retirar o discurso político da Igreja? Quando dela retirarmos Deus e os Homens.

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