Guadalupe, somos todos nós

Por| Hermes de Abreu Fernandes

Neste dia 12 de dezembro, comemoramos a festa mariana de Nossa Senhora de Guadalupe. Das ermidas às catedrais, a Virgem com traços indígenas é lembrada como Mãe e Senhora. Mais que uma devoção mariana, Guadalupe se nos revela o rosto materno de Deus que se manifesta aos pequenos e empobrecidos.

Assim como no século XVI, o México hoje é lugar de preocupante ardor missionário. Não se pode negar o quanto aquele povo foi e é afetado pela exclusão e desigualdade social. Não são raras as notícias de mortes violentas, desconstrução dos ideias de defesa e promoção dos Direitos fundamentais que afligem lancinantemente o povo mexicano. Neste país, podemos ver desde as ruínas do antigo coração do império maia (Chichen Itza) ou Mexica (Tenochtitlan), as reservas da biosfera tão relevantes quanto o Santuário da Borboleta Monarca. Também possui uma longa história e tradição, com uma ampla diversidade cultural e uma densidade populacional que o torna um dos dez países mais densamente povoados do mundo. A superpopulação também superlativa a pobreza. O sucateamento da saúde e da educação, tornando-as acessíveis aos mais abastados, excluindo os empobrecidos. Segurança pública é um ser mítico e utópico. Inexistente na realidade. Em consequência, atrelado a isso, a insegurança é um dos problemas mais conhecidos neste país, sendo considerada a principal causa de preocupação para os habitantes do México e tendo este país algumas das cidades consideradas mais perigosas no mundo. As principais razões para isso são o crime, sobretudo, o crime organizado. Especialmente o tráfico de drogas. Ainda mais: apesar de desfrutar de uma ampla variedade cultural, várias organizações observaram que há um nível muito baixo de inclusão social em relação às minorias étnicas , incluindo descendentes de povos indígenas.

Não se pode negar: depois de mais de 4 séculos, a desigualdade social, a ausência de Direitos Fundamentais, a plutocracia e marginalização dos indígenas não difere. O tempo passou, mas não as dores. Chora-se o mesmo pranto.

Voltemos a 1531. Estava o índio Juan Diego no campo. Ele sofria por causa da grave enfermidade de seu tio a quem muito amava. Juan rezava por seu tio quando teve a visão de uma mulher com seu manto todo reluzente. A Senhora pediu que o índio fosse revelar sua mensagem ao Bispo local e lhe pedisse que naquele lugar fosse construído um santuário para a honra e glória de Deus. Ela o chamou por seu nome e disse em nauátle, a língua asteca: Juan Diego, não deixe o seu coração perturbado.

O bispo, em pretensa prudência põe o indígena à prova. O sinal comprobatório se dá sobre a referida doença do tio de Juan Diego. Isso ocorreu quando Juan Diego buscava um sacerdote para o tio doente: “Escute, meu filho, não há nada que temer, não fique preocupado nem assustado; não tema esta doença, nem outro qualquer dissabor ou aflição. Não estou eu aqui, a seu lado? Eu sou a sua Mãe dadivosa. Acaso não o escolhi para mim e o tomei aos meus cuidados? Que deseja mais do que isto? Não permita que nada o aflija e o perturbe. Quanto à doença do seu tio, ela não é mortal. Eu lhe peço, acredite agora mesmo, porque ele já está curado. Filho querido, essas rosas são o sinal que você vai levar ao Bispo. Diga-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Você é meu embaixador e merece a minha confiança. Quando chegar diante dele, desdobre a sua “tilma” (manto) e mostre-lhe o que carrega, porém, só em sua presença. Diga-lhe tudo o que viu e ouviu, nada omita…”

O prelado viu não somente as rosas, mas o milagre da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, pintada prodigiosamente no manto do humilde indígena. Ele levou o manto com a imagem da Santíssima Virgem para a capela, e ali, em meio às lágrimas, pediu perdão a Nossa Senhora. Era o dia 12 de dezembro de 1531.

Uma linda confirmação deu-se quando Juan Diego fora visitar o seu tio, que sadio narrou: “Eu também a vi. Ela veio a esta casa e falou a mim. Disse-me também que desejava a construção de um templo na colina de Tepeyac e que sua imagem seria chamada de ‘Santa Maria de Guadalupe’, embora não tenha explicado o porquê”. Diante de tudo isso muitos se converteram e o santuário foi construído.

O grande milagre de Nossa Senhora de Guadalupe é a sua própria imagem. O tecido, feito de cacto, não dura mais de 20 anos e este já existe há mais de quatro séculos e meio. Durante 16 anos, a tela esteve totalmente desprotegida, sendo que a imagem nunca foi retocada e até hoje os peritos em pintura e química não encontraram na tela nenhum sinal de corrupção.

No ano de 1971, alguns peritos inadvertidamente deixaram cair ácido nítrico sobre toda a pintura. E nem a força de um ácido tão corrosivo estragou ou manchou a imagem. Com a invenção e ampliação da fotografia descobriu-se que, assim como a figura das pessoas com as quais falamos se reflete em nossos olhos, da mesma forma a figura de Juan Diego, do referido bispo e do intérprete se refletiu e ficou gravada nos olhos do quadro de Nossa Senhora. Cientistas americanos chegaram à conclusão de que estas três figuras estampadas nos olhos de Nossa Senhora não são pintura, mas imagens gravadas nos olhos de uma pessoa viva.

Declarou o Papa Bento XIV, em 1754: “Nela tudo é milagroso: uma Imagem que provém de flores colhidas num terreno totalmente estéril, no qual só podem crescer espinheiros… uma Imagem estampada numa tela tão rala que através dela pode se enxergar o povo e a nave da Igreja… Deus não agiu assim com nenhuma outra nação”.

Coroada em 1875 durante o Pontificado de Leão XIII, Nossa Senhora de Guadalupe foi declarada “Padroeira de toda a América” pelo Papa Pio XII no dia 12 de outubro de 1945.

No dia 27 de janeiro de 1979, durante sua viagem apostólica ao México, o Papa São João Paulo II visitou o Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e consagrou à Mãe Santíssima toda a América Latina, da qual a Virgem de Guadalupe é Padroeira.

Quão admiráveis são estas narrativas. Estilos hagiográficos à parte, podemos estar certos de que na história desta devoção, há muito da relação entre Deus e os homens. Não há dor, traduzida em pranto, que fica sem o acalento dos céus. Maria, na figura de Nossa Senhora de Guadalupe, é a maternidade de Deus que acalenta seus filhos. Sua presença entre os indígenas, traduz a certeza de que somos todos humanos e nesta humanidade se encerra a dignidade. Não em origens étnicas. A cura do tio de Juan Diego, mais que um fenômeno da taumaturgia, é o sinal de que Deus caminha conosco. Maria, aqui instrumento dele, acalenta e se faz sinal de esperança.

Não vivemos tempos diferentes de Juan Diego. Também caminhamos aflitos, acabrunhados por nossas dores. Incertezas são muitas. Queira Deus se fazer presente, sendo-nos alento. Que a Virgem de Guadalupe ouça nossos prantos e os apresente ao Pai. Aquela que muito amou Jesus, seu Filho; também nos ama. Que venha até nós suas rosas. Guadalupe somos todos nós!

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