Franciscanamente: Em torno da pureza do coração

Já se disse muitas vezes que as Admoestações ou Exortações de Francisco de Assis constituem suas bem-aventuranças. Lendo Mateus escutamos o Mestre falar da cartilha da felicidade e ouvindo Francisco na sua ladainha da felicidade, mergulhamos no mais profundo da vida desse que foi designado de Cristo redivivo. O presente texto, de alguma forma, comenta a admoestação XVI do Poverello. São páginas, quase tradução, de Michel Hubaut, Chemins d’intériorité avec saint François (Ed. Franciscaines).

Por| Frei Almir Ribeiro Guimarães

Leves e livres para o amor

Frequentemente nos “Escritos de São Francisco” encontramos expressões como “pureza de coração”, “pura e simplesmente”, “com uma intenção pura”, “ter o coração e espírito puros”. Para Francisco, pureza de coração é uma maneira de englobar todos os relacionamentos com Deus, com os outros, com a criação e conosco mesmo. Pureza tem tudo a vez com inteireza, transparência, frescor original e se opõe a duplicidade.

As intuições de Francisco aproximam-se das preocupações hodiernas. Criado à imagem de Deus, o homem é um ser de relações. Tem necessidade de amar e de ser amado e reconhecido pelos outros. O pecado é sempre o amor ferido ou enterrado. No seio de nossos relacionamentos é que se opera a conversão evangélica que nós, franciscanos, nos propomos a viver.

Ser de relação que é, o homem, não poucas vezes, tem medo de sair de si, de encontrar os outros. Sair de si, de seu mundo familiar para colher o diferente, o estranho é risco e motivo de receio ou mesmo de medo. Medo de ver seu universo interior ou exterior ameaçado, questionado pelo outro e por sua diferença. Sair de si, de seu ambiente social, de seu universo cultural ou religioso para encontrar os outros demanda descentralização de si.

Nossos relacionamentos se concretizam numa mistura de desejos e agressividade. Diante da ameaça, quase sempre inconsciente, do outro diferente, são muitas nossas reações: ignoramo-lo ou se o encontramos evitamos a comunhão íntima. O relacionamento permanece profissional ou assaz superficial. Racismo e integrismo escondem medos mais ou menos conscientes. O desejo de união do tipo de fusão no casal ou num grupo manifesta uma diferença mal assumida. A maioria dos conflitos de relacionamento encontram suas raízes nesse medo ou na recusa da diferença. São Francisco intuitivamente compreendeu que a única maneira de viver sadios relacionamentos, sem medo do outro, é por meio do cultivo da pureza do coração que é fruto de longa conversão.

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Para Francisco, a pureza de coração não é, em primeiro lugar, uma virtude moral, mas uma disposição interior fundamental e bem precisa de se colocar diante de Deus, do mundo e dos outros. Ter um coração puro é, pouco a pouco, se libertar interiormente de todo desejo de “possuir” os outros, de querê-los concordando com nossas ideias e ver-se livre de toda servidão aos bens materiais. Homem impuro, segundo Francisco, é o homem “proprietário”, egoísta, que se apropria dos dons e dos bens que recebeu, desvia em proveito próprio as pessoas e o próprio Deus.

O homem puro é aquele que acolhe com respeito o “Outro”, Deus e os outros sem a pretensão de colocá-los imediatamente a seu dispor. Francisco chega a este modo de ver as coisas depois de constatar que Cristo nunca procurou seu interesse próprio, mas a vontade do Pai e a profunda felicidade dos homens.

Francisco que, na sua juventude, buscava a glória pessoal, em princípio não tinha um “coração puro”. Ele o conquistou no termo de um longo combate interior, sobretudo por ter feito a experiência espiritual de Deus como dom de si, fonte que faz jorrar um Amor criador e libertador. Um Amor que não concorre com minha liberdade, mas que me constrói, me estrutura, me realiza. Um Amor “soberano Bem”, que é fonte e termo de nossa verdadeira identidade.

O homem que deitou as raízes de sua identidade e de seu amanhã nesse amor gratuito está livre dessa visceral necessidade de possuir, de excluir outros para existir. Há lugar para todos. Assume a pobreza radical, sua finitude, deixando-se encher pela riqueza infinita do amor do Criador. O homem puro sabe que tudo é dom, e que não é proprietário de nada. Compreende que todo desejo de dominação, de apropriação e de fusão é confissão de pobreza não assumida.

Pode-se dizer que, em Francisco, pureza de coração é uma variante da pobreza evangélica, que se encanta com os dons de Deus sem querer possui-los. Daí seu respeito pela criação, pelos homens em sua diversidade cultural e religiosa. Não tem medo das diferenças. Toda forma de intolerância, fanatismo, sectarismo é confissão de medo do outro, de fragilidade pessoal, falta de enraizamento naquele que é nossa fonte e nossa realização.

Nossas sociedades ditas de consumo mostram claramente o que acontece quando o homem esquece a pureza de coração: o desrespeito pela natureza (poluição) conduz ao desrespeito pela vida (a prática da tortura, toda sorte de violência, aborto procurado) e desrespeito pelo corpo (a pornografia vulgar). Estamos aí diante de uma lógica trágica e implacável.

A partir do momento em que a pessoa humana se distancia de sua fonte transcendente, original (Deus, fonte de todo bem) e de sua finalidade, a plenitude de Deus, fica reduzida a um objeto a ser tomado, consumido. Os casados não são proprietários de seu cônjuge, de seus filhos nem da criação. A pureza de coração, que por vezes Francisco chama de amor casto, vai muito além da simples sexualidade. Uma pessoa consagrada a Deus, um religioso, mesmo impecável no ponto de vista da continência corporal pode ser um homem de coração impuro, segundo Francisco, quando se manifesta possessivo, proprietário de sua função, dominador e intolerante.

Destarte, não é mero acaso que Francisco sempre associe pureza de coração e adoração: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus (Mt 5,8). São verdadeiramente puros de coração os que desprezam as coisas terrenas, buscam as celestes e nunca desistem de adorar e de procurar o Deus vivo e verdadeiro com o coração e a mente puros” (Adm XVI).

Não fechar seu coração nos bens legítimos desta terra, permanecer um buscador dos bens espirituais, livre de todo apego excessivo que aliena o coração do homem tudo isso se torna possível, segundo Francisco, por meio da adoração, quer dizer, quando a pessoa enraíza-se numa transcendência, a do amor gratuito de Deus.

O homem com coração puro, liberto de toda alienação interior, de toda forma de egoísmo que fecha o homem sobre si mesmo, torna-se capaz de ver Deus em toda coisa criada, discernir que a finalidade de cada uma é o amor plenificante de Deus.

“Na santa caridade que é Deus, rogo a todos os irmãos, tanto os ministros quanto aos outros que, removido todo impedimento e todo cuidado e postergada toda preocupação, do melhor modo que puderem, esforcem-se por servir, amar, honrar, adorar o Senhor Deus com o coração limpo e com a mente pura, pois é isso que ele deseja acima de tudo…” (Regra não bulada, 22, 26).

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Francisco convida seus irmãos a deixarem de lado tudo o que pode fazer obstáculo a esse amor gratuito de Deus que personaliza, humaniza, diviniza e transfigura o homem. Se o ser de Deus é amor, amar é participar um pouco mais no ser de Deus. Todo amor puro, verdadeiro, desinteressado me aproxima de Deus e torna puro meu coração. Francisco está de tal forma imerso na pura luz do amor de Deus, como numa fonte vivificante que ele mesmo se torna pureza em seu olhar e seus desejos.

Se a adoração, a abertura do coração a Deus é fonte de liberdade interior, de pureza do coração compreende-se porque Francisco insiste tanto na vigilância do coração. Esta adoração vigilante do coração é escola de respeito de si, dos outros e da criação. Nossa maneira de considerar nosso corpo, os outros, a criação é reflexo de uma disposição interior de meu coração. Jesus denuncia nossa tendência de projetar impureza nas coisas exteriores. Trata-se de uma maneira sutil de não assumir nossa responsabilidade.

“…Ouvi-me todos e entendei. Nada que vem de fora de uma pessoa pode torná-la impura, O que sai de dentro da pessoa é que a torna impura (…). É do interior do coração das pessoas que provêm os maus pensamentos, a prostituição, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as perversidades, a fraude, a desonestidade, a inveja, a calúnia, o orgulho e a insensatez. Todos estes vícios vêm de dentro e tornam a pessoa impura” (Mc 7, 14-23).

A impureza segundo Jesus não está nas coisas criadas mas no coração do homem que as contempla e delas se apropria egoisticamente. É nosso olhar que é impuro, possessivo e captativo: “A lâmpada do corpo é o olho. Se teu olho é puro todo o teu corpo será luminoso” (Mt 6,2).

Para melhor viver tal pureza de coração, qualquer que seja nosso estado de vida, podemos refletir sobre encontros de Cristo nos evangelhos. Ele é o homem do coração puro, cujo amor é casto, respeitoso e nunca possessivo. Aos que chama no seu seguimento repete sempre: “Se queres…”. No momento de sua paixão não prenderá a si os apóstolos que ele próprio havia escolhido. Coração puro é aquele que não procura capturar o outro, mas o ajuda a descobrir sua própria identidade, suas próprias riquezas, sem querer que ele se pareça conosco, pense ou aja como nós agimos.

“Testemunhas dos bens futuros e empenhados pela vocação abraçada em adquirir a pureza de coração, desse modo (os franciscanos seculares) tornar-se-ão livres para o amor de Deus e dos irmãos” (Regra da OFS, n. 12)

Fonte: PFICB

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